SEVILHA: Técnica dividida em triângulos

13 de Maio de 2006

Uma equipa de futebol rendilhado, fiel à raiz andaluz, congeminada por um treinador discreto, mas que se vai tornando uma referência no futbol espanhol: Juande Ramos. Vejamos a essência do seu projecto sevilhano. Para se perceber melhor o contexto em que cresce qualquer projecto num clube de Sevilha, convêm recordar que a Andaluzia é como um mundo à parte no futebol espanhol. Jogado quase sempre sob um calor tórrido, criou um estilo muito mais técnico em contraste com outras regiões da imensa Espanha. Andaluzia e seus principais clubes (Bétis e Sevilha) sempre foi vista como uma espécie de refúgio dos tecnicistas. Nesse imaginário, conta-se a história de uma antiga estrela do Bétis dos anos 60 chamada Rogélio. Corente e respeitador dessa tradição local, jogava com grande classe mas quase a passo, nem pestanejando com os berros do treinador na berma do campo pedindo-lhe Maios velocidade.

Conta-se então que Rogélio se virava para o mister e lhe dizia do alto da sua superioridade técnica: “Correr é para cobardes!” O fútbol de Rogélio era, pois, de outra casta. Perfumada, bolinha no pé e tocar, tocar… Como diria Menotti, a quem também acusavam, na cálida Argentina, de se entregar pouco ao jogo: “Era só o que faltava que para jogar futebol tivesse de correr…” O actual Sevilha de Juande Ramos é, entendendo toda estas histórias em termos hábeis, uma projecção desta ideia de futebol superior. Muitas vezes, mais do que os jogadores, quem corre é a bola. Noutras são os velocistas das alas. Ou seja, em diferentes espaços do campo, explora diferentes velocidades de jogo. Um entendimento perfeito do futebol moderno, pois cada espaço, pelas inerentes diferenças de temporização e faseamento de jogo que implica, tem obrigatoriamente de ter uma velocidade diferente. Com ou sem bola.

SEVILHA Técnica dividida em triângulosEm termos de sistema, joga num 4x4x2 aberto a toda a largura do tereno. Alterna o design clássico com o quarteto intermediário em linha, quando não tem a bola, e os alas Adriano-Jesus Navas recuam e colocam-se quase de perfil com o duplo pivot Maresca-Marti, com o losango, quando recupera a bola e os alas soltam-se no ataque, acompanhados da subida de um dos pivots que, avançando a queimar linhas, surge depois na zona de construção, papel interpretado por Maresca. A beleza de tudo isto, é que, ao mesmo tempo que, na direita, Daniel Alves sobe a combinar muito bem com Navas, e, um dos pontas de lança recua para vir buscar jogo atrás ou arrastar marcações (foi o que fez Luís Fabiano), a equipa mais do que desenhar o losango, desenha uma série de triângulos por todo campo. Ou seja, à medida que o portador da bola avança no terreno, a movimentação sem bola os outros jogadores, vai desenhando sucessivas linhas de passe, mais curtas que longas, que permitem a equipa ir progredindo rumo à baliza contrária em múltiplas triangulações. É esta aliás a essência táctico-dinámica do losango: permitir desenhar uma infinidade de triângulos ao longo do campo até se perder de vista o seu design inicial que ficou perdido no papel. Neste sentido o Sevilha de Juande Ramos é uma lição para as universidades tácticas do futebol moderno. Essência do belo fútbol andaluz mesmo com brasileiros e italianos…