Futebol sob um «tapete voador»

20 de Novembro de 2007

Futebol sob um «tapete voador»

Para os mais directos, a análise ao trabalho de um treinador durante um jogo é simples: meter mais avançados quando se está a perder para dar a volta ao resultado, ou mais defesas quando se está a ganhar para segurar a vantagem. São ideias que, por serem tão lógicas, o ilibam de qualquer responsabilidade face a um resultado negativo. Esta análise simplista provoca, no entanto, muitas ilusões. Existem mais de mil maneiras de ganhar um jogo. A mais «educativa», através de um bom jogo colectivo.

Depois, através de uma jogada individual de sonho, ou até através de um remate sem destino que muda de direcção a meio do caminho. A noite estava fechada e não se viam estrelas no céu. De repente, um marroquino com ar meio sonolento apanhou com a bola, e, nesse momento, arrancou para a baliza francesa como estivesse a voar sobre um tapete voador. Lá em baixo ficava o até então desordenado jogo azul-e-branco, órfão de quem (Lucho) lhe podia dar outra maneira de ganhar o jogo, pela ordem colectiva.

Quando desceu á terra, cara a cara com o guarda-redes do Marselha, Tarik já passara por todo o «Cashba» gaulês. Pé esquerdo, pé direito, pé esquerdo. Golo! Bernard Shaw dizia que o mais absurdo que podem pedir a um artista é uma explicação para sua obra, já que essa explicação pode bem ser o que ele procurava. O filho predilecto de Alá na Champions descobriu-a á medida que a inventava. “Primeiro, quando tinha a bola junto à linha lateral, apenas pensei em ultrapassar o defesa-esquerdo”.

Uma questão burocrática, portanto. “Depois, pensei apenas em servir um companheiro”. A intenção de manter a ordem social da equipa em campo. “Depois, vi que havia muito espaço e como a velocidade é um dos meus fortes, arrisquei seguir com a bola em fintas”. A percepção da obra de arte surge na sua cabeça sem desenhos prévios.

Tarik procurou a sua explicação recordando o que pensava a cada respiração. Segundos antes de a fazer, nem a imaginava sequer. Todas os grandes golos de rasgo individual nascem assim.

Futebol sob um «tapete voador»Em Alvalade, uma bola sem respeito pelas mais elementares regras de justiça futebolística, resolveu trair Polga e o bom futebol colectivo, roubando a vitória ao onze leonino quando todo o Mundo já concordara com ela. Antes, Paulo Bento tinha dito como a teoria simplista com que comecei o texto muitas vezes não faz sentido. Contra a Naval, no jogo anterior, tirou um ponta-de-lança (Purovic) por um defesa-central (Gladstone). Contra a Roma, tirou um avançado (Djaló) e meteu mais um médio (Vukcevic). Em ambos os casos, ao contrário da lógica, conseguiu assim melhor atacar e controlar o jogo. Mas, como diria o velho brasileiro Flávio Costa, “seria o imponderável a liquidar as nossas pretensões”.

Algo, vendo bem, que até é previsível quando diante das cínicas equipas italianas. Porque das mil diferentes formas de ganhar um jogo, há uma, a vitória com o sorriso do diabo, que só eles conhecem. Em Glasgow, o Benfica acendeu e apagou-se conforme a capacidade dos seus melhores jogadores conseguir iluminar o jogo e disfarçar as carências colectivas que continuam a mandar na equipa. Pedir a Rui Costa para fazer aos 35 anos a mesma coisa que fazia aos 24 não é, naturalmente, a melhor forma de explorar hoje as suas capacidades e proteger as suas naturais limitações físicas. Por isso, acendeu-se no inicio, e foi-se apagando com o decorrer do jogo. Vitória da lógica, neste caso. Da mesma forma que, no ataque, Cardozo continua a ser como uma ilha em forma de ponta-de-lança. Como diria Capitán Renault no fim de Casablanca quando caminhava ao lado de Rick: “Isto pode ser o início de uma bela amizade”.

Durante todo o filme, andaram sempre de costas viradas. O filme da relação de Tarik, velha aposta do cientista louco Adriaanse, com o público do Dragão, também nunca fora um conto de fadas. Pelo contrário. Aquele golo de «outro mundo», terá mudado tudo e marcado o inicio de uma grande amizade. Como ilustrou a estrondosa ovação de pé que recebeu ao sair poucos minutos antes do fim.

Pintor de golos

Futebol sob um «tapete voador»Os grandes craques são de geração expontânea ou produtos de formação? É uma questão antiga, mas em qualquer debate, sempre se falou na formação como a suprema referência de fazer grandes jogadores. Uma escola onde se adquirem as bases e os movimentos que depois vão servir de suporte a toda uma carreira futura. Parece uma opinião pacifica, mas há quem ouse desafiar estas teorias. Pensamos nas origens dos grandes jogadores de todos os tempos, de Pelé e Maradona, e vemos que nelas em vez de campos relvados e chuteiras último modelo, estão baldios de terra e pés descalços. Dirão que esses não contam, são excepções, porque são génios.

Uma teoria desmoronada quando pisamos terras brasileiras e se descobrem craques até debaixo das pedras. Ou, até, noutros locais menos imagináveis. Até aos 22 anos, em vez de passar pelos escalões de formação, ele trabalhou como mecânico de automóveis, pintor e repositor de supermercado. Um belo dia, alguém lhe deu uma bola para os pés. Com ela dominada, foi desde as profundezas da Bahía até á relva de Alvalade.

É esta a essência de Liedson. A leveza do bom futebol em cada jogada. Natural, simples, como cada golo que marca. Em que escola aprendeu aqueles movimentos, aquela capacidade de rematar e seduzir a baliza?

Liedson seria um «case study» perito para entender os mitos e as utopias da formação e entender qual o verdadeira influência do chamado «futebol de rua» no processo de crescimento do grande jogador da actualidade.

Deve ele crescer selvagem ou lapidado cientificamente? A solução estará a meio caminho destas duas vertentes. Acredito que mais do que ensinar, um treinador na formação deve antes guiar cada talento para este descobrir qual o melhor caminho de o explorar. A cada jogo, a cada golo que marca, olhando para o futebol de Liedson percebe-se que, afinal, os grandes craques não se fabricam nem se procuram, simplesmente... encontram-se!