Gostava de sentir outra coisa

28 de Junho de 2016

Não adianta nesta fase discutir o nível estético do jogo da seleção. Se é feio ou bonito, se joga bem ou mal. A seleção passou essa fase existencialista. Depois do impacto contra a Islândia, Fernando Santos como que entrou num “mundo paralelo” de pensamento. Um mundo onde a forma como és reconhecido, ou seja, como o teu futebol é definido, é um ser menor de análise em face do argumento demolidor do resultado.

A seleção passou a viver cada jogo como se não tivesse jogado o anterior. Isto é, a construção de um estilo (ser reconhecido pela forma como jogamos) deu lugar à vontade de quem entre no estádio ao minuto 90 (ou 120) faça o seu julgamento olhando apenas para o marcador. Em vez do jogo, julgar pelo resultado.

A preocupação de impedir os desequilíbrios defensivos sofridos com a Hungria, deu lugar a uma “visão grega” do nosso jogo. É uma opção que nos pode fazer ganhar (ou empatar até surgir uma jogada que dê vitória) mas nunca será uma opção que nos dê o respeito por um estilo.

Não entro, atenção, na tese das “derrotas morais” que muitos sentem nestas nossas vitórias mas é evidente que esta nossa forma de estar a encarar (e jogar) os jogos, faz-nos pensar. Faz-me questionar a minha existência. A minha identidade. Estou a ganhar, é verdade, mas “não sou eu”. É uma mascara de táctica e estilo que criei (pouco interessa aqui o 4x4x2, losango, 4x3x3 ou quem joga). Esta é “outra forma de Portugal”, o estratégico que se enche de rugas e pisa o relvado apenas com respeito pelo resultado, como só ele falasse verdade.

Por isso, em vésperas de jogarmos o nosso quinto jogo neste Euro, não faço ideia como Portugal vai jogar contra a Polónia. Não pode existir sensação mais perturbante quando se analisa e quer se sentir identificação com uma equipa de futebol para além, claro, da que sente desde o berço da bandeira.

O calendário deu-nos a oportunidade dum “caminho de ninfas” até á final sem cruzar a “terra dos monstros”. Já perdemos muitas vezes nestes caminhos frente a gigantes jogando um futebol que nunca esqueceremos (de 2000 a 2012). Não gostava de, até ganhando, recordar este Euro só pelo resultado. Quero recordar pelo que senti ao ver a seleção jogar. E gostava de sentir outra coisa.

O “diabo” dá-nos prazer

E no meio dos oitavos, o “diabo” apareceu e nem sequer vinha vestido de vermelho. Trazia um equipamento alternativo mas não se esquecera de, para não perder protagonismo, ter o 10 nas costas. Hazard dinamitou a Hungria numa altura em que após toda a equipa belga (num recital de futebol em movimento, técnica, passes, desmarcações e remates) ter perdido a possibilidade resolver o jogo, o onze húngaro começa a ameaçar o empate através do seu maior poderio físico a ganhar “segundas bolas” na frente.

Foi então que a explosão da criatividade superou a dimensão atlética. Foi, porém, uma criatividade que não começou nos pés. Começou na cabeça. Na inteligência de movimentos, num auto-passe que iludiu toda a defesa húngara que saia para fazer o fora-de-jogo e num arranque com cabeça levantada invadindo espaços de finalização. O passe e o remate. O cérebro e os pés. O futebol e a sua essência. Assim fez Hazard a melhor exibição individual deste Euro com transfer colectivo.

Ganhar assim e usar adjetivos como criatividade, prazer e magia, é diferente de ganhar e usar adjetivos como sofrimento, disciplina e esforço. A Bélgica deu-nos esse “tesouro de futebol” nesta fase.