FIORENTINA

04 de Agosto de 2002

FIORENTINA (1926-2002)
A famosa lenda das Sete Sorelas, as sete irmãs –Juventus, Milan, Inter, Torino, Roma, Lazio e Fiorentina-, que fizeram a majestosa história do futebol italiano sofreu, em meados de 2002, um terrível abalo: A Fiorentina, uma das suas mais belas componentes, desapareceu! É o fim de uma história de 76 anos, por onde passaram génios de outras eras como Hamrim, Julinho, De Sisti e Amarildo, até artistas dos tempos modernos como Antognoni, Baggio, Rui Costa ou Bastistuta.
A partir de 2002/2003, nas profundezas da Serie C2 (III Divisão), nasce, da Florença mágica, um novo clube: a Fiorentina 1926. Um nome que simboliza o regresso ás origens de um emblema que escreveu a letras de ouro muitas páginas do Calcio...

FIORENTINAMichelangelo, Donatello, Rafael. De Sisti, Antognoni e Rui Costa. Através dos tempo, a arte pode adquirir diversas formas. Em Florença, onde nasceu o Renascimento, cujas ruas e vielas escondidas abrigaram, durante muitos séculos de história, homens que fizeram sonhar e avançar o mundo, loucos e génios, fundidos num só, de visionários incompreendidos, Galileo, a profetas do Inferno, Dante, cuja memórias repousa ainda hoje ao entardecer sob a penumbra iluminada por candeeiros românticos, que parecem vaguear pela Via Giuseppe Verdi, em direcção á Baílica de Santa Cruz, em busca do deslumbrado legado artístico de Michelagelo ou dos frescos de Giotto e Gaddi, testemunhos que o tempo perpetuou, desde a Piazza del Duomo á catedral de Santa Maria das Flores, sumptuosas no final do século, na senda de novos artistas, como os que escolheram o Comunale Artemio Franchi para, com uma bola abraçada aos pés, abordarem cada jogada como um pintor renascentista abordaria uma tela em branco. O futebol, que, ao principio, nem parecia deste mundo, adquire, num ápice, contornos artisticamente magistrais. Desde sempre, Florença só o entendeu desta forma. Nascida e criada neste mundo intemporal, a Fiorentina sentiu o futebol como uma composição de Verdi. 26 Agosto de 1926: Da fusão entre o Cub Sportivo Firenze e o Giovanile Libertas, nasce a Associazone Calcio Fiorentina. A primeira camisola é vermelha e branca, as cores dos dois clubes unidos. Até 1931, joga no velhinho Via Bellini. O primeiro presidente teve o nome de Luigi Ridolfi, e o treinador que se sentou no banco aquando do primeiro jogo, em 3 Outubro de 1926, para a divisão nacional, chamava-se Carlo Capskay. O adversário foi o Pisa e a Fiorentina começou a sua história futebolística a ganhar: 3-1. Nascida e criada como uma composição de Verdi, a Fiorentina, inspirada por toda esta atmosfera também sempre entendeu o futebol como uma expressão artística, desde a longínqua época em que pela primeira vez passeou ente os grandes do Calcio: 1931/32. Fiel á arte que representava, alinhava, então, um divinal mago da bola vindo do Novo Mundo, o avançado centro uruguaio campeão do mundo, Pedro Petrone. No seu primeiro campeonato, termina em 4º lugar. Atravessa os anos 40 seduzindo toda a Itália com o seu futebol em tons violeta, até que, chegados os anos 50, sonha cada vez mais em encaminhar o seu jogo em direcção á Porta do Paraíso, a conquista de grandes títulos.

