TREINADORES SUL-AMERICANOS NA EUROPA

12 de Janeiro de 2006

Chegaram à Europa com a aura gloriosa de serem os treinadores sul americanos com mais títulos conquistados: Wanderley Luxemburgo e Carlos Bianchi, treinadores de referência no Brasil e Argentina, reuniram-se, esta época, em Espanha, nos dois grandes clubes de Madrid. Ultrapassado por uma voraz politica estratégica mediático-financeira e incapaz de gerir os equilíbrios táctico-individuais dentro da equipa, o reinado de Wanderley Luxemburgo no Real Madrid durou apenas onze meses, caindo, sem apelo, vítima dos maus resultados e, sobretudo, da crise exibicional evidenciada pela equipa. Ao mesmo tempo, Carlos Bianchi, que assumiu o comando do At.Madrid no início desta época, acabou demitido após seis meses de profunda depressão. A equipa esteve sempre longe das boas exibições, caiu para o fundo da tabela e o seu lugar ficou desde muito cedo debaixo de fogo. Para Bianchi, que em 96/97 já tivera uma primeira aventura sem sucesso na Europa, à frente da Roma, este novo fracasso europeu pode significar o fim das suas ambições no Velho Continente da bola.

Maturana, Lazaroni, Basile, Tabarez…

TREINADORES SUL-AMERICANOS NA EUROPAO caso de insucesso de Wanderley Luxemburgo surge, no entanto, na senda de outras aventuras fracassadas de grandes treinadores sul-americanos no futebol europeu. Para essa conclusão, não é necessário recuar muito no tempo e basta um simples olhar ás duas ultimas décadas, desde os anos 80, para descobrirmos um núcleo de grandes treinadores vindos do novo mundo que, chegando à Europa com grande prestígio ou muitos títulos conquistados nas competições sul-americanas, acabariam, depois, no distinto mundo do futebol europeu, por fracassar em toda a linha. Entre esses casos estão, desde logo, três campeões do Mundo: Parreira, Menotti e Billardo. No mesmo trilho do insucesso vislumbram-se muitos outros nomes: os argentinos Basile (At.Madrid 96), Ardiles (Totenham, 93), Bielsa (Espanhol, 2001), Passarela (Parma, 2002) e Griguol (Bétis, 98), o brasileiro Lazaroni, que orientou o Brasil no Mundial 90, (Fiorentina 90/91), Abel Braga (Marselha, 2000/01), o uruguaio Oscar Tabarez (no Milan, em 96/97) o colombiano Maturana, inventor do toque, estilo de futebol rendilhado que fez fama na Colômbia dos anos 90 (no At.Madrid e Valladild, em 94 e 95 respectivamente). Este ano, no Bordeaux, Ricardo Gomes procura relançar a sua carreira nos bancos franceses, após uma experiência mal sucedida no PSG, em 96.

Que razões para o fracasso?

TREINADORES SUL-AMERICANOS NA EUROPAAs razões para estes fracassos são diversas. De início, na base estava a falta de disciplina táctica e deficiente condição física de muitas destas equipas em comparação com as moldas pelos mais rígidos ditames europeus. Os metodos sul-americanos são essencialmente técnicos, explanados preferencialmente num jogo lento, apoiado, com fuga ao choque, enquanto o europeu é o oposto, mais veloz, tacticamente exigente e forte atleticamente. Colocar o primeiro estilo num campeonato tipicamente do nível do segundo é uma opção condenada ao fracasso, pois tais conceitos ou modelos de jogo não encaixam no estilo e atitude da maioria dos jogadores europeus. Trata-se, afinal, de um clássico, choque de culturas. Primeiro, na mentalidade, depois, na concepção de jogo. No plano táctico, Luxemburgo falhou ao tentar adoptar em Madrid a seu célebre quadrado mágico, renunciando aos extremos. Desta forma, procurava um modelo que reunisse no mesmo onze todos os galácticos. Era impossível, no entanto, conciliar essas estrelas com o equilíbrio táctico obrigatório. Sem flancos, onde apenas surgia, por vezes, os centros enroscados de Beckham, o Real Madrid tornou-se uma equipa sem dinâmica e desiquilibrada nas transições ataque-defesa. Luxemburgo foi, no entanto, depois de Del Bosque, o treinador com maior margem de manobra para resgatar esse equilíbrio. Para esses lugares chave, à frente da defesa adquiriu Gravesen, Pablo Garcia e Carlos Diogo. Muito músculo, pouca classe, o que levou, inclusive, ao adiantar de Sérgio Ramos, lateral de origem, para médio defensivo. Ao não resgatar o equilíbrio táctico nesta zona, Luxemburgo perdeu a equipa e caiu, como todos, vitima dos resultados

