Futebol, “E depois do adeus…”

23 de Abril de 2008

Futebol, “E depois do adeus…”

Futebol e a política. A relação entre estes dois mundos sentiu, ao longo dos tempos, distintos contornos. O lado politicamente discreto do futebol na histórica lusa do Sec.XX denunciam as idiossincrasias muito próprias de um país que raramente entendeu o verdadeiro poder do futebol para lá da relva e onze jogadores. Por várias razões.

Durante os longos anos, causa perplexidade o desinteresse da oposição pelo poder mobilizador do futebol. Visto com desconfiança pelos intelectuais de esquerda, abandonando-o na tríade alienatória Fado, Fátima e Futebol, sentiram-se, ao invés, atraídos pelo mundo dos toiros.

Um fenómeno semelhante ao de Espanha e de toda a América latina.

Quando a oposição se moveu no futebol, o regime preocupou-se. Como em 1969, quando em período de luto académico, uma final da Taça Benfica-Académica tornou-se perante o olhar da PIDE num dos maiores comícios políticos realizados contra o regime. Silenciosamente, quando as equipas entraram, ergueram-se por entre a multidão cartazes com palavras de ordem como “Melhor Ensino–Menos policias” ou “Estão 36 estudantes presos”. Mas a oposição iconoclasta nunca entendeu esta força.

No início, o Sporting, domina na tranquilidade cinzenta do Estado Novo de carácter corporativo, sob a batuta das elites pensantes. O leão tinha tudo para dominar. E no “tinha tudo” estão, claro, os cinco violinos: Travaços, Jesus Correia, Peyroteo, Albano e Vasques. Os dourados anos 60 exaltam o jogador “ultramarino”. Quando Eusébio chegou, em 1960, o Benfica tinha ganho 10 campeonatos, tantos como o Sporting. Em 15 anos na Luz, o Benfica conquistou mais 11 e o Sporting apenas 4. Salazar impedia Eusébio de sair porque ele era “património nacional” e os jogadores do Benfica eram os emblemáticos filhos dum regime que soltava um intenso cheiro a naftalina, impedia o livre acesso á informação e cultura, refugiava-se nas tradições agrícolas e criava um exército de analfabetos.

O futebol facilmente se tornou na fonte quase única de alegrias, mas esta colagem do antigo regime ao fabuloso Benfica dos anos 60 é revoltante para os reais amantes de Eusébio, Coluna, Torres, Simões e companhia.

Meados dos anos 70 explode a rebelião futebolística do FC Porto, o “terceiro poder”. Na inspiração estava criar um embrião do Barcelona. Mas se a tese da oposição às equipas do regime é sustentável, já parecem abusivas outras ideias. Em Espanha estamos claramente perante dois povos distintos, histórica e culturalmente, Castela e Catalunha. Em Portugal não parece possível falar em povos distintos no Norte e no Sul. O máximo que se pode dizer é que sendo nação é uma comunidade de cultura, e o seu um conceito mais recente do que o de Estado, é possível que um nortenho se sinta mais próximo de um galego do que de um algarvio.

Três clubes, três formas de viver o país. A cada um, o seu ciclo de domínio. Anos 40/50 Sporting; Anos 60/70 Benfica; Anos 80/90 FC Porto.

Em todas, as raízes sociais, políticas e económicas que sustentaram esse domínio, melhor emolduraram as diferentes géneses clubísticas e lhes proporcionaram o controlo do jogo. Fora e dentro do relvado.

O futebol como “ser global” nunca soube usar a sua enorme força. Foi desprezado politicamente, com um sub-produto. Foi explorado politicamente, como símbolo nacional, quando foi conveniente surgir ao lado dos seus heróis, tornados imagens de um novo país. De Eusébio a Ronaldo.