Futebol-estratégia: “Penso, logo… jogo!”

24 de Março de 2015

Futebol-estratégia Penso, logo… jogo!

Pela tarde o roncar dos motores dos jaguares. Á noite a música do U2, com o próprio Bono Vox na bancada, num Estádio que, sem ter nele alma do futebol, assiste esta época a uma das equipas mais evoluídas (e muitas vezes também aprisionada) no dito “futebol de estratégia”. É o Mónaco de Jardim.

No tempo de Guardiola, no Nou Camp, a equipa entrava em campo ao som dos Coldplay, “Viva la vida”. Em Madrid, no Bernabeú, tocava música clássica, o lado mais oponente da realeza merengue. A música que ouve também diz muito de como uma equipa encara o jogo.

O futebol é hoje uma babilónia de identidades de jogo mais do que, como antes, um confronto de estilos entre o jogo tradicional de cada país. Agora, com a invasão de estrangeiros, são os treinadores e suas ideias, a marcar cada estilo.

Para além da identidade que cada um incute na equipa, existe o lado estratégico que cada jogo pede em função do adversário. Assim se pode subverter a permanente lógica do mais forte.

Será uma forma de explicar como nos quartos-final da Champions estão sete equipas latinas e só uma anglo-saxónica. É o domínio da inteligência táctica-estratégica que cruzada com a identidade faz, a cada eliminatória, a equipa mais forte para agir (e reagir) ás condições de cada jogo.

O único resistente anglo-saxónico, o Bayer Munique é uma equipa que vive acima desses subprincípios tácticos no pedestal da filosofia-Guardiola mas a época passada caiu exatamente pela falta dessa especificidade estratégica ao manter a identidade da defesa demasiado subida frente a um onze velocista do contra-ataque como o Real de Ronaldo e Bale.
O sucesso do At. Madrid de Simeone a este nível é o melhor exemplo da união identidade-estratégica alicerçada numa forma de jogar. Pela forma como enjaula do adversário, ora pressionando alto, ora ao perceber que não o vai conseguir travar nesses territórios adiantados, recua e fecha-se numa caverna junto à sua área. Juventus e PSG são dois novos projetos de força latina que procuram, com mais vocação ofensiva, emergir nessa linha de jogo.

As equipas de Jardim sempre tiveram essa identidade. Muitas vezes, porém, como com o Arsenal, tal passa, muito rapidamente, de controlar o jogo para controlar o... resultado. Ao não se aperceber dessa linha tão ténue que separa realidades tão diferentes é quando a estratégia se perde como plano pensado e a equipa, em campo, passa apenas a resistir. Por isso, em Londres controlou o jogo e, no Mónaco, controlou apenas o... resultado, vivendo na berma do precipício até ao fim.
Em geral tal sucede, claro, em vantagem, mas espelha o lado mais lunar do “futebol de estratégia” que, mesmo desde o tempo do choque de estilos “futebol da força versus força da técnica” fez as melhores equipas latinas.

ONDE FALHAM AS EQUIPAS INGLESAS?

Futebol-estratégia Penso, logo… jogo!A queda das equipas inglesas não é neste domínio do “futebol-estratégia” um facto tão anormal (já sucedera em 2013, mas nas últimas 15 épocas metera 32 equipas nos quartos-final) tirando o caso do Chelsea de Mourinho, habitualmente mais forte no tal contra-sistema, mas que perdeu frente à maior rotação do meio-campo (Motta-Verrati-Matuidi) do PSG.

Antes já caíra, nos grupos, o Liverpool de Rodgers (indecisivo entre a posse e a busca imediata de profundidade) e agora o Manchester City (equipa que transmite sempre a sensação que, sem bola, se vai desequilibrar a qualquer momento, devido ás hesitações posicionais do seu meio-campo) e o Arsenal (equipa que mais do que análise tática, precisa de um psicólogo para perceber a bipolaridade das suas exibições, onde também o meio-campo vive sem referencias fixas, no qual intriga porquê Ramsey não é sempre esse elemento em campo). Não é, desta vez, um problema tático de treinador britânicos, é um problema de cultura que condiciona mentalidades
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