TRÊS CAMPEÕES DO MUNDO INCOMPREENDIDOS NA EUROPA: Menotti, Billardo e Parreira

TREINADORES SUL-AMERICANOS NA EUROPAMenotti, campeão mundial com a Argentina em 1978, falhou depois no Barcelona, em 82/83. Apesar de contar no onze com estrelas como Maradona e Schuster, o único titulo seria a Taça de Espanha. Mais tarde, em 86/87, surgiria no primeiro Atlético de Madrid de Futre, mas o fracasso voltaria a repetir-se. Regressaria dez anos depois, em Itália, na Sampdoria, mas também por pouco tempo. Poucas jornadas após o inicio do Scudetto, El Flaco estava de regresso à Argentina vociferando contra os pragmáticos conceitos do jogo europeu, pouco sensível aos argumentos românticos do seu futebol, sempre emoldurado num discurso estético-ofensivo mas pouco equilibrado tacticamente. Billardo, campeão do mundo em 86, surgiu em Espanha, no Sevilha, em 92/93, com Maradona em fim de carreira. Na Argentina, ficara famoso o seu confronto filosófico com Menotti, pois enquanto este defendia o futebol bonito e ofensivo, Billardo assumiu-se como um resultadista, para quem o espectáculo pouco importa, o único importante é ganhar, mesmo jogando feio e à defesa. Nenhuma das correntes lograria, porém, consagração em Espanha e também Billardo regressaria, sem glória, ás pampas. Parreira, campeão do mundo em 1994, rumou logo na época seguinte para o Valência. Chegou com a fama do treinador que mudara o estilo artístico do tradicional futebol brasileiro, passando a adoptar um jogo mais europeizado, que, no lugar de grandes craques mas competivamente leves como Zico, via surgir trincos inestéticos, mas tacticamente perfeitos, estilo Dunga. Em Valência, porém, nunca encontraria um modelo de jogo adequado e, muito contestado, nem terminaria o campeonato....

CONQUISTADORES PARA A HISTÓRIA: Carniglia, Herrera, Di Stefano Valdano

TREINADORES SUL-AMERICANOS NA EUROPAOlhando o passado nas grandes Ligas europeias em busca de excepções à regra de insucesso sul-americano nos bancos europeus, apenas se detectam quatro nomes: Carniglia, Herrera, Di Stefano e Valdano, nos 90. Todos eles, porém, mais do que sul-americanos futebolisticamente puros, eram mais, na mentalidade, digamos, treinadores do mundo, há várias épocas na Europa, onde tiraram o mestrado táctico. O argentino Luís Carniglia comandou o Real Madrid entre 1957 e 1959, vindo de França, do Nice. Nesse período conquistou uma Liga (em 57/58) e duas Taças dos Campeões Europeus, mas, apesar dos títulos, reza a história que nunca conseguiu estabelecer uma boa relação com as estrelas do plantel (Di Stefano, Puskas, Kopa…) e, vitima do balneário, acabou por sair. Voltaria ao topo da Europa com a Roma, com a qual conquistou a Taça das Feiras em 1961. Para além destes clubes, treinou, na Europa, Fiorentina, Bari, Milan, Bolonha, Juventus e Bordeaux, mas sem voltar aos títulos…