JULINHO, DE SISTI E AMARILDO: A GRANDE MAGIA SUL AMERICANA

FIORENTINA1CONQUISTA DO SCUDETTO SÓ COM BRASILEIROS E ARGENTINOS. Pode parecer inacreditável mas, para os mais atentos adeptos da Fiorentina, o génio e a loucura de Edmundo, que invadiu a equipa durante a época 98/99, não eram mais do que um bom prenúncio de vitória. Para entender este enigma é necessário recordar os dois únicos Scudettos da sua história (56 e 69). Em ambos os casos, brilhavam na equipa um argentino e um brasileiro. Nessas duas inolvidáveis épocas os brasileiros Julinho e Amarildo foram como que antecessores do estilo de Edmundo. De Julinho fica a memória da saudade que dizia sentir da sua terra, sendo sucessivamente multado por se atrasar quando chegava do Brasil. De Amarildo, recorda-se o seu espírito indomável, um jogador de grande carácter, alternado grandes golos e jogadas fabulosas, com rebeldias em campo. O primeiro campeonato remonta a meados dos anos 50. Era então presidente Enrico Befani, e treinador Fulvio Bernardi, famoso como jogador nos longínquos anos 30, profeta de um novo futebol italiano, de balanço mais ofensivo, sem excessivas amarras defensivas. Todo o Scudetto foi um passeio para a Fiorentina que termina na frente com 12 pontos de avanço sobre o Milan, segundo classificado. A defesa jogava junta há muito tempo, o meio campo era regido pelo pulmão de Gratton e pela criatividade de Prini, os homem que inventavam as jogadas para o trio atacante, onde estava o possante avançado centro Virgili, então jovem promessa, que, dono de um remate estrondoso, seria, no futuro, consagrado como o fura redes, e dois grandes magos sul americanos, que, no inicio da época, dividiam os tifossis viola. Por um lado, o brasileiro Julinho era um jogador credenciado internacionalmente, titular do escrete canarinho no Mundial-54. Do Chile, vindo do Universidade Católica, chegara Miguel Montuori, um avançado argentino que ninguém conhecia e que fora recomendado a Bernardini por um sacerdote seu amigo. Num ápice, porém toda a Itália o ficaria a conhecer. Dotado de grande técnica, Montuori seria a grande revelação do campeonato, com 13 golos em 32 jogos.

ANOS 60: A GRANDE EQUIPA DE MESTRE DE SISTI

FIORENTINA1Após este grande triunfo, só nos anos 60, a Fiorentina voltaria a conquistar o Scudetto. Foi na época de 1968/69. Ocupava então a cadeira da presidência o contestado Nello Baglini. A fúria dos tiffosi tinha nascido com as saídas de Bertini, Albertosi e Brugnera, enquanto que a única contratação de peso fora a de Rizzo, ex-Cagliari. Assim, o técnico Bruno Pesaola, Il Petisso, um defensivista, teve de congeminar um onze em grande parte composto por jogadores feitos nas camadas jovens da Fiorentina, onde então estava Beppe Chiapepela, o pai de muitos talentos. Num tempo em que o som dos Beatles reinava por toda a Europa, o perfil jovem da equipa de Pesaola motivou que a Fiorentina ficasse então conhecida como a squadra yé-yé. O motor era o argentino De Sisti, o regista de um onze que, pela sua juventude e irreverência, seduziu toda a Itália Entre os ragazzi estavam os defesas Macin, Ferrante, o libero, e Brizi, os médios Esposito e Merlo, e o avançado Chiarugi. O toque de experiência era dado pelo lateral Rogora, o médio tecnicista Rizzo e pelo goleador Maraschi, ao lado do brasileiro Amarildo, grande estrela do Mundial-62, um craque que temperava o seu futebol sambado com fabulosos golos de livre e preciosos passes de morte que eram mais de meio golo, para os seus companheiros. Treze anos depois de Julinho e Montuori, de novo um brasileiro e um argentino, Amarildo e De Sisti, levavam a Fiorentina ao Scudetto, terminando a prova no topo com doze pontos de avançado para o segundo classificado, o Milan. Através dos tempos, a Fiorentina abrigou outros talentos sul americanos: Maschio, Morrone e Ramon Diaz, oriundos das pampas, Clerici, Dunga e Mazinho, canarinhos. Nos anos 80, reuniu a picardia e a arte de Passarela e Sócrates. Garra e toques de calcanhar. Apesar da sua magia, nenhum voltou a içar a bandeira viola na torre do Palazzio Vechio, gesto que simbolizava a conquista do Scudetto.

