VITORIO POZZO (1886-1968)

16 de Maio de 2005

Desde a sua estreia com uma vitória por 6-2 contra a França, em jogo disputado no Estádio Arena de Milão, a 15 de Maio de 1910, até meados de 2002, a selecção italiana de futebol conheceu um total de 130 seleccionadores, partindo com o quinteto composto por Umberto Meazza, Recalcati, Crivelli, Camapario e Gama, que, juntos, elaboraram a primeira equipa que defrontou os gauleses no inicio dos anos 10, até á presente cicarrilha fumegante de Marcelo Lippi. Nenhum deles, porém, atingiu a dimensão lendária de Vitorio Pozzo, campeão do mundo em 1934 e 1938, o homem que construiu as bases gloriosas e estílisticas do futebol italiano.

Nascido em Porta Susa, na região de Turim, ao lado dos Alpes, em 2 de Março de 1886, no seio de uma família originária de Bielle, Pozzo dedicou toda a sua vida ao futebol. Como um típico alpino, cedo sentiu que a vida só faria sentido com empenho e sacrifício. Os seus pais sonharam para ele um futuro respeitado como Advogado ou Médico, mas, desde cedo, o ragazzo Vitorio só pensava no sport. Começou por praticar atletismo, no Giardino della Cittadella, até que um seu amigo, Gioccione, defesa central da Juventus nos anos 20, o levou para assistir a um jogo de Calcio. Logo ficou cativado, mas, em breve, teria de rumar á Suíça para continuar a estudar e aprender línguas. Em solo suíço manteve a paixão pelo Calcio e começou a jogar no Grasshopers. Tinha 20 anos.VITORIO POZZO8
Quando anos depois, após passar por Inglaterra e França, sempre para aprender línguas, regressou a Turim tornou-se membro fundador de um novo clube que nascera dum grupo de dissidentes da Juventus. Era o FC Torino, pelo qual também foi jogador e, a partir de 1912, treinador, com apenas 26 anos, numa época onde os clubes não tinham ainda formalmente um técnico, sendo então o cargo exercido por um jogador ou um director. Sábio, Pozzo ficaria no posto durante 10 anos, até 1922. Sabedor do seu carisma, a Federação italiana resolve então convidá-lo, em 1912, para seleccionador nacional, após a saída de Umberto Meazza. A missão era preparar os Jogos Olímpicos. Apenas orienta a equipa em 3 jogos, saindo após ser goleado pela Austria de Meisl por 5-1.

Regressaria ao cargo em 1924 –após ter feito parte de uma comissão técnica em 1921- para orientar a squadra azzurra nos Jogos Olímpicos de Paris. Por esse tempo, Pozzo já era outro homem, marcado pela participação na frente de batalha da Primeira Guerra Mundial como soldado do regimento alpino. Desse tempo, diz-se herdou o perfil quase militar que iria celebrizar a sua imagem como seleccionador italiano. Um grande disciplinador. Em Paris, leva a equipa aos 1/8 final onde é eliminada pela Suíça. Marcado pela morte da mulher, Pozzo pensa então abandonar o futebol. Dedica-se ao jornalismo, integrando a redacção do La Stampa e torna-se relações publicas da fábrica de pneus Pirelli.
VITORIO POZZO1
Mas os anos passam, e a saudade do Calcio cresce. Em finais de 1929 não resiste e aceita o convite de Leandro Arpiatti, presidente da federação italiana, e pela terceira vez torna-se seleccionador nacional. Desta vez, porém, seria uma decisão histórica, pois ficaria no cargo durante 19 anos, até 1948. Seriam quase duas décadas que iriam revolucionar o Calcio italiano e lançar no estrelato grandes futebolistas como Meazza, Combi, Piola, Monti, Mazzola, Boniperti e tantos outros. Era o inicio do Romance do Velho Maestro. Em 1931, a Squadra Azzurra de Vitório Pozzo causou sensação no mundo do futebol ao vencer, pela primeira vez na sua história, após 10 jogos em 18 anos, a Austria, Rainha do Danúbio, por 2-1, com golos de Orsi e Meazza. A grande meta, era, no entanto, o Mundial-34, a realizar-se em Itália. Entre 1931 e o inicio do torneio planetário de 1934, a Itália em 28 jogos realizados, apenas perdera três, mas o ultimo causara apreensão por todo o território transalpino. Fora em Turim, em Fevereiro de 34, frente á Wunderteam austríaca de Hugo Meisl por 4-2.

