Formando para os “monstros”

12 de Maio de 2016

É impossível combater o destino. Poucos meses no mundo adulto, ainda a jogar com a casca de ovo na cabeça, neste caso coberta de rastas, e já vai sair de casa para ir “viver sozinho”. Renato Sanches convenceu o Bayern que era jogador para a sua “máquina”. Guardiola ou Ancelotti, seja qual for, concordaram na sua contratação. O futebol de Renato Sanches pode adaptar-se a qualquer estilo. Quer jogando mais posicional (tendo, porém, que melhorar a precisão de passe) quer saindo mais verticalmente, com o ritmo mais ou menos alto.
Este simples negócio coloca a “política de formação de elite” dos nossos clubes na sua dimensão real. Em suma: formamos os nossos melhores craques para os grandes clubes estrageiros.

Ou seja, num tempo do mercado aberto, ouvir um clube do nosso nível dizer que vai investir na formação provoca sempre algum vazio em relação ao fim desse investimento. Porque se o jogador (como neste caso) atingir um nível tão alto em pouco tempo ele sair quase sem jogar na primeira equipa. Não tem retorno desportivo duradouro. Renato Sanches fez meia época no Benfica ainda em fase de “maturação da formação” e foi vendido ao gigante Bayern. É impossível financeiramente segurá-lo.

Vindos da tal política de formação ficam os talentos de qualidade mas que não atingiram essa dimensão internacional. Esta “cadeia alimentar” clube formador-clube gigante comprador também se verifica internamente: os ditos valores da formação que os nossos clubes médios formam quando se destacam são para vender aos nossos grandes.
Investir na formação é, pois, hoje, quando esse produto formado é top, uma política desportiva de curto prazo. É, essencialmente, uma fonte de receita que permite aos nossos clubes e mercado em geral continuar a funcionar sob a lei do mais forte financeiramente. Como é possível competir desportivamente, no campo, com isto? Não é. (salvo, claro, situações pontuais em que o futebol jogado finta todo este processo).
É inútil o debate sobre quem vendeu mais ou mais caro. O único que interessa é o do futebol e do jogador português. A política de formação quando tem grande sucesso tem retorno financeiro, não desportivo (tirando poucos meses). Neste momento político-financeiro do futebol, os nossos clubes formam desportivamente para os outros. A curto prazo. Tão natural como perturbador.