GUARDADOR DE SONHOS: “PROSAS EM VERSO”

28 de Julho de 2014

GUARDADOR DE SONHOS:
“PROSA EM VERSO”

Há equipas que chegam aos oitavos-final sentindo que cumprem uma obrigação e há outras que chegam quase como um ato de heroísmo.
O apuramento da Grécia atingiu o máximo de Hitchcock. Um penalty no último minuto e a “pantera-cor-de-rosa” Samaras com a bola à sua frente. Partiu para ela sem mudar o seu passo, quase trote, elegante sem tremer e fez o golo. A equipa é um “programa tático de computador”. A espontaneidade tem lugares marcados para aparecer. E, depois, tem uma característica que a torna traiçoeiramente única: é a equipa que melhor “cheira o erro” do adversário e está sempre preparada para o aproveitar em zonas mais adiantadas. E marca muitos golos assim. Pensem na maioria dos que faz.

A Costa Rica virou o seu grupo de pernas para o ar. O seu futebol tem a marca das boas equipas: nunca despreza o meio-campo. E isto é visível mesmo num onze que tem, à primeira vista, essencialmente bons avançados (Ruiz, Bolaños e a explosão Campbell). A “bússola” da equipa está, porém, no tal local dos pensadores. Tem 22 anos e faz do futebol um “jogo completo” nas suas diversas expressões. É Tejeda, médio-centro posicionalmente de recorte defensivo, mas é muito