ANOS 90: A MARCA DO GRANDE BATIGOL!

FIORENTINA4Vinte anos depois do último titulo, os viola sonharam em reviver a história pela terceira vez. Foi em 98/99. Com o campeonato a entrar na sua fase decisiva, a Fiorentina de Trapatonni estava no comando. Entre as grandes estrelas do onze, regido por Rui Costa, estavam de novo um brasileiro e argentino: Edmundo e Battistuta. O animal, porém, ultrapassou os limites da rebeldia. Antes de um jogo decisivo em Udinne, com Batistuta lesionado, resolveu, sem autorização, viajar para o Brasil, para passar o carnaval e desfilar numa escola de samba. Sem os seus dois magos sul-americanos, o onze perdeu fulgor e atrasou-se na luta pelo titulo, terminando a época em 4º lugar. Estava-se e plena era da gestão Cecchi Gori que mais tarde iria levar o clube á ruína. Um ciclo que mesclou o desespero com a euforia, despertada sobretudo pelos golos de um terrível goleador argentino: Batistuta, pois claro. Até quando caminhava na rua levava uma baliza na mente, mas, mesmo no auge, nunca foi um portento de técnica. Como sabe que não driblava como respirava, salta essa formalidade técnica com um fulminante remate. Todos o conhecem como BatiGol, um predador da área. Chegou a Florença em 1991, com 22 anos, vindo do Boca Juniores, onde explodira depois de Passarela, dois anos antes, o ter dispensado do River Plate. Em Itália, sofreu o choque da descida de divisão, em 92/93, quando a Fiorentina, em crise, caiu para a Serie B. Com os seus golos, ora com faíscantes remates em corrida, ora com cabeceamentos indefensáveis, cedo regressou ao topo do Calcio. Tornou-se um mito viola. Apontou 190 golos em 9 épocas e ultrapassou o grande Kurt Hamrin, bomber dos anos 60, com 150 golos. No ano 2000, com 31 anos, partiu para Roma, no culminar de uma transferência ultramilionária. Para os adeptos da Fiorentina, é demasiado cruel vê-lo agora a marcar golos com outra camisola. A sua imagem ficará, no entanto, eternamente no cuore viola e, no futuro, daqui a muitos anos, virará lenda. Em sua homenagem os tiffosi construíram uma estátua á porta do Communale Artemio Franchi onde se lê: “A Gabriel Batistuta, guerreiro indomável, tenaz no seu objectivo e leal no seu coração”. Por tudo isto, e muito mais, é difícil traduzir por palavras o que sentiram os devotos adeptos viola ao ver a sua Fiorentina desaparecer. Cinco horas depois de decretada a extinção do futebol profissional da Fiorentina, um novo clube nascia, sob o impulso de um grupo de ilustres adeptos, intelectuais e fieis tifosis violas. O seu nome inspira-se no passado: Fiorentina 1926, o ano da fundação, resultado da fusão entre as duas colectividades que deram origem á mítica Fiorentina. Agora, é tempo de rescrever a história, iniciando, desde a III Divisão, a longa viagem de regresso á elite do Calcio.

