Gostava era de os ver agora no “pelado” da Avenida

18 de Abril de 2016

Não sei se é aconselhável ler este texto. Hoje são imagens que apenas resistem nos campos das distritais. Mas houve um tempo em que essas grandes “batalhas na areia” faziam parte da elite do nosso futebol. O misticismo dos “pelados” continua em muitas gerações desse tempo e terminou em meados dos anos 80 (a última época da I Divisão a admitir campos de terra batida foi 83/84).
Para quem dentro desse tempo é impossível numa semana em que se joga (na relva) um Rio Ave-Benfica, o que foi esse grande jogo nessa época no velho mítico Estádio da Avenida em Vila do Conde, campo de sonhos e batalhas que fez então uma das mais aguerridas equipas que essas paisagens já conheceram. O Rio Ave do Mourinho “pai”.

Apesar dessa imagem de “barba rija” (os jogadores que não cortaram a barba até jogar a final da Taça com o FC Porto) aquela era uma equipa tecnicista. Que controlava com técnica a bola no pelado nos pés do Quim (vejam o golo que marcou nesse jogo em “slalom na terra”) do Adérito, os rasgos do Casaca, a classe do capitão Duarte e, claro, com menos requinte mas instinto, o goleador N’Habola. Quando os grandes craques iam jogar a esses terrenos, mesmo com o publico mesmo em cima das linha laterais, o Chalana, Oliveira, Carlos Manuel, até ainda o Futre, também tinham de dominar a bola com esta a querer fugir como um coelho na terra revolta com poeira no ar. E como a dominavam.
Do mesmo tempo, recordo aquelas viagens emocionantes para ir ver outras grandes batalhas dos pelados. Em Espinho, outro mítico Avenida, no Vidal Pinheiro, e até um ano em Águeda, onde se chegou a jogar com um cavalo branco da GNR atrás de uma baliza para garantir a segurança que até dava uns trotes mais nervosos quando o Nené rematava. E os adeptos mesmo ao lado. Do pelado, da baliza, dos jogadores. E do cavalo também, claro.

avenida

Tudo isto pode parecer um texto muito nostálgico. E é, confesso. Como confesso que agora que ando a digitalizar todo esse velho arquivo VHS (e até BETA!) sempre que vejo essas imagens penso que ouvir hoje algum craque moderno queixar-se da relva é quase quixotesco. Ali sim, no pelado era onde a técnica crescia mesmo e não se engava ninguém sobre quem a tinha ou não. Ainda hoje penso nisso. E, por isso, defendo tanto a importância de levar o “futebol de rua” para as Academias e no meio de tantos relvados fofos modernos, meter um pelado (até meio esburacado) para se aprender mesmo a verdadeira biomecânica nata de tratar/controlar a bola.

Os grandes craques não cresceram em grandes centros de formação. Eles são importantes, claro, mas quem os faz não são as instalações. São as ideias. É como as casas, quem as faz são as pessoas que estão lá dentro. Por isso quando hoje vejo uma jovem promessa a aparecer no futebol sénior penso que “ok, está bem” mas como seria ele (raça nas divididas e controlo de bola) no pelado, com o futebol e o talento em estado bruto e puro.
Sabem, por exemplo, o melhor elogio que podia fazer hoje ao Jota do Paços? É que me faz lembrar um desses craques ainda a jogar num pelado. Outros já só os imagino a jogar quase numa alcatifa e não podem provocar o mesmo encanto (e até sensação de qualidade).
Cada geração tem o “seu tempo” e não tenho sonhos a fazer pinturas rupestres nas paredes, mas a verdadeira alma do futebol não é das “pop-stars da relva”. É dos “capitães da areia”. Entre o Rio Ave-Benfica de 83 e o de 2016 há “um mundo” a separá-los. Já perceberam qual era (é) o meu.