Tácticos e românticos

TREINADORES SUL-AMERICANOS NA EUROPAHerrera nasceu na Argentina, mas a sua formação futebolística cruzou vários continentes. Cresceu em Marrocos, jogou em França e fez carreira em Espanha onde foi o primeiro treinador sul americano a vencer a liga, em 49/50 e 50/51, no fabuloso At. Madrid de Ben Barek. Em 58/59 e 59/60, repetiu a conquista no Barcelona (onde também venceu a Taça das Feiras em 60) numa altura em que já se tinham tornado famosos os seus esquemas defensivos, que, depois, moldaria, em Itália, as grandes equipas do Inter que conquistaram três Scudettos (63, 65 e 66) e duas Taças dos Campeões Europeus (65 e 66) Numa perspectiva histórica, Di Stefano é visto hoje mais como espanhol, onde fez quase toda a carreira e se fixou após pendurar as botas, mas o seu berço é argentino. Como treinador, os seus grandes feitos foram a conquista da Liga espanhola com o Valência em 71, e a Taça das Taças, em 80. No banco do Real não repetiria, porém, as mesmas vitórias logrados como jogador. O romântico Valdano conseguiu aliar a estética com a vitória, em 94/95. Colocou ponto final na era de Butragueño e lançou Raul. A fraca prestação na Europa acabaria por ditar o seu afastamento no ano seguinte. Depois disso, ainda passou pelo Valência, mas incompreendido, saiu ao fim de poucas jornadas e, amargurado, nunca mais voltou aos bancos. Entre os vencedores de competições europeias, moram, porém, outros dois treinadores sul-americanos. Os argentinos Scopelli, que venceu a antiga Taça das Feiras pelo Velância, em 63 e Roque Olsen, que venceu a mesma competição no Barcelona, em 66.

HECTOR CUPER: Campeão das finais perdidas

TREINADORES SUL-AMERICANOS NA EUROPANa última década, o treinador sul-americano que logrou maior projecção no cenário europeu foi o argentino Hector Cuper. Apesar das suas raízes gaúchas, tinha pelo seu lado, no entanto, o facto de ser sobretudo um estratega que gosta de construir as suas equipas partindo da defesa e do rigor táctico. Por isso, muitos apressaram-se a descobrir semelhanças entre ele e Herrera, considerando-os unidos pelo Catenaccio. Em 2000/01, no Inter, Cuper chegou à última jornada no primeiro lugar, mas uma derrota frente à Lazio (2-4) impediria a consagração onde 35 anos antes Herrera conquistara a imortalidade. Nunca na história do futebol mundial um treinador esteve, por tantas vezes, tão perto da vitória para depois perder no último jogo. Em Valência, perdeu em épocas consecutivas duas finais da Liga dos Campeões (2000 e 2001). No Mallorca perdeu a final da Taça das Taças, frente à Lazio (1-2, em 99). De todas as vezes, Cuper passou, em noventa minutos, do céu ao inferno. Está agora de regresso a Mallorca, numa altura em que, no Villareal, o chileno Manuel Pelegrini começa a ganhar um espaço próprio no futebol espanhol…

O CASO PORTUGUÊS: De Otto Glória a Carlos Alberto Silva

TREINADORES SUL-AMERICANOS NA EUROPAHistórico admirador do futebol brasileiro, Portugal recebeu, ao longo dos anos, muitos treinadores sul-americanos. A vaga começou em meados dos anos 50, quando em três épocas consecutivas, os grandes lusitanos conquistaram o título guiados por técnicos brasileiros: Otto Glória (Benfica, 54/55 e 56/57) e o duro Yustrich (FC Porto 55/56). Nos anos 60, o chileno Fernando Riera marcaria uma época na Luz, sagrando-se campeão em 62/63 e 66/67, tendo depois Otto Gloria voltado aos títulos nas épocas seguintes, em 67/68 e 68/69, após ter guiado a selecção nacional no Mundial 66. Teriam de passar 23 anos para um treinador sul-americano voltar a conquistar o campeonato português. Seu nome: Carlos Alberto Silva, no FC Porto, em 91/92 e 92/93. Depois disso, Paulo Autuori fracassou no Benfica, em 96/97. Desde essa data, com os grandes clubes a optarem por outros mercados, o sotaque brasileiro em Portugal, passou para o banco da selecção...