Um «apache» em Londres

18 de Maio de 2007

Um «apache» em Londres

Ganha muitos milhares de libras por mês mas continua sem arranjar os dentes partidos numa rixa de rua quando era miúdo. Penso que isto, por si só, diz muito da personalidade de um homem. O desdentado, que também tem na face uma longa cicatriz de queimadura provocada pela queda de uma panela de água a ferver quando ainda mal sabia andar, assombra agora os relvados ingleses.

Carlos Tevéz. As emoções que as imagens transmitem surgem primeiro que as análises mais frias. É difícil imaginar Tevéz, seu futebol e estilo, sem ser o principal protagonista do clube onde joga. Depois de conquistar Argentina e Brasil, a forma como fez a sua aparição em Inglaterra (salvando o West Ham da descida) foi o primeiro passo para, em breve, conquistar a Europa num clube de maior dimensão. Sem dentes, claro, cabelo desgrenhado e o mesmo olhar fixo na bola, crescido no bairro de maior criminalidade de Buenos Aires, Fuerte Apache.

Acontece-me muitas vezes fazer reflexões sobre futebol a partir de textos ou declarações de outras actividades. O músico Pedro Iturralde, dizia que o jazz é uma música que “primeiro sente-se, só depois pensa-se”. Acho que a análise a um jogador de futebol passa pelos mesmos etapas. Mesmo que de forma inconsciente. O jogo de Tevéz ganha outra dimensão quando se tem presente ao mesmo tempo a sua história, pois, afinal, o futebol passa sempre primeiro pela emoção. Se vemos jogar, por exemplo, Pirlo, o ponto de partida para o analisar é logo diferente. Tudo o que faz parece pensado primeiro. Uma espécie de emoção mecanizada, se é que isso existe. Pelo menos tudo indica que sim, tal a forma cerebral e racional como decide cada passe ou movimento em campo. Tevéz é outra espécie. O lado emoUm «apache» em Londrescional do futebol. Mas, pode uma carreira construir-se só a partir de decisões emocionais? Sartre dizia, sobre a essência do homem, que “ninguém é mais do que parece”. Será, acredito, uma afirmação filosoficamente discutível, mas se adaptada para a reflexão futebolística parece-me correcta.
Quando se contrata Tevéz ou Pirlo, para lá de jogadores diferentes para posições diferentes, está-se a contratar duas essências futebolísticas diferentes. Ou seja, para as potenciar, é necessário tocar-lhe nos seus pontos mais sensíveis. A emoção, no caso de Tevéz. A razão, no caso de Pirlo. A forma de lidar com eles, no jogo e, sobretudo, no treino, também terá de passar também por ter sempre a consciência dessa essência. A razão e a emoção. Na construção de um jogador nenhuma existe sem a outra, mesmo que o traço de racionalidade seja incutida apenas pelo treinador. Tevéz será um desses casos. Da capacidade de despertar a sua essência dependerá o triunfo do apache argentino na Europa.