FUTEBOL AFRICANO E OS ALQUIMISTAS EUROPEUS

27 de Março de 1998

FUTEBOL AFRICANO E OS ALQUIMISTAS EUROPEUS

Ninguem parecia estar á espera. Depois de ter dado a conhecer ao mundo o futebol da África do Sul, após-apartheid, Clive Baker que em 95 conquistou a Taça de Africa, resolveu demitir-se do cargo de seleccionador nacional, em face da desconfiança dos directores sul-africanos que comentavam não vislumbrar nele o perfil e as capacidades para continuar a liderar o futebol de um país que quer se tornar cada vez maís uma potência no futebol africano, capaz de ombrar, no Mundial-98, com as grandes selecções mundiais. Desta forma os “Bafana Bafana”, separam-se de um simpático e original homem, que com o seu bom humor libertou os jogadores sul-africanos, com enorme potencial, de toda a pressão causada por décadas de isolamento internacional. O seu sucessor será o frances Philippe Troussier. Uma escolha que espelha a continuação da politica de contratar técnicos estrangeiros, seguida desde há longos anos pelo países africanos. Na primeira limha de escolha estão, neste momento, os treinadores franceses, sobretudo para os países da áfrica francófona. São ainda os ecos do colonialismo, que criaram profundas raizes culturas, politicas e desportivas.

Afinal o que sucede com Angola e Moçambique em relação a Portugal. Durante algum tempo, durante o tempo em que existiu a URSS, muitos, dentro da mesma linha de orientação, optaram por técnicos de leste. Agora com o declínio do futebol de leste esta opção aparece em plano secundario. O ucraniano Victor Bondarenko, ex-seleccionador de Moçambique e actual técnico dos Orlando Pirates do Soweto chegou a ser hipótese, mas o nomeado foi Troussier, numa escolha que se inspira nos sucessos de Henri Michel em Marrocos e de Kasperczack na Túnisia. Kasperczack é um polaco de formação francesa, que fez todo o seu percurso futebolistico em terras gaulesas.

CLIVE BAKER E PHILIPPETROUSSIER: A VITÓRIA DO “FEITICEIRO BRANCO”

FUTEBOL AFRICANO E OS ALQUIMISTAS EUROPEUSO percurso de Troussier em Africa assemelha-se a um descobridor do principio do século. Por muitos ele é conhecido como o “feiticeiro branco”, depois de ter treinado sucessivamente o ASEC Abidjan, onde começou em 1990, a Costa do Marfim, o Kaiser Chiefs do Soweto, o CA Rabat, o FUS Rabat e a Nigéria, que apurou para o Mundial-98. Neste momento, porém é seleccionador do Burkina Faso, com um contrato de quatro meses que visa a Taça de Africa, a disputar fevereiro próximo nesse mesmo país. Foi aí que recebeu, com surpresa, o convite sul africano: “Seja como for, já tinha ganho o meu bilhete no terreno.

Depois de deixar a Nigéria fiquei sempre com a sensação que iria ao Mundial. Como, não sabia. Já treinei em todas as regiões de África. O futebol sul-africano necessita de ser estimulado. Penso que foram os meus métodos agressivos que convenceram os seus dirigentes a me convidar, depois de ter deixado uma imagem positiva quando treinei o Kaiser Chiefs”. Para os amantes e seguidores do futebol africano fica no ar uma sensação de injustiça para com o carismático Clive Baker que após um notável trabalho com os Bafana Bafana (rapazes, rapazes, em linguagem zulu) fica impedido de atingir a sua consagração máxima nos palcos franceses. O seu sucessor pode ser mais experiente e melhor tecnicamente, mas decerto que não tem a espontaneade, nem o apoio dos jogadores como tinha Clive Baker, um homem de negócios (ele representa uma marca de equipamentos desportivos em Durban) em “part-time” no futebol.

A África do Sul será num futuro próximo a mais forte selecção de África e uma das mais temíveis do mundo. Tem potencial suficiente para isso, falta-lhe apenas organização e experiência internacional. Clive Baker há muito que preparava o terreno para essa explosão sem descurar as bases onde assenta o filão africano: alegria no jogo e vocação atacante: “Os jogadores sul-africanos estão a ficar cada vez mais profissionais, conta Clive Baker, mas para mim o prazer continua a ser a palavra principal. Talvez por isso, e vendo o contexto do futebol sulafricano, que já não me sentia bem no meu lugar.

