Simeone: “Touro” ou “Toureiro”?

26 de Dezembro de 2014

Simeone Touro ou Toureiro

Pensando numa interpretação tauromáquica do futebol, ainda não percebi, honestamente, se este At. Madrid de Simeone é o “touro” ou o “toureiro”. Lembrei-me desta metáfora devido à forma como Menotti explicou o sucesso do novo futebol espanhol a partir do dia em que decidiu ser toureiro e não touro, deixando a fúria (mais do que um estilo, um simples estado de ânimo) de lado. Não quero com isto dizer que para ganhar, o pensamento de Simeone tenha de seguir a mesma opção, até porque, no futebol e seu lado estratégico, há tempo para as duas coisas.

Um factor decisivo no futebol atual é uma equipa estar preparada para jogar de maneiras diferentes. Quando no seu livro “A motivação como estratégia”, Simeone diz que “isto é um jogo e não ganha o que melhor joga, mas sim aquele que está mais seguro do que faz” quer dizer, afinal, que é mais provável ganhar um jogo quando se tem mais jogadores convencidos do que têm de fazer, do que quando se tem muitos jogadores que jogam bem.

Este At.Madrid é a personificação dessa ideia. Desmonta a tese da superioridade moral da posse de bola e acredita mais na pressão e naquilo que os argentinos chamam de “jogo profundo”, isto é, a profundidade na transição defesa-ataque, o estilo ideal para a velocidade musculada de Diego Costa.
Na base, o primado da organização sem bola protege a equipa em todos os momentos, sobretudo no momento de perda da posse. O jogo com o Barcelona foi o exemplo perfeito deste teoria. Noventa minutos a encurtar espaços (o chamado “achique” argentino) ao portador de bola adversário, num 4x4x2 de bloco baixo e linhas (meio-campo e defesa) muito juntas, impedindo que os jogadores do Barça entrassem entre elas.

Não há dúvida sobre a qualidade do treinador-Simeone. Fico a pensar, porém, como jogaria se treinasse a outra equipa, mais forte e com melhores jogadores. Jogaria de forma muito diferente? Não acho. Acredito que mudaria a estratégia apenas porque teria naturalmente mais bola e o seu pensamento/preparação sobre o jogo incidiria exatamente no inverso do que acabara de suceder, não ter a bola na maioria do tempo. Porque, em suma, o futebol é um jogo de abrir e fechar espaços. Este At. Madrid é mestre a fechá-los. A linha de quatro médios Koke-Arda, nas alas, Tiago-Gabi no centro, duplo pivot, são, nesse sentido, um tratado táctico espelho da identidade cruzada entre agressividade e intensidade num estilo de contra-ataque.

É a imagem da nova escola de treinadores argentinos: o primado da organização defensiva no plano tático de preparação do jogo. Nesse sentido, Martino é semelhante. Mais do que contratado para treinar a equipa do Barcelona, ele foi contratado para treinar uma ideia de jogo (o estilo-Barça).
O seu Newell`s, porém, nunca fora uma equipa ofensiva, mas antes robusta e bem posicionada na defesa e meio-campo. O seu Barça continua a trocar a bola mas nas entranhas vai tendo cada vez mais essa impressão digital, vista, por exemplo, no facto de neste jogo com o At. Madrid quase não ter deixado subir os laterais Jordi Alba-Dani Alves, e, no plano global, pela forma como também já faz passes mais longos, o tal “jogo profundo” argentino.

Simeone Touro ou Toureiro“El Cholo” Simeone e “El Tata” Martino. Dois treinadores argentinos na “canchas” espanholas. Os jogadores e o “ter ou não ter a bola” fazem a diferença. A grande consagração de Simeone como treinador será quando a pergunta do titulo deixe de fazer sentido colocar-se e tenha a “capa e o capote tático” do jogo durante 90 minutos. Ou será que já tem?

DESTAQUE:
O modelo de jogo? Identidade com agressividade e intensidade em linhas juntas, num estilo de contra-ataque.