Talento e temperamento

23 de Julho de 2007

Talento e temperamento

Entre as várias classes que se podem criar de jogadores de futebol, existem duas bem notórias numa equipa: os talentos e os operários. Ou seja, os que joga e os que trabalham. Regra geral, os trabalhadores estão convencidos que, como têm um défict técnico inato, só correndo mais, trabalhando mais, conseguem um lugar. Gattuso, o médio flinstone do Milan, diz que é comum, quando vê Kaká nos treinos, perguntar-se como é possível que também ele seja jogador de futebol. Os talentosos, por sua vez, como tem essa superioridade com a bola, crêem que não precisam de trabalhar tanto. Dirão que, nesta divisão, pelo menos os talentos também podem ser trabalhadores. É verdade. E não faltam exemplos. São muitos, porém, os casos de talentos que, ao longo das épocas, com um ego desmedido, menosprezaram o lado operário do jogo e, com isso, desperdiçam o seu talento por questões de temperamento. Aceitam mal quando ficam de fora ou são substituídos. Foram os colegas que não ajudaram, o treinador que o pôs fora de posição, o adversário duro demais e, no fim, o mundo que não os entende. Há talentos, porém, que são tão grandes que resistem a tudo. Mesmo a trabalhar pouco. Maradona, Romário, Stoichkov. Esses, no entanto, são génios. Há, depois, os talentos dito mais terrenos. Os tais que não passam sem também trabalhar aquele dom natural. A ultima década do futebol português, teve alguns casos simbólicos. Dani, terá sido o mais evidente.

Quando percebeu que lhe faltava esse espírito de sacrifício seguiu por outra vida. Alguns nomes em destaque no defeso estão ligadas a esta incapacidade de trabalhar o talento. Carlos Martins e Hugo Leal. Com estilos e contornos bem diferentes. Carlos Martins arrisca cair mesmo no grupo do «casos perdidos». O Sporting, e Paulo Bento, desistiram dele. Superaram-se os problemas musculares, manteve-se o lado indomável do temperamento. Hugo Leal foi, quando surgiu, um projecto de Rui Costa. Não passou disso, mas, nos fogachos de talento que ainda soltou pelos vário cubes, vi sempre reminiscências –curtas, é certo- desse tempo. Passeou sempre uns quilitos a mais. O carácter que Carlos Martins tinha a mais parecia que Hugo Leal tinha a menos. Huelva e Restelo são as próximas paragens para o talento e temperamento de ambos.

Também pensei nesta dicotomia talento-temperamento a propósito de dois novos reforços do Sporting. Izmailov e Vukcevic. Sigo ambos com especial devoção desde as camadas jovens porque vi logo neles um talento imenso. Tanto que pensava por esta altura já estarem na elite dos melhores jogadores europeus da actualidade, apesar de ainda novos. Mas não, continuei a segui-los e as suas proezas com a bola foram quase sempre cruzadas com histórias de desentendimentos com os treinadores, clubes ou equipas onde jogavam. Do que precisam estes jogadores, afinal? Há quem diga que é apenas de carinho, umTalento e temperamentoa conversa mais intimista, capaz de ler-lhes o pensamento. Será. Bem vistas as coisas, aquilo a que o homem aspira mesmo na idade adulta é em reviver na plenitude a sua infância. Mas há, claramente, quem exagere nessa tentativa.

Lembro-me da historia de René Housemam. Era um extremo argentino que eu adorava na minha infância pelos anos 70. Como ele fintava. No Mundial 74, sentou quatro holandeses numa jogada. No fim, até perderam por 0-4, mas com Houseman ninguém brincava. Pois bem, uma vez, quando jogava no Huracan, não apareceu no estágio em vésperas de um jogo que ia decidir o campeonato. O tempo ia passando até que Menotti, o treinador, disse então ao adjunto: «Anda, já sei onde ele está». Saíram e foram ao bairro de Belgrano, onde Houseman vivia. Chegados lá, viram que num pequeno campo de terra se disputava uma peladinha rodeada de gente do lugar. Menoti procura por ele mas não o vê a jogar. Estava sentado no banco de suplentes. Chega perto dele. «René, que fazes aqui?», pergunta-lhe. «Que faço aqui? –responde Houseman- olhe bem para o titular, é um fenómeno!» Talentoso e temperamental, ele pensou que o treinador reprovava que fosse suplente sem contestar na sua equipa de bairro e não a ausência do estágio.