Mais do que uma simples selecção nacional, a squadra azzurra dos anos 30 personificava o ideal nacionalista preconizado pela pujança ditatorial de Benedito Mussolini, Le Duce, e que resumia numa lapidar frase dirigida á selecção todo o seu sentir: Vencer ou Morrer. Sem a presença dos britânicos e dos campeões mundiais em titulo, o Uruguai, o Mundial 34 tornou-se num confronto entre duas escolas futebolísticas europeias: a latina, representada por Itália, Espanha e França, e a centro europeia, simbolizada pela Áustria, Hungria e Checoslováquia.

Talvez inspirado pela atmosfera militar que atravessava toda a Itália dos anos 30, Vitorio Pozzo assumiu-se como um verdadeiro general futebolístico. Insistindo na preparação física e psicológica da equipa como a grande arma para vencer, Pozzo obrigava os jogadores nos treinos, durante as longas corridas em voltado relvado, a assobiarem em coro Il Piave, a canção entoada pelos soldados italianos no teatro de guerra quando resistiam ao avanço das tropas alemãs e austro-húngaras.

Dizem os registos, que no retiro da equipa, perdido no campo, longe das tentações da cidade, respirava-se, por entre árvores e jardins, um ar quase de regimento militar. Pouco adepto das prelecções colectivas, preferia no hotel, antes do jogo, passar pelos quartos dos jogadores, na hora da sesta, e, um a um, dar-lhe os seus conselhos tácticos fieis ao velho método de 2-3-2-3, pois, apesar de ser um confesso admirador da escola britânica, Pozzo, dizia-se, sabia mais de psicologia do que de táctica, de forma que, dizem os seus críticos, só nunca utilizou o WM porque nunca percebera bem as suas vantagens. A verdade, porém é que seria com o seu WW, o método, com o qual se sagraria campeão mundial por duas vezes.

VITORIO POZZO3Todas estes episódios que levariam ao primeiro titulo mundial italiano seriam descritos pela pena do próprio seleccionador Vitorio Pozzo, em artigo publicado no jornal La Stampa, onde continuava a ser jornalista, de 11 de Junho de 1934, um dia após a final com a Checoslováquia: “Durante todo o Mundial não houve um único adversário fácil. Jogámos contra grandes equipas: Espanha, Áustria e Checoslováquia. O tempo normal para uma equipa ser campeã do mundo seria de 360 minutos. Ao invés, nós tivemos de jogar 510! Foi uma final épica, só decidia no prolongamento. É uma grande selecção, a checa. O seu guarda redes é, não fisicamente mas técnicamente, um colosso. Julgavam-no acabado mas ontem parecia ter a mesma invulnerabilidade que o espanhol Zamora. Tivemos azar com os guarda redes: Fugimos das garras de Zamora, caímos nas de Platezer e depois deparámo-nos com Planicka. No meio campo, os checos têm Cambal, apesar de se ter apagado no prolongamento. É um tecnicista de jogo preciso que raramente lança os extremos. No ataque, destacam-se o veterano Svoboda, Nejedly e Puc. Contra um adversário destes tínhamos de ter dificuldades. O primeiro tempo terminou 0-0. No inicio da segunda parte tememos o pior. Cedemos a iniciativa e os checos fizeram 1-0 e, pouco depois, estiveram perto de voltar a marcar, mas a partir daí a nossa selecção cresceu. O golo de Puc fora como uma chibatada aplicada a um cavalo fogoso. A nosa recuperação foi um exemplo de força e vontade, pondo em evidência os dotes físicos e morais acumulados durante o período de preparação. A baliza e Planika teve des uportar ataques sucessivos, com Guaita e Schiavio sempre a trocarem de posições. Orsi fez o empate, mas o golo da vitória só surgiriam no prolongamento, com um tiro de canhão de Schiavio. Foi uma apoteose do futebol, com os nossos jogadores comovidos até ás lágrimas, a multidão cheia de alegria e o Duce exprimindo no rosto e em plena voz a sua satisfação”.

VITORIO POZZO4Com a aura de campeão do mundo, Pozzo voltou a surgir no Mundial 38 com o seu velho sistema do método, renunciando ao WM e ás marcações individuais. Apesar de conservar apenas dois jogadores da equipa campeã do mundo quatro anos antes – Meazza e Ferrari, os grandes maestros do meio campo – a selecção italiana voltaria a revelar-se sempre superior aos seus adversários.

