O triunfo do “barco pirata”

05 de Maio de 2016

Não é boa ideia analisar este épico Bayern- At.Madrid através de avaliações estéticas. São conceitos de jogo distintos, opostos mesmo, até no respeito pela bola no sentido da importância que se lhe dá em relação aos espaços (com ou sem ela).

Simeone quer controlar os espaços e só ter a bola quando lhe for indispensável. Guardiola quer ter sempre a bola e controlar os espaços quando ela chega perto deles. O problema é que nestes momentos se esse controlo não é defensivamente feito em antecipação, toda a eficácia da sua ideologia fica em causa. Nesse mundo perverso, o golo construído por Torres e Griezmann é como se tivesse saído dum “barco pirata”.
Todas as analises ao futebol do At. Madrid Simeone tendem a confundir o seu estilo com um estado de ânimo, uma exaltação de carácter, mas, no plano táctico, tudo aquilo traduz uma ideologia e uma organização de jogo que se prepara de forma quase “militarizada” para viver o momento defensivo como um exercício de resistência ou pura sobrevivência frente a adversários mais fortes ofensivamente. O jogo de Munique foi o supremo exemplo disso.

simeoneNa organização, porém, esse estilo tem mais do que só resistência. Viu-se quando ao intervalo (após sobreviver num 4x4x2 de linhas baixas sem conseguir pôr o nariz fora da defesa) passou a defender/jogar melhor ao tirar o médio mais defensivo (Augusto Fernandez) e montar um triângulo a meio-campo com Saul pivot e Gabi-Koke interiores mais subidos em pressão (sobretudo Koke, pressão individualizada). Passou para um 4x3x3 disfarçado de 4x5x1 tentando sair a jogar pelas faixas, com Carrasco, perna-longa a cobrir muscularmente a bola, fazendo por fim a equipa respirar na saída de bola. Os resultados, no futebol, podem criar alucinações. Amarfanham debates estilísticos e fazem duvidar até da nossa própria existência. Menos, claro, do admirável “barco pirata de futebol” de Simeone

A sensação de precisar da ajuda do “outro futebol”

guardiola

Há momentos, na vida como no futebol, em que para fugir duma crise existencial é necessário acreditar quase dogmaticamente numa ideia. O paradigma de jogo de Guardiola não corre esse risco mas vendo os seus jogos por vezes sente-se a estranha sensação de que ele precisa da ajuda de forças do “outro futebol” para tornar a sua ideia vencedora. É perturbante para quem admira a sua ideologia de jogo.
Na prática, sente-se um pouco isso vendo Vidal a lutar mais do que a jogar (ao mesmo tempo que Thiago não sai do banco apesar de olhar tantas vezes para Guardiola enquanto aquece perto dele)
Não é comum falar duma equipa a partir do guarda-redes mas há casos em que essa tentação é irresistível. É nessa lógica de instinto de sobrevivência que um guarda-redes cresce de tamanho: Oblak. Fez defesas daquelas que milésimos de segundo antes parecem impossíveis, mudando o curso do movimento quase como se fosse de borracha.

Este Bayern cai agarrado às convicções de jogo (de posse e respeito pela bola) de Guardiola. Foi, porem, um ultimo ato “guardioliano” em Munique que mostrou como a sua ideologia tentou, nesta fase, inserir um novo “software ofensivo” com um maior jogo exterior (pelas faixas) em relação ao anterior predomínio do jogo interior (pelo corredor central) do passado. Basta ver pela distribuição dos jogadores nas estrutura (mais um extremo e menos um médio de posse, neste jogo Thiago).
Quando o “exército colchonero” subiu a zona de pressão interior com Gabi-Koke logo a dupla de médios-centro Xabi Alonso-Vidal deixaram de ter a bola em espaços tão adiantados. O jogo tornou-se, assim, naquele em que uma equipa de Guardiola fez, talvez, mais cruzamentos (algo que quase não existia no seu modelo em estado puro). Muitos deles mesmo já meio “bombeados”.
Não foram, neste contexto, as melhores “ultimas palavras” em termos de estilo de jogo. O futebol é mesmo grande demais.o