GRANDES ESTRANGEIROS EM PORTUGAL

14 de Agosto de 1999

GRANDES ESTRANGEIROS EM PORTUGAL

Estava o Manchester United super empenhado no histórico “Treble” quando SCHMEICHEL anunciou: “no fim da época vou deixar o futebol inglês.

Pretendo jogar num local mais calmo, com sol e bom clima, sem tanta pressão, sem ter que fazer sempre dois jogos por semana, Quero jogar ainda mais alguns anos, e aqui em Inglaterra, com esta pressão e desgaste não duraria mais do que um ano”.

A partir daí, todos os dias se falou num destino. Mallorca, Marselha ou até o regresso á Dinamarca. Por fim, depois de rumores que poucos levaram a sério, uma decisão que espantou meio mundo: Schmeichel no Sporting! Ora se por um lado todo o futebol português deve exultar com a possibilidade de receber um dos melhores guarda-redes do mundo, por outro, as iniciais declarações do “morcego gigante” são, no mínimo, razão para meditar na imagem que o nosso futebol possuiu por toda a Europa. Recebido com “banda de música”, Schmeichel sorriu, fugiu aos jornalistas, falou de como gosta da zona do Estoril, do peixe, do sol, e no final, vá lá, disse que vinha para ser campeão, pois claro!, afinal se quando chegou a Manchester, os “red devils” não venciam há 25 anos, o facto de no Sporting o vazio durar há 17 anos até nem é muita coisa... No final, contentemo-nos com facto de uma grande estrela mundial, no auge das suas potencialidades, 35 anos, ter vindo para Portugal.

Afinal, olhando o passado, este é um facto que só raramente sucedeu no nosso “futebolzinho prêt-a-porter”. Desde 86, quando chegou o mexicano NEGRETE, envolto na aura de autor de golos acrobáticos, como o que fizera no Mundial desse ano, que Alvalade não vivia sensação semelhante.

CUBILLAS E YAZALDE: OS MONSTROS DOS ANOS 70

GRANDES ESTRANGEIROS EM PORTUGALCorria o ano de 1974 quando Portugal viu chegar o primeiro, e talvez maior, grande estrangeiro, num tempo em que muitos jogos da 1ªDivisão eram feitos em campos “pelados”, vergonha que se manteria até 1984, chacota em todo o mundo futebolisticamente evoluído. Que estrela, prima-donna ou não, gostaria de vir arranhar e queimar o corpo e a alma na terra batida riscada com cal viva que povoava muitos dos nossos “estádios”? Houve um furacão peruano que não se importou: Por cerca de 5600 contos e um ordenado de 125 contos mensais, uma fortuna para a altura, CUBILLAS ingressava no FC Porto que não ganhava nada há 16 anos.

Continuaria sem ganhar, mesmo com o artista peruano, que ficou nas Antas até meados de 77, quando foi vendido ao Alianza de Lima por 6380 contos. Apesar de não conquistar títulos, Cubillas confirmou todo o seu potencial de grande jogador expresso nos Mundiais que disputou. Era o que se chama, uma força da natureza. Possante, rápido e com pontapé fulminante, temperava o seu estilo com a sedutora técnica sul americana.

Quando Cubillas chegou a Portugal, o artista sul americano que cá reinava era gaúcho, um goleador das pampas, YAZALDE, o chiroula – moedas de tostão, na Argentina - de Alvalade, nome que ganhou por em miúdo passar horas a jogar com elas. Chegou em 71 mas só em 73/74 começou a brilhar. A época passada quando o Sporting voltou a contratar um ponta-de-lança argentino, Kmet, muitos para se consolarem da sua não utilização, recordaram a história de Yazalde, mas podem estar certos, chiroula só existiu aquele, nunca mais existirá outro. Nos anos 80, Yazalde regressou com o que dizia ser um novo fura redes: Saucedo. Em comum, porém, só a origem. Mais especialista em criar confusões do que em fazer golos, Saucedo durou pouco tempo em Alvalade, ainda andou por Braga e Covilhã, acabando por regressar, sem glória, á sua Argentina. Mas ao invés de Kmet e Saucedo, Yazalde era um jogador de selecção.

Custara 3500 contos, vindo do Indepediente, com 25 anos. Seria mais tarde vendido, em 1975, ao Marselha por 12 500 contos, depois de ter jogado o Mundial-74. No mesmo ano, chegaria a Alvalade, um mágico africano que fizera carreira em França: KEITA, natural do Mali, que não era, já se vê, uma grande potência do futebol mundial. Keita era, porém, um diamante negro lapidado pelo futebol francês. Um talento nato, expresso num estilo gingão e algo individualista. Até hoje, o seu nome é respeitado em toda a Europa, como símbolo de classe e magia futebolística. No inicio dos anos 80, o inovador Benfica de Ericksson, contou com dois estrangeiros de relativo credencial: um em fim de carreira, o jugoslavo FILIPOVIC e outro no seu inicio, o gigante sueco STROMBERG. Em 86, chegou, para Belém, o mago búlgaro MLADENOV. Em 90, surgiu SANCHEZ, o “Platini boliviano”, e com a “perestroika” abriu-se a porta aos rebeldes russos IURAN, MOSTOVOI E KULKOV.

