TREINADORES: Mestres e Feiticeiros

09 de Agosto de 2004

OS MAIORES TREINADORES EUROPEUS: Quando, em 1967, no Jamor, Jock Stein conquistou com o Celtic a Taça dos Campeões Europeus, Bill Shankly virou-se para ele e disse-lhe: “Jock, a partir de agora, serás imortal!”. Na frase do mítico escocês estava inserida toda a dimensão que uma vitória nas competições europeias transmite á carreira de um treinador. Uma elite de grandes conquistadores onde, entre os mais titulados, moram mestres e feiticeiros como Happel, Paisley, Goethals, Ferguson, Rocco, Sacchi Cruyff e, como grande referência, Trapatonni, o único, até ao presente, a vencer todas as provas da UEFA a nível de clubes.

Para lá das seculares ambições independentistas, o País Basco criou, em Espanha, um universo único onde habita, orgulhoso, um clube de futebol só com jogadores nascidos na região, o Athletic Bibao, histórico intérprete de um jogo britânizado, devido ao facto de, quase sempre, ele se desenvolver sob forte chuva. Era essa a atmosfera que esperava, na noite de 18 de Maio de 1977, onze jogadores da Juventus para a disputa da segunda mão da final da Taça UEFA. Nessa noite de trovões, porém, emergiu, por entre autêntico dilúvio, um estridente assobio vindo das margens das quatro linhas. O seu emissor era um enérgico treinador que, encharcado até aos ossos, gritava e incentivava os seus guerreiros que, em campo, seguravam, heroicamente, a vantagem de um golo trazida de Turim: Giovanni Trapatonni. Três anos atrás, em 74, ele já estivera, em Roterdão, numa final europeia, a Taça das Taças, no banco do AC Milan que assumira a meio da temporada após a saída de Rocco. Nesse ano, porém, acabara derrotado, frente ao Magdeburgo (0-2). Em Bilbao, tudo seria diferente e quando soou o apito final, missão cumprida, invadiu o relvado, abraçou os seus jogadores e, a partir desse momento, data em que a Juventus conquistou a primeira competição europeia da sua história, nunca mais o Velho Continente o perdeu de vista.

Ao longo de quase três décadas, tornou-se num dos seus mais respeitados e prestigiados treinadores, aquele que, até ao presente, mais finais europeias disputou (oito) e venceu (seis). É o único a ter conquistado todas as provas da UEFA: Taça dos Campeões (1985), Taça das Taças (1984) Taça UEFA (1977, 1991, 1993) e SuperTaça Europeia (1984). Para além dele, apenas Lattek e Eriksson também estiveram presentes em todas as diferentes finais, mas apenas venceram por três vezes.

A técnica e a força: cruzamentos de estilos

TREINADORESVivia-se em pleno ciclo de domínio do chamado futebol-força anglo-saxónico. Aos poucos começavam a esbater-se os louros do dourado futebol holandês (a bela geração que mitificara Ajax e Feyenoord separara-se por toda a Europa) e definitivamente encerrado no passado parecia estar o defensivismo transalpino que, com Rocco e Herrera, tinham levado os conservadores clubes italianos (Milan e Inter) ao topo da Europa. Neste contexto, o triunfo da Juventus de Trapattoni era como que um intruso no mundo do futebol musculado de alemães e ingleses, nos quais, entre os treinadores, emergiam como principais símbolos Bob Paisley, na Inglaterra, e Udo Lattek na Alemanha. Ao lado destes dois monstros, vivia uma águia austríaca com cara de poucos amigos a quem os jogadores, dizia-se, chamavam tirano, mas que respirava futebol por todos os poros: Ernst Happel, um sábio técnico que, nos anos 70/80, deixaria a sua marca por toda a Europa, sobretudo com o Hamburgo e o Brugge. A Bélgica, aliás, começava a tornar-se, nesse tempo, como que num mórbido laboratório táctico, bem evidenciado em campo pela forma como as suas equipas e selecção interpretavam uma nova táctica por eles próprios inventada. Era a chamada “defesa em linha”, armadilha traiçoeira de colocar os adversários fora-de-jogo. Na selecção brilhava Guy This, a nível de clubes, destacava-se Raymond Goethals. Paisley, Lattek, Happel e Goethals. Cada qual no seu estilo, cada qual com o seu perfil táctico, adaptado ao país e ao clube onde viviam e trabalhavam, deixaram a sua marca eterna nas competições europeias, onde figuram até hoje entre os treinadores com mais títulos e finais alcançadas.

