Futebol em “papel quadriculado”

27 de Abril de 2016

O que terá passado pela cabeça de Pellegrini quando soube que afinal Ronaldo não ia jogar. Pode um treinador mudar o plano de jogo pouco antes de começar?
Ou seja, sem a explosividade ofensiva de Ronaldo a atacar a profundidade e baliza, poderia subir mais uns metros a sua linha defensiva e jogar com um bloco mais alto? Era tentador pensar nisso, mas as coisas não funcionam assim.
Não existia tempo para preparar uma forma diferente de jogar. O “formato-Champions” do City passa muito por quer controlar o jogo juntando mais as linhas e não iria abdicar disso. Subir um pouco mais o bloco iria depender da sensibilidade dos jogadores em campo cruzando olhares com o treinador para saber se era possível dar esses passos em frente.
Em tese, um treinador não deve arriscar mudar o chip do plano de “preocupação táctica” que os jogadores levam como se tudo, de repente, se tornasse mais fácil. É o primeiro passo para uma equipa perder as suas referencias. Pellegrini manteve o seu City num processo defensivo com os laterais (Sagna-Clichy) bem posicionados.
A equipa cresceu taticamente esta época embora isso não seja visível a "olho táctico nu". Exige um olhar mais microscópico aos movimentos de meio-campo e, ironicamente, conseguiu-o mesmo sem Yaya Touré, quando solidificou melhor a dupla Fernando-Fernandinho (entre ficar em cobertura de equilíbrio, o que faz mais Fernando, e sair para o jogo, o que faz mais Fernandinho).
Na frente, permanece o facto que mais que perturba neste City: ver Silva demasiado descaído numa faixa, demasiado condicionado a “ator secundário” (muitas vezes quase só apoio de circulação) quando devia ser arquiteto de toda equipa porque ninguém pensa o jogo melhor do que ele. Acabou por sair (lesionado) na primeira parte e a equipa nem se mexeu. Não sentiu muito a sua falta porque o plano táctico é outro. Devia-o ter sentido.

O jogo para heróis discretos e ocasionais (mas nunca acidentais)

 

O Real Madrid de Zidane tem um “pacemaker” colectivo no meio-campo em três jogadores: Casemiro-Kroos-Modric. Um equilíbrio essencial mas que me faz sentir a falta do adiantar o terreno de Modric até a fazer o “ultimo passe”. Cada vez menos, porém, este Real é uma equipa de “últimos passes”. É, cada vez mais, uma equipa de mais... pases a meio-campo e jogo direto nos últimos 30 metros. São as características dos avançados que determinam isto. São as qualidades de visão/execução táctica dos médios que permite tudo isto de forma equilibrada.
Mesmo num jogo sem Ronaldo, isto manteve-se e Manchester, apesar das derivações permanentes de Bale, um avançado cada vez mais anárquico nos seus movimentos ao ponto de ser impossível definir em que tipo de jogador ele se tornou hoje. Nem questiono a sua posição (parte da direita e depois vagabundeia por toda a frente de ataque) questiono mais como isso retira referências dos locais certos onde deve começar a meter a sua.... dinâmica de jogo. Acaba o jogo e fico com tonturas de ter visto, ou ter tentado seguir os movimentos de Bale. Para recuperar a “estabilidade analítica de visão” recorro então aos tais três médios.
Todas estas contingências (sem Ronaldo e depois Benzema) permitiu aparecer um jogador aparentemente banal mas que, por ser inteligente e táctico-tecnicamente responsável, dá sentido colectivo à equipa mesmo partindo como avançado: Lucas Vasquez.
É aquilo que chamo um “utilitário-ofensivo” que nunca vai deixar mal um treinador. Não se pense, porém, que é apenas um “soldado táctico disciplinado”. Não, ele pensa coisas diferentes no jogo. Mas nunca as aplica para tornar o jogo da equipa diferente. Aplica-as sempre dentro de um “plano de continuidade” que dá solidez móvel ao ataque.
Uma época longa faz-se muito deste tipo de jogadores. Os heróis discretos e ocasionais (mas nunca acidentais, note-se).