Este onze azurro não tinha, no entanto, o mesmo virtuosismo do de Roma, pelo que Pozzo introduziu no método a táctica do contra ataque, baseada nos passes de Meazza e Ferrari, para os avançados Colausi, Biavati e Piola. No quinteto da defesa, Rava e Fini eram os chamados defesas vassoura, que se colocavam nas costas dos eficazes Locatelli, Andreolo e Serantoni. Á frente deles, Andreolo, sucessor de Monti, era o primeiro homem a lançar o contra ataque. Com este sistema e este onze base, a selecção italiana afastou a Noruega (1-0), França (3-1) e Brasil(2-1), para defrontar na final outro representante do futebol centro europeu: a Hungria de Sarosi.

A seu lado para disciplinar a equipa no estágio, Pozzo tinha agora Meazza, um líder do grupo. Apesar do valor e talento da Selecção Azzurra de 34 e 38, expressão pioneira da elegante magia latina, a sua imagem ficara para sempre como a expressão futebolística do regime fascista de Mussolini. Com o eclodir da guerra, dois meses depois, durante doze anos não voltou a disputar-se o Mundial de futebol. Por razões políticas, poucas selecções se dispunham a jogar contra a Itália, que apesar de bi-campeã do mundo e olímpica, era vista como um mero símbolo fascistas. Durante o tempo de guerra, a selecção italiana, entre 38 e 45, realizaria, assim, apenas 16 jogos em 7 anos. Em Novembro de 1945, o Itália-Suiça, terminado 4-4, foi o primeiro jogo que a selecção italiana disputou após o fim da segunda guerra mundial.
VITORIO POZZO5Já com 60 anos, Pozzo segue á frente da selecção, baseando-a no onze do Grande Torino dos anos 40. Um clube com quem mantinha fortes ligações sentimentais e que formava nessa época uma deslumbrante equipa, sublimada pela classe e talento de Valentino Mazzola. Em Maio de 47, quando os azzuri batem a Hungria por 3-2, dez dos onze jogadores utilizados eram do Torino. A excepção era o guarda redes Sentimenti, da Juventus.Com o tempo porém, Pozzo começa a sentir-se cansado. Em 1948 leva a selecção á final do torneio Olímpico, mas perde na final contra uma rudimentar selecção da Dinamarca, por 5-3. Seria o seu ultimo jogo como seleccionador azzurro. No ano seguinte, após a tragédia de Superga que vitima toda a fabulosa equipa do seu Torino, decide parar. Com o existencialismo do pós-guerra e a renúncia feroz a tudo que recorda-se Mussolini, enforcado em plena praça pública e o seu corpo exposto durante dias para ser causticado pelo povo em fúria, Pozzo fica cada vez mais isolado.

Todos o recordam, apesar das vitórias, como o símbolo futebolístico da era fascista. Uma desastrada participação num concurso televisivo chamado A Feira dos Sonhos aumenta ainda mais a sua solidão. Deprimido, isola-se do mundo. Escreve umas coisas para La Stampa, mas só é visto quando, todas as quarta feiras, visita o Alpine Club para reencontrar os seus velhos colegas e combatentes da primeira grande guerra, no Regimento Alpino.
VITORIO POZZO6Em 21 de Dezembro de 1968, morre com 82 anos, sozinho e esquecido pela nação que três décadas antes o glorificava. Passado todo este tempo, os seus feitos continuam a ser olhados com menoridade e até algum desprezo por vários sectores do futebol italiano, que continuam a recordá-lo mais pelas suas ligações fascistas de extema-direita do que pelos seus feitos futebolísticos.

Quando em 1990, Turim construiu um novo Estádio para o Mundial desse ano, a Cidade recusou liminarmente que este tivesse o seu nome, baptizando-o antes de Stadio Delle Alpi. Impiedosa, a memória dos homens, confundiu o futebol com a política e, apanhado nesse perigoso cruzamento, Pozzo, ficou, para a eternidade como o campeão do mundo do tempo do fascismo. Uma recordação assaz injusta para futebolistas como Meazza, Orsi, Ferrari, Piola e, entre outros, homens que mereceriam encómios sem restrições de acordo com o seu valor pessoal e futebolístico, tal como o velho mestre Vitorio Pozzo, o inventor do design criativo do futebol italiano, seu treinador nas duas campanhas, um homem para quem nada podia ser criado na desordem e que impôs aos jogadores um rígido e prolongado estágio de preparação pouco usual nesses tempos.