TREINADORES SUL AMERICANOS NA EUROPA: Choque de Culturas

23 de Novembro de 2001

Desembarcou na ultima semana no Calcio um homem que nos relvados conquistou toda a Argentina e Itália: Daniel Passarela. Desta vez, porém, a sua missão é á margem das quatro linhas: o banco do conturbado Parma. Depois de deixar a sua marca imperial como jogador, busca agora lograr uma proeza que poucos treinadores sul americanos, e quase nenhum nos últimos anos, atingiram: triunfar no banco das grandes equipas de Itália ou Espanha. Para não recuarmos muito no tempo, num simples olhar á ultima década, descobrimos um must de grandes treinadores que chegando á Europa como grandes vencedores no mundo sul americano, acabaram, no distinto futebol europeu, por fracassar em toda a linha. Entre esses casos estão, desde logo, três campeões do mundo: Os argentinos Menotti (que depois do fracasso em Barcelona, 83, e At. Madrid 88, falhou na Sampdoria em 97), e Billardo (no Sevilla em 94), e o brasileiro Parreira (Valência em 95, poucos meses depois do tetra).

No mesmo trilho do insucesso vislumbram-se Bianchi (Roma,97), Basile (At.Madrid,96), Tabarez (Milan, 97), Maturana (At.Madrid e Valadolid, 94 e 95), Griguol (Bétis, 98), Abel Braga (Marselha, 2000), entre outros, sem esquecer, mais atrás, o homem que quis introduzir o libero na selecção brasileira, Lazaroni (Fiorentina, 91). Os únicos casos de relativo sucesso, são os de Valdano, campeão no Real Madrid em 95, e, embora sem titulos, Cúper, hoje no Inter. Ambos estão, no entanto, na mentalidade, o primeiro, e na concepção de jogo, o segundo, mais europeizados. Os fracassos reflectem-se, sobretudo, na falta de disciplina táctica e na deficiente condição física das equipas. Os métodos sul americanos são essencialmente técnicos, explanados preferencialmente num jogo lento, com fuga ao choque, enquanto que o europeu é o oposto, mais veloz, rígido tacticamente e pujante fisicamente. Colocar o primeiro estilo num campeonato tipicamente do nível do segundo é uma atitude condenada ao fracasso, pois tais conceitos não encaixam no estilo e na atitude da maioria jogadores. Um clássico choque de culturas.

PARMA: A grande missão de Passarela

TREINADORES SUL AMERICANOS NA EUROPA Choque de CulturasPassarela tem pelo seu lado o facto de, tal como Cuper, ser sobretudo um estratega que gosta de construir as equipas partindo da defesa, das experiência e do rigor táctico. Três atributos que são música celestial para os directores dos grandes clubes europeus. No seu jogo de estreia como o Parma, em Turim frente á Juventus, após poucos dias a treinar a equipa, montou o onze num 4-4-2, recuperando para a defesa, um veterano, muito experiente, que com Ulivieri quase nem jogava: Benarrivo, plantado sobre a esquerda, atrás de Junior que passou para o meio campo, visando assim blindar o flanco por onde supostamente deveria entrar Del Piero. Com esta atitude, Passarela, tal como Cuper, está mais próximo da cultura táctica e mental europeia. Desta forma, poderá inverter uma pesada herança de insucesso que pesa sobre o mundo dos grandes técnicos sul americanos no futebol europeu. Em Parma, encontra, no entanto, uma equipa desiquilibrada, sem patrão de jogo e descrente. (11º lugar, a um ponto da zona de descida). No meio campo reencontra um lutador argentino que lançara anos atrás no river Plate: Almeyda. Será ele a pegar no leme de um onze, onde Nakata, enigmaticamente apagado em ano de Mundial, não encontra lugar a titular. No sector defensivo, Canavarro tem de cobrir todo o sector, face ás debilidades posicionais e até tecnicas de Sartor e Djetou.

No ataque, com o jugoslavo Milosevic completamente fora de forma, como sucede em quase metade de todas as temporadas que realiza, o grande destaque é o médio ala direito Di Vaio, que surge agora sempre mais avançado em busca do golo. Já fez 5 esta época. Com 25 anos, muito rápido, forte no um para um e nas tabela, assume-se como um jogador de futuro, inclusive para a selecção italiana. É com este material futebolístico que Passarela terá de trabalhar para realizar um sonho de trunfar no competitivo futebol europeu como técnico, invertendo uma tendência negativa que desde há anos acompanha os treinadores do Novo Mundo na Europa.