Grita Liberdade!

07 de Setembro de 2017

Inteligência e técnica. É desta matéria que se faz um bom jogador. E orgulho (chamem-lhe o carácter), também. Depois são os níveis que atinge em cada um destes elementos que o levam ou não a patamares de craque. Leio como se fala que Sérgio Conceição quer tornar Danilo tacticamente diferente esta época, dando-lhe mais liberdade para avançar no terreno e não só a missão de ficar mais atrás garantindo o equilíbrio defensivo. Lendo a frase assim, a ideia que passa é que quer “soltar o jogador”. E é um pouco verdade. Dar-lhe tarefas de construção que o permitem exteriorizar outros níveis (ou expressões) de amplitude táctica no jogo. Tem técnica e carácter para isso. E, tem sobretudo sobre inteligência. O mais importante, porém, está em que, com isso ele fica “mais jogador”. E o onze “mais equipa”. Porque não perde nada do que tinha (sentido posicional, “timing” de pressão alta para recuperação) e acrescenta o que estava camuflado pelos “deveres tácticos” que o condicionavam. Agora, como que ganhou... “direitos tácticos” de liberdade. São estas duas palavras que podem mudar o futebol de Danilo. Em vez de ser só elogiado por cumprir deveres, ser pela forma como expressa direitos.

 

Um jogador que vejo também quase sempre como nessa luta entre o que fazer primeiro (cumprir deveres ou exteriorizar direitos) é Hurtado no V. Guimarães. Dirão que com bola o jogador será sempre “livre para criar”, mas a quantidade de obrigações que antes tem de cumprir condiciona muito depois esse “grito de liberdade” com bola que se sente ele (como muitos outros) quer dar quando a recupera.

Em geral, tem de a procurar para a ter. Recuar para a receber e juntar a equipa no exercício de construção ofensiva a meio-campo quando é necessário dar-se ao jogo para que os dois médios mais recuados (num esquema de 4x2x3x1) tenham linha de passe para lhe meter a bola.

Não é uma tarefa fácil, até porque nem sempre Hurtado tem a percepção certa de onde se deve colocar para a equipa o ver. Saber “mostrar-se ao jogo” é algo que resulta das duas palavras do inicio do texto.

Danilo e Hurtado jogam em espaços distintos do mesmo corredor central. Um mais atrás, outro mais à frente. É curioso notar, porém, como se lhes pede que, sendo nas posições tão distintos, se movam para acabarem depois, no jogo, no mesmo sitio quando a equipa quer... construir melhor o ataque (ou a ligação desde o meio-campo).

Cada treinador tem as suas ideias colectivas de jogo e os jogadores aparecem (ou desaparecem nelas). A máxima (ou mínima) expressão da inteligência depende disso.