Treinador maior do que a equipa

14 de Janeiro de 2011

Treinador maior do que a equipa

Através do tempo, o treinador sempre foi visto como alguém quase sobrenatural. Técnico, professor e feiticeiro. Chapman, Stein, Herrera, Michels, Kovacs... Todos treinadores para a eternidade. Recordamos os seus nomes, recordamos as suas equipas. Mourinho também se tornou um treinador imortal. Venceu a Bola de Ouro para melhor treinador do ano e, mais sublime ainda, será muito provavelmente considerado o melhor treinador de sempre. Mas, sendo esta constatação cada vez mais pacífica, como é possível então que o melhor treinador do mundo não tenha treinado a equipa considerada, também unanimemente, como a melhor do mundo? Um paradoxo que foge à simples lógica do resultado.

Olhando todos aqueles treinadores que marcaram a história, todos deixaram uma marca na evolução do jogo. Ou seja, é fácil identificá-los com uma ideologia própria de jogo. Do «WM» ao Catenaccio, do “Futebol-Total” até mesmo ao “tiki-taka” do actual Barça de Guardiola. Em Mourinho, porém, não é possível distinguir uma filosofia única de jogo. Isto é, não existe uma forma comum das suas equipas jogarem. FC Porto, Chelsea, Inter e Real Madrid, cada qual tem um estilo e expressão diferente, que muda, inclusive, de jogo para jogo. Pode-se, em termos técnicos, falar no primado da organização defensiva e das transições rápidas, mas, todas valem sobretudo pelo seu lado mais estratégico. Depois de estudar a idiossincrasia futebolística onde está, Mourinho molda a sua filosofia de jogo.

O seu próprio FC Porto, teve duas caras em duas épocas sucessivas (do 4x3x3 para o 4x4x2) moldando um upgrade táctico a meio-campo que o levou a triunfar internacionalmente. Em Inglaterra, o seu Chelsea marcou a diferença pela forma evoluída de defender em contraste com o tradicional futebol inglês. Tal marca de distinção seria impossível em Itália, pátria do “defensivismo”. Por isso, o seu Inter foi uma equipa de estratégia, dupla-personalidade dos relvados internos para os internacionais, capaz de pressionar alto e jogar em contra-ataque ao mesmo tempo. Muda mesmo de jogo para jogo frente ao mesmo adversário (recorde-se os jogos com o Barcelona).

Espanha é outra realidade. Do outro lado estão os “reis” do futebol bonito, técnica e passe. O Barcelona é um produto ideológico acabado que nasceu antes de Guardiola e continuará depois dele. Mourinho não sonha em fundar outra ideologia que eternize a sua passagem por Madrid. Pelo contrário, apenas tem o projecto de ganhar. A forma como tentará, será a mais adequada em função do adversário.

Quando Mourinho questiona a capacidade de outros grandes treinadores fazer o mesmo em clubes diferentes, está, no fundo, a questionar se a tão elogiada ideologia de Guardiola será capaz de triunfar noutro contexto, adaptando-se a ele até o transformar, como Mourinho fez nos diferentes países por onde passou. Por isso, ele é hoje o expoente máximo do “treinador da estratégia”, ideologicamente híbrido. Ficará na história não pela forma de jogar das suas equipas, mas pelo poder estratégico, tacticamente “camaleónico” e, noutro plano, pelo estilo de liderança e imagem sedutora (no passado, o único com sensibilidade semelhante foi Herrera, anos 60). A diferença é que daqui a 20 ou 30 anos, lá para 2040, quando recordarmos esta época, vamos recordar o futebol mágico do Barcelona, vamos recordar Mourinho mas não vamos recordar como jogava a…sua equipa. Vamos apenas recordar o seu treinador, muito maior (na estratégia, comunicação e imagem) do que onze jogadores. Só assim é possível que a equipa do ano em 2010 seja diferente da do treinador do mesmo ano.

Por qualquer clube por onde passa, Mourinho sempre foi maior do que as equipas que treinou, por mais que elas ganhem, por mais estrelas que elas tenham. Nunca nenhum treinador na história do futebol conseguira esta proeza. É o fim das grandes ideologias no futebol moderno?