Futebol antes do anoitecer: Os “simbolos perdidos”

20 de Fevereiro de 2015

Futebol antes do anoitecer Os “simbolos perdidos”

Os conceitos de grande equipa mudam rapidamente de uma época para a outra. Nesse novo “status” descobrimos quase como uma espécie de pequena “Liga Europa italiana”. Cinco equipas (Roma, Inter, Nápoles, Fiorentina e Torino) nos 1/16 final prova como o Calcio caiu para a segunda linha europeia a nível clubístico (resiste a Juventus na Champions). Seguir esta cinco equipas é seguir a busca pela identidade de cada uma delas.

Intriga ver como a Roma perdeu a consistência da época passada. As ideias de jogo não mudaram. Pede, talvez, demais a Totti como falso 9, mas o ponta-de-lança que contratou agora foi o perigoso mas desengonçado Doumbia.

Garcia tentou outra estrada táctica no 4x4x1x1 contra o Feyenoord: De Rossi-Naigolan no corredor central, Gervinho e Verde nas faixas e Pjanic atrás de Totti. Depois, vendo a equipa presa, dá liberdade para Gervinho surgir (ou ficar) no meio. Ganha profundidade e velocidade, faz o golo, mas, sem noção de bloco, perde a ligação ente-sectores. Quando aos 65 faz uma dupla substituição em que tira De Rossi e Totti sente-se quase o fim de regime de uma equipa sem líderes (acaba 1-1). Mais do que substituir jogadores, Garcia estava a abrir o coração da equipa para além da tática. Nenhuma equipa cresce assim a partir da exposição publica dos seus símbolos.

No contexto das grandes equipas europeias, as italianas são as únicas que continuam a insistir, como opção táctica de fundo, em jogar com defesa a “3” a nível internacional.

A Fiorentina de Montella entrou em 3x5x2 em Londres contra o Tottenham para tentar controlar melhor a posse. Sucedeu o oposto, perdeu o controlo dos espaços. Pasqual e Basanta sofreram na esquerda com os arranques da dupla Townsend-Walker. Joaquin não encontrava o jogo na direita e a dupla Salah-Gomez vivia perdida na frente.

Foi quando surgiu o lado mais positivo das equipas italianas: a facilidade de mudar de sistema no curso do próprio jogo devido à superior cultura tática dos seus jogadores. E, assim, num ápice, passou para a defesa a “4” (4x3x3) recuando Pasqual e fixando no ataque Salah numa faixa. A geometria tática mudou totalmente e estabilizou o seu futebol (empatou 1-1).

A ideia de que os sistemas de defesa a “3” podem ser mais maleáveis, e que depois no jogo adquirem facilmente outro desenho, é verdade mas tem um ponto de partida muito mais complexo do que a clássica a “4” para a dinâmica posicional ser eficaz sem se desequilibrar no momento defensivo a ocupar os espaços.

Da táctica pura aos líderes perdidos, da Fiorentina à Roma, dois casos de como o futebol é um caleidoscópio que deve viver da melhor interpretação de várias sensações simultâneas. O futebol italiano não tem hoje referencias fixas em nenhuma das duas perspectivas.

BROZOVIC, GESTOR DO INTER

Futebol antes do anoitecer Os “simbolos perdidos”No Inter, Mancini procura várias fórmulas para dar segurança e agressividade ao onze. Tenta estabilizar o 4x3x2x1 com liberdade para os interiores (onde se destaca Guarin) e procura que um ala jogue mais por dentro, disfarçado de “trequartista” (por isso, com o Celtic, surgiu em 4x3x1x2 com Shaqiri a partir do centro atrás de Palácio e Icardi, mais abertos).

Neste percurso, Kovacic perdeu influência porque lhe exigiram demais para a sua ainda curta maturidade. Com Medel, “formiga tática” do meio-campo a pivot, o novo dono do sector (mas que não pode jogar a Liga Europa pois já o fez no Dinamo

Zagreb) é o croata Brozovic. Colocado no centro ou descaindo em largura, pega no jogo e serena a equipa. Tem apenas 22 anos mas joga como um veterano no sentido da segurança confiante com que toca a bola. A estabilidade (tática e emocional) não é uma coisa da idade ou da experiência. É da qualidade que existe ou não existe. Brozovic nasceu, vive e joga com ela.