Paisley e Lattek: O auge do futebol-força

TREINADORES1O futebol inglês e seus treinadores nunca foram famosos pela sua inovação táctica, mas Bob Paisley merece um especial destaque. Com ele, o empolgante Liverpool dos anos 70 evolui, claramente, em termos tácticos. Refinou a sua forma de jogar e lapidou o kick and rush, chuta e corre, e preconizou um design mais elaborado, desde logo evidenciado na forma como os seus defesas centrais passaram a sentir-se mais confortáveis com a bola nos pés, casos de Thompson, Hughes (estes ainda da era-Shankly) Hansen e Lawrenson. A meio campo, onde teve dois nº7 geniais (Keegan, primeiro, Dalglish, depois) os médios pouco marcavam, destacando-se, nas manobras ofensivas, os extremos e os laterais. Udo Lattek foi um símbolo da época de ouro germânica. Embora não tivesse a astúcia de Weisweiller, criador do grande Borussia Moenchengladbach, era um motivador que surgia á frente de grandes equipas com a espinha-dorsal já construída e nas quais se limitava, sobretudo, a dar-lhe, com o seu carisma, um novo impulso competitivo. No Bayern, em 74, deparou-se com o bloco da selecção campeã do mundo: Maier, Beckenbauer, Breitner, Hoeness e Muller. Em Monchengladbach, com o qual ganhou a Taça UEFA em 79, ainda bebeu do trabalho de Weisweiller, num onze onde era grande estrela um médio dinamarquês, Simonsen, que depois também encontraria em Barcelona, onde logrou a sua última conquista europeia, em 82, numa final disputada em pleno Camp Nou, frente ao Standard Liege de Goethals. A passagem de Lattek pelo Barça, entre 81 e 83, com estrelas, para além de Simonsen, como Quini, Carrasco, Esteban, Migueli e Alesanco, surge, porém, numa época conturbada, quando o clube catalão lutava por quebrar o domínio do Real Madrid, mas sofria com o facto do futebol espanhol atravessar então, em termos de estilo, uma crise de identidade, tornado-se demasiado agressivo.

HAPPEL, A ÁGUIA AUSTRÍACA: as lições da defesa «à zona»

TREINADORES3Em termos de inovação táctica, decisivo para o desenvolvimento da abordagem estratégica do jogo, os anos 70/80 conheceram um treinador fora-de-série: Ernst Happel. Ninguém como ele sabia como dar a volta aos fechados sistemas defensivos italianos. Ainda hoje Trapattoni fala dele com reverência e recorda-o como um professor do qual recebeu duas inolvidáveis lições tácticas que o marcariam para sempre. Sucederam em 78 e 83. Na primeira, Happel treinava o Brugge, e sucedeu quando afastou a Juventus na meia final da Taça dos Campeões (1-0 e 0-2), acabando depois por perder na final frente ao Liverpool de Paisley por 1-0. Essa equipa do Brugge, que duas épocas antes, em 76, já tinha perdido com o mesmo Liverpool na final da Taça UEFA, era uma equipa de grande inteligência táctica, defendia com precisão e contra-atacava com muito perigo, nela brilhando um quarteto defensivo de luxo: Bastijns, Krieger, Leekens e Volders. A grande lição surgiria, porém, em 83, na final da Taça dos Campeões, que Happel já conquistara em 1970 com o Feyennord, quando Trapatonni afirma ter aprendido o que era a marcação á zona no momento em que Happel lançou Rolf sobre o espaço de Platini e venceu o jogo ao anular o mago gaulês sem o marcar directamente, num esquema táctico de 4x4x2, gerido pelo nº10 Magath, com Hyeronimus líbero, Jakobs “stopper” sobre Rossi, Kaltz e Wehmeyer laterais ofensivos marcando, ao mesmo tempo, á zona, Bettega e Boniek, Milewski e Bastrup mais soltos, e, como ponta de lança, o gigante Hrubesch. Nessa noite, a águia austríaca venceria a raposa italiana.