A FIORENTINA NA EUROPA (VITÓRIA DA TAÇA DAS TAÇAS 60/61)

OS GOLOS DE ANTONINHO E A MARCA DE HIDEGKUTI Anos 50. Ao mesmo tempo que as competições europeias davam os primeiros passos, em Florença, brilhava uma sedutora equipa que conciliava a picardia latina com a magia sulamericana. Em 56/57, na II edição da Taça dos Campeões, a Fiorentina de Julinho e Montuori, chega á Final após eliminar o Grasshopers (3-1 e 2-2) e o Estrela Vermelha (1-0 e 0-0). Na final, porém, apesar da táctica excessivamente defensiva que Bernardini, com surpresa, apresenta, não resiste ao Real Madrid de Di Stefano e perde por 2-0. Quando regressa em 69/70, á prova máxima, não passa dos 1/8 final, eliminado pelo Celtic Glasgow (0-3 e 1-0) O grande momento europeu da Fiorentina sucede em 1961, com a conquista da I edição da Taça das Taças. Na rota para a Final, afasta o Lucerna (3-0 e 6-2), com 5 golos de Hamrin e 3 do avançado centro brasileiro Antoninho. Na ½ final bate o Dinamo Zagreb (3-0 e 1-2), de novo com golos de Antoninho, Da Costa e Petris. Os dois jogos decisivos (nesta edição inaugural a final disputou-se em duas mãos) são frente ao Glasgow Rangers, treinado por uma velha glória da fabulosa Hungria dos anos 50, Hidegkuti. Tudo fica decidido na 1ª mão, na Escócia, quando a Fiorentina bate os protestantes, com dois golos de GiGi Milan (2-0). Em Florença, um dia depois de Befani deixar a presidência a Longinotti, nova vitória (2-1), marcam Petris e Milan . Na época seguinte, a Fiorentina chega de novo á Final da Taça das Taças, para defrontar o At.Madrid. Foi um duelo épico, que, após 1-1 no primeiro encontro, só se decidiu no jogo de desempate. Aí, os colchoneros, guiados por Peiró e Collar foram irresistíveis e venceram, por 3-0, uma Fiorentina em fase de transição, desta feita sem a magia sul americana. A vitória de 1961 continua a ser a única conquista europeia da sua história. Em 89/90 chega, com a Juventus, á final da Taça UEFA. Era então a grande estrela viola, com 21 anos, a jovem promessa que alucinava o Calcio, Roberto Baggio, mas, no final, a Copa voaria para Turim, (1-3 e 0-0).

DE ANTOGNONI A RUI COSTA: MÁGICOS Nº10

FIORENTINA5Em todas as equipas do mundo, o nº10 é uma referência de talento e visão de jogo. Na Fiorentina, um homem incorporou magistralmente essa ideologia regente do jogo colectivo: Antognoni, o Príncipe de Florença. Com uma capacidade técnica poética, desenhada por um carácter lutador, tratava a bola como uma amante apaixonada. Apesar de muito cobiçado, permaneceu quase toda a carreira em Florença, onde só saiu na parte final para jogar na Suíça. Nos anos 90 tornou-se director desportivo, um símbolo do clube que todos sentem como a alma viola personificada. Em 81/82, ele foi o virtuoso motor do onze, onde também moravam Vierchowod, Graziani, Massaro e o guarda redes Galli que após as conquistas de 50 e 60, mais perto esteve do Scudetto, pelo qual lutou até ao último minuto, terminando a um ponto da Juventus. Depois da sua retirada dos relvados, em 1989, o nº10 viola ficou órfão de um mago com o mesmo talento orquestrador, até que, no inicio os anos 90, surgiu um regista com sotaque luso que ao poucos iria seduzir Florença, Rui Costa, o maestro em quem Antognoni reviu, por fim, o seu herdeiro natural. Nem Baggio provocara igual paixão. Não venceu grandes títulos, apenas 2 Copas Itália em 96, 1 SuperCoppa, mas, sobretudo, conquistou o Olimpo do Calcio, só ao alcance a quem trata a bola como um instrumento de arte. De cabeça levantada, elegante, com o estilo dos grandes líderes, ele foi, apesar dos golos de Batistuta, o homo squadra, o nº10 que desenhou os melhores momentos da Fiorentina do final de século