Treinadores, tráfico de emoções

03 de Janeiro de 2007

A bola ainda ia no ar e Rijkaard já fervia com a colocação da sua defesa face ao cruzamento. Tamudo cabeceia, golo e o treinador do Barcelona enfia furioso um murro no banco que parte o vidro. Termina o jogo em Madrid e Capello, com a tensão da vitória tangencial após uma semana debaixo de fogo, vira-se com raiva para a bancada e faz um gesto obsceno dirigido aos sócios. O Chelsea faz 2-0 num lance de contra-ataque e Mourinho levanta-se como uma mola para, antes de festejar, vociferar contra o árbitro que na jogada precedente tinha marcado mal um canto contra a sua equipa. Em campo, o treinador é como uma ilha rodeada de futebol por todos os lados. Rijkaard, Capello e Mourinho. Muito provavelmente, falamos dos três melhores treinadores do mundo neste momento. Todos humanos, porém. Cada qual com os seus problemas, os três feridos por semanas de criticas, pressão e especulações.

A força e competência de um treinador parece que flutua conforme a bola entra ou bate no poste. Num momento, o grande líder que guia o grupo à vitória. Noutro, o comandante perdido num ataque de nervos, suplicando que um lance individual dos seus craques lhe devolva a aura de competência. A berma do precipício como uma forma de vida. Quando chega um treinador novo é comum os jogadores, antes do mais, tentar entender a sua personalidade. Conta Michel que quando jogava no México todo o grupo ficou sem palavras na primeira palestra com o novo técnico, Niño Diaz. O seu discurso fora normal, duro, pois chegava após uma chicotada, mas o seu bloco de notas suscitou múltiplas interpretações.

Treinadores, tráfico de emoçõesSim, já sei que eles estão na moda, mas este tinha uma particularidade: Era um caderno rosa da pequena sereia. Segurou-o ao mesmo tempo que motiva o grupo apelando à revolta e à garra. No fim, um jogador mais extrovertido perguntou-lhe se tinha um presente da sua filha pequena ou de uma neta, quem sabe. Que não, esse caderninho andava sempre com ele porque lhe trazia sorte. Pois, embora seja difícil imaginar a montblanc de Mourinho tirando apontamentos num bloco da pequena sereia ou o rosto duro de Capello expulsando Casano de um treino com o mesmo livro rosa em punho, a verdade é que não há treinador que não se renda a estes rituais de superstição, com mais ou menos devoção.

O autocarro que não pode fazer marcha-atrás, jogar a primeira parte sempre para o mesmo lado, o beijo na medalhinha ou outros gestos que se repetem. Primeiro, são como um abrigo da sua insegurança. Depois, são uma fonte de auto-confiança. Mundo estranho este, o dos treinadores de futebol, onde durante a insustentável leveza que os assalta durante noventa minutos até um desenho animado ou murro no banco pode aliviar a pressão.