Recentemente fui a Paris com o meu filho e nos Campos Elísíos disse-le que a Africa estava muito longe de toda aquela sofisticação. Ele respondeu-me que nem sequer o desejavase para isso a África tivesse de perder a sua espontaneadade. Penso que ele tinha razão e eu não quero perder a minha espontâneadade!”. Clive Baker, quem disse que o mundo do futebol não tinha homens para quem os principios são mais importantes que tudo o resto? Talvez por isso não iremos vê-lo a dançar no banco sulafricano durante os jogos do Mundial. O espectáculo do futebol, infelizmente, ficará a perder com isso....

HENRI MICHEL: PROFETA NO MAGREB

FUTEBOL AFRICANO E OS ALQUIMISTAS EUROPEUSPara Henri Michel, discipulo de Michel Hidalgo de quem foi adjunto no Espanha-82 e no Euro-84, este será o seu terceiro Mundial como técnico principal. Foi no final do Europeu de França em 84 que Henri Michel assumiu o comando da selecção gaulesa, orientando-a no México-86, no ultimo fôlego da “geração Platini”. Em 94 esteve, sem êxito, no comando dos Camarões. Agora regressa á frente de Marrocos, com a aura de um alquimista do Magreb. Henri Michel, antigo internacional gaulês, apelidado de “Fkih”, o professor, não é um homem expansivo no “banco”. Depois da sua chegada em 95, o futebol marroquino conheceu uma nova orientação, sobretudo a nível das camadas jovens, dentro de uma estratégia global de renovação. A selecção sub-20 esteve presente no Mundial sub-20, em 96, mas quase todos os grandes jogadores marroquinos jogam no estrangeiro, sobretudo em França e Portugal. O Rei Hassan II, o homem que mais gosta de futebol em todo o Marrocos, condecorou Henri Michel com uma das mais altas distinções do reino, e aspira a conseguir em França um sucesso superior ao alcançado no México-86.

Há 12 anos a selecção marroquina foi orientada por José Farias, um técnico brasileiro que se coverteu ao islamismo e deu ao futebol da selecção de Marrocos um estilo sul-americano, com passes curtos e sempre com a bola na relva. Agora, com Henri Michel, pode-se ver um estilo mais agresivo, para o qual não será estranho a experiencia internacional de jogadores como Hadji, Naybet e Bassir. O técnico francês, que jogou ao lado de um jovem Platini no Mundial da Argentina em 78, têm a missão de fazer esquecer a desilusão do Mundial-94, onde a selecção comandada por Abdellah Blinda, um marroquino que treinara o Casablanca, passeou um futebol desgarrado, não passando da primeira fase. No entanto, obsevando os seus ultimos jogos, vê-se que Marrocos continua a evidenciar as mesmas virtudes e defeitos: joga um futebol bonito, evoluido tecnicamente, com bom dominio de bola, mas pouco aguerrido e com falta de cultura táctica, apesar dos esforços de Henri Michel. Uma imagem que, afinal, percorre quase todo o futebol africano. A mágica selecção da Nigeria será, talvez, a que no presente melhor compensa este desiquilibrio tradicional.

HENRI KASPERCZACK E A TÚNISIA VINTE ANOS DEPOIS

FUTEBOL AFRICANO E OS ALQUIMISTAS EUROPEUS20 anos depois de nomes como Tarak, Temine e Dhouieb, hoje quase herois nacionais, surpreenderem o mundo no Argentina-78, a Tunisia regressa á fase final de um Mundial. E, tal como na Africa do Sul e em Marrocos o técnico do momento é um homem com formação gaulesa: o franco-polaco Henri Kasperczack, desde Junho de 94 chefe do futebol tunisino. Kasperczack, que esteve como jogador no Mundial-74, começou a sua carreira de treinador no Metz, em 79, pouco depois de ter deixado de jogar no mesmo clube.. Passou depois pelo Saint Etiene, Stasbourg, Matra-Racing, Montpellier e Lille. Antes de chegar á Tunisia esteve na Costa do Marfim, em 93, num percurso que o leva a definir como um técnico psicólogo, que considera fundamental a força mental dos jogadores, a base de qualquer vitória: ”A equipa provou que sabe progredir, no plano táctico e no plano mental. Desde esse momento, a progressão é uma constante”, afirma Kasperczack. Algumas décadas apoós a independência politica do continente, África continua “futebolisticamente colonizada” pelos técnicos europeus, Uma factor que, tendo em conta o seu atraso estrutural, pode ser positivo, mas só se na aplicação dos conceitos tácticos do velho continente não esquecer-se as caracteristicas inatas do jogador africano, “diamantes em bruto” com os pés descalços...