Sacchi, Cruyff, Eriksson e o eterno Goethals

TREINADORES4Após o ciclo da força, os anos 80 abriram uma nova era no futebol europeu, onde a técnica das equipas latinas resgatou o perfume antes ofuscado. Vários treinadores surgiram como catalisadores dessa nova tendência, mas, curiosamente, entre os seus maiores profetas, estavam dois homens vindos de outra escola: Cruyff e Eriksson. A mescla de conceitos e estilos formaria o chamado futebol moderno, cruzamento entre a técnica, a táctica e a capacidade atlética. Embora muito diferentes, no estilo, nas bases do conhecimento e até no discurso, ambos souberam, como poucos, entender os novos tempos e deixar as suas marcas nos relvados europeus, primeiro no seu habitat, depois no cenário latino. Cruyff esteve, de inicio, no renascimento do grande Ajax europeu, que mais tarde, já nos anos 90, Van Gall devolveria ao topo da Europa. Levitado pela mítica escola holandesa, fez depois furor no Barcelona, com o Dream Team de Stoichkov, Laudrup, Koeman e Romário. A proposta-Cruyff era simples e tinha como base o futebol ofensivo, embora muitas vezes, na ânsia pela baliza adversária, conhecesse o outro lado da moeda, como na final da Taça dos Campeões de 1994, quando caiu goleado (4-0) perante outro símbolo do bom futebol dos anos 80/90, o Milan, então já orientado por Capello, exímio tacticista que, sabiamente, dera continuidade á obra iniciada por Sacchi. Basicamente, Sacchi, apesar das tentações defensivistas reveladas noutros contextos, criou um novo futebol italiano no seu Milan, onde o, digamos, testamento berlusconiano, impunha um cariz mais ofensivo. Inteligente, congeminou então uma fórmula que, com grandes jogadores, garantia ao mesmo tempo a segurança defensiva e a capacidade atacante. Chamaram-lhe a “zona pressionante”, pela forma como defendia alto, utilizava a táctica do fora-de-jogo e se soltava no ataque em quatro-cinco passes a toda a largura do terreno.

A classe de Eriksson e o último fôlego de Goethals

Noutro contexto, sem fazer ruído, o inicio dos anos 80, viram chegar á elite um jovem técnico que, com fleuma e classe, orientando uma equipa sueca quase anónima, derrotou, na final da Taça UEFA de 1982, o poderoso Hamburgo de Happel, cilindrado em sua casa por 3-0! Toda a Europa ficou muda de espanto. Era o nascer de Eriksson em termos internacionais, o que logo na época seguinte seria confirmado no Benfica, de novo finalista da Taça UEFA. Na base do seu sucesso estava a mescla entre a atitude competitiva do futebol inglês, de quem se confessara admirador, e a maior capacidade técnica típica dos jogadores latinos. O passo seguinte seria, desde 84/85, uma carreira no futebol italiano (Roma, Sampdoria, Fiorentina, Lazio) durante a qual se tornaria membro da triangular elite dos treinadores, junto de Trapatonni e Lattek, que já disputaram todas as finais europeias. As vitórias só surgiriam, porém, em 1999, com a Lazio, colocando fim á forma irónica como muitos críticos se lhe referiam como o único perdedor de sucesso no futebol europeu. Curiosamente, o inicio dos anos 90, década onde emergiram novos grandes treinadores como Lippi e Hitzfeld, marca o último fôlego de um dos mais astutos treinadores da história do futebol europeu: Goethals. 15 anos depois dos triunfos com o Anderlecht, entre 76 e 78, o velho feiticeiro voltava ao topo orientando o conturbado Marselha de Tapie. Aos 72 anos, ainda conservava o mesmo entusiasmo, o cabelo pintado de preto escondia as brancas, e, no banco como nos discursos, parecia um jovem em inicio de carreira.

Ferguson: a uma vitória do Trap

TREINADORES6Neste momento, olhando a tabela dos treinadores com mais títulos europeus conquistados, só há, aparentemente, um homem que, nos tempos próximos, poderá superar Trapatonni. Seu nome: Alex Ferguson. Para construir a sua obra beneficiou, porém, do facto de viver em Inglaterra, onde a pressão dos resultados ainda é menor, o que lhe permitiu passar os primeiros sete anos, em Manchester, sem ganhar nada. A inversão surgiria a partir da conquista da Taça das Taças, em 1991, um triunfo que Ferguson já sentira, de forma mais sensacional, em 1984, quando guiara a igual conquista o modesto Aberdeen escocês, por ele transformado num clube respeitado em toda a Europa. Ferguson, ao contrário de outros grandes técnicos que figuram na lista de notáveis vencedores europeus, terá sido, no entanto, o que menos contribuiu, em termos de inovação. Continua a preconiza um jogo algo rudimentar até, tipicamente britânico, resistindo á sua continentalização, pelo que não é exagero afirmar que com as equipas que sucessivamente teve, poderia, no global, ter realizado melhores perfomances europeias ao longo de 18 épocas em Old Trafford.