E se, um dia, todas equipas jogassem só com três defesas?

31 de Outubro de 2016

Sinto falta do tempo em que nos grandes jogos internacionais as equipas que apareciam a jogar com três defesas faziam-no por uma concepção global de jogo que depois se estendia pelo campo todo. Não era só uma questão de principio defensivo de três centrais. Era de principio para os quatro momentos do jogo.

Os tempos eram diferentes, eu sei, e é inevitável pensar na ideologia holandesa de Cruyff que se estendeu depois a discípulos, como Van Gaal (num entendimento diferente da relação entre-sectores) e, depois, entre outros, Rijkaard, embora, na estrutura, sem tanta devoção por esses “sistemas a 3”. Eles estiveram juntos na última equipa que me fez verdadeiramente “sonhar tacticamente” na dimensão de Liga dos Campeões: o Ajax de 95. Van Gaal era o treinador e Rijkaard era jogador. E escrevi agora “jogador” porque não conseguiu dizer bem a posição, médio ou defesa (com ou sem bola)?

Os três defesas eram Reiziger-Blind-De Boer e... Rijkaard jogava no meio. Umas vezes à frente deles saindo com a bola, outras entre eles, baixando para quase “quarto defesa”. Muito por isso para os holandeses esta posição à frente da defesa é a nº4 (diferente do nosso 6).

Rjkaard já começara a jogar naquelas posições (diferentes no mesmo jogo, multifunções, bastando para isso dar um-dois passos á frente ou atrás) na inesquecível Holanda de Michels em 88.

Essa equipa é que é a base tacticamente equilibrada de tudo e, depois do que foi o Rijkaard jogador-adulto e treinador-jovem (até ao Barcelona campeão europeu em 2006). É, confesso, o treinador que mais me custa ter visto decidir deixar os bancos tão cedo. Como jogador ele fazia sozinho a táctica da equipa toda transformar-se. Era defesa-central, líbero, ou médio, pivot. Entendia tudo com bola e olhava para a sua equipa antes da adversária. Como treinador inventou o “Xavi jogador-táctico”. Retirou-se cedo demais dos bancos a este nível para continuarmos a debater (e pensar) futebol como deve ser. São jogadores, homens do futebol destes, que me fazem continuar a sonhar com um mundo em que falar de futebol mete sempre uma... bola!

Porque antes de Guardiola, existiu Rijkaard, isto é, o Barcelona de Rijkaard com Ronaldinho, Deco e Eto`o, entre outros, como o pequeno Iniesta que aparecia e sobretudo o avançar no terreno de Xavi que foi feito depois de uma conversa com Rijkaard e como este o convenceu como teria de ser/jogar dessa forma para ser mesmo um médio de top.

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Existem outras versões de “defesa a 3” mas com contornos tacticamente, digamos, mais musculados, como as equipas alemães de Hitzfeld (no Dortmund e no Bayern) e até mais atrás, em 93, na forma como o feiticeiro Goethals construiu o maquiavélico Marselha para derrotar o divino Milan (então de Capello no pós-Sachi) com três centrais de assustar velhos, crianças e até Van Basten (que depois desse jogo nunca mais voltou verdadeiramente a jogar). Os “três monstros” eram Desaily, Angloma e Boli, com a dupla Deschamps-Sauzé na “sala de máquinas” do meio-campo. Todas estas equipas de “meter medo” ganharam a Champions nos seus dias.

Os italianos sempre cultivaram esta ideia da “defesa a 3” mas tem a ver mais com a questão dos tês centrais que a defender baixa os laterais e faz “defesa a 5”. Com laterais ofensivos dá a ilusão de semelhança mas é muito diferente, como fazia Conte e agora muitas vezes (preferencialmente) Alegri, na corte da Juventus. Nesta versão, porém, a projeção dos laterais junto com a robustez posicional e de bola dividida dos três centrais (Barzagli-Bonucci-Chielini) é decisiva. Para chegar á Final da da Champions, Allegri reciclaria, aliás, o sistema para uma clássica “defesa a 4”.

A base ideológica avançada de como pensar este sistema é quando ele parte de uma ideologia em ter uma enorme percentagem de posse contra qualquer adversário. Era o que fazia a ideia holandesa em relação á latina ou alemã que parte do poder mais musculado sem bola que a equipa tem de ter para aguentar as transições.

Não sei se Guardiola ou Luiz Henrique, em locais diferentes, mas com igual base ideológica, conseguirão dar o mesmo passo de meados dos anos 90 no presente. Passou muito tempo.

Para breve, neste “universo de defesa a 3” fica um olhar mas devoto do que se passa hoje em Sevilha. Para os ideólogos do jogo como “expressão de vida”, graças a Deus (o do futebol, claro está) que existe Sampaoli.

O Chelsea de Conte pode ganhar títulos com “defesa a 3”?

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Ele próprio disse na Juventus (onde comia Scudettos em 3x4x1x2 ou 3x4x2x1) que na dimensão internacional tinha de mudar para 4x2x3x1 se quisesse ser competitivo. Nesta ideia de Conte estava a detecção de algumas lacunas de origem estrutural do sistema (e dinâmicas naturais de difícil aplicação que nascem do desequilibrado “jogo posicional”). Tudo isto seria um debate longo.

O objectivo da questão-titulo é lançar o debate sobre o seu atual Chelsea que nos últimos jogos se converteu á sua “ideia italiana”, montando uma espécie de 3x4x2x1, com Azpilicueta-David Luiz-Cahill nos três defesas, laterais a subir e alas, Pedro-Hazard, a jogar por dentro.

Dinamitou assim o Manchester United (4-0) mas a possibilidade desta ideia ser competitiva internacionalmente está na base central que é dada pelo duplo-pivot “comedor do meio-campo” em complementaridade: Matic (este a ficar mais perto dos centrais) e Kanté (este a sair mais para o jogo).

Em ternos de características naturais, se calhar esta missões podiam ser inversas, mas a ideia de Conte é mesmo esta. Não a vejo, porém, a poder crescer em posse na dimensão internacional com a exigência competitiva ao máximo. Só poderá ganhar títulos (ou chegar a Finais) se tiver uma robustez de cobertura inteligente dos espaços sem bola fora do comum. Nunca com a posse como principio.