BRASIL: DO JOGADOR DE PRAIA AO TITULAR DA SELECÇÃO

Entre as estrelas importadas dos anos 70, mora o primeiro brasileiro de renome a jogar em Portugal na segunda metade do século: FLÁVIO. Chegou ao Porto em 71, rotulado de grande craque, só Pelé, dizia o típico exagero lusitano, teria marcado mais golos que ele. O caso dos brasileiros merece, porém, análise separada. Próximos culturalmente e sambando o melhor futebol do mundo, sempre foram um mercado estimulante.

No entanto, até meados dos anos 80, os que vinham ou eram simples desconhecidos, jogadores vulgares, ou estavam em fim de carreira, como SERGINHO, ponta de lança no Mundial-82, e GIL, figura da selecção 74, que, antes da reforma, jogaram, “a passo de caracol”, no Maritimo e no Farense. Entre os desconhecidos porém figuram nomes que desprezados cá, surgiram depois em alta noutras paragens. Nos anos 70, o extremo NELINHO, dispensado pelo Barreirense, deixaria mais tarde atónita a “margem sul”, quando o descobriram a jogar e a marcar no Mundial 78. No presente, muito se fala de GIOVANNI reprovado pelo Guimarães num treino á experiência, mas o mais caricato sucede com o avançado CRISTHIAN, que jogou no “país inteiro” - Estoril, Est. Amadora, Tirsense, Farense - sem convencer ninguém e que regressado ao Brasil tornou-se um goleador nato, convocado para a selecção e cobiçado por colossos europeus.

GRANDES ESTRANGEIROS EM PORTUGALIntrigante é também o inverso. Brasileiros que incógnitos no seu país, chegam cá, explodem, jogam que se fartam, mas continuam anónimos no seu Brasil. São, entre outros, os casos de Artur e Ísaias de quem nunca nenhum brasileiro na sua terra ouviu falar. Se vir-mos que o mesmo não sucedeu com Emerson e Paulo Sérgio, que foram com o mesmo rótulo para a Alemanha e hoje, sem regressar ao Brasil, jogam na canarinha, podemos, de novo concluir algo mais da fama do futebol português além fronteiras.

Ia o Nacional 86/87 a meio quando o FC Porto anunciou uma grande contratação capaz de decidir o título: CASAGRANDE, ponta de lança do escrete. Falou-se, na altura, que estava só de passagem para Itália. A sua presença não foi um sucesso. Infeliz fracturou a perna num contra o Brondby. Na retina ficam as suas imagens de dor no frio nórdico gritando para Domingos Gomes: “Quebrou, quebrou!”, num jogo em que nas redes dinamarquesas estava ... Schmeichel. No final da época, como se suspeitava, rumou para o Calcio. No mesmo período chegou ao Benfica o trinco ELZO, titular no México-86, iniciando-se uma era dourada de grandes jogadores brasileiros em Portugal. A real inversão de cenário na Luz dá-se, porém, por acção do empresário Manuel Barbosa que trouxe para ficar, pelo menos um par de anos, estrelas como VALDO, MOZER, RICARDO E ALDAÍR. Uma onda que seduziu o Sporting, que embora também comprasse valores como Silas, Douglas, Luisinho e Ricardo Rocha, todos internacionais, nenhum deles tinha a projecção das estrelas benfiquistas.

GRANDES ESTRANGEIROS EM PORTUGALDepois de algum tempo virado para outras paragens e estilos, como o norte de África, origem do calcanhar de MADJER, argelino comprado ao Racing Paris, e o leste da Europa, região do glacial guarda-redes polaco MLYNARCZYK, adquirido ao Bastia, o FC Porto voltaria a apostar no Brasil, com o pontapé canhão de BRANCO, vindo do Udinesse, e a classe de ALOISIO, ex-Barcelona. Uma facto porém a reter: embora sendo todos grandes nomes do futebol mundial, todos eles foram comprados em baixa, isto é, quando as suas careiras pareciam em queda ou adormecidas, estando, por isso, financeiramente acessíveis.

Nas Antas, revitalizados, regressaram á vida, ganhou o FC Porto e ganhou o futebol português. Hoje todos estes nomes provocam saudade. Implacáveis, os anos 90, roubaram os grandes nomes a Portugal, que nem segura os seus melhores jogadores, quanto mais contratar grandes internacionais. A Lei Bosman e a evolução cruzada da política e da economia com o futebol, trucidou financeiramente o nosso mercado, incapaz de competir com os milionários europeus. Quando vemos os golos de JARDEL parece que algo ainda resiste, mas quando lemos os grandes da Europa que “compram tudo” dizer que os seus golos não têm o mesmo valor do que os marcados em Itália ou Espanha logo voltamos, encolhidos, a mergulhar na nossa dura realidade. Enfim, enquanto se espera a confirmação de DUSCHER e se recorda a classe do paraguaio GAMARRA, incrivelmente vendido, tal como STANIC, estrela no Calcio, resta esperar que pelo menos o sol de Cascais não adormeça o talento de Schmeichel, um morcego gigante que gosta de muita luz e céu limpo.

GRANDES ESTRANGEIROS EM PORTUGALAdemir, brasileiro, e Cubillas, peruano Dois grandes jogadores que marcaram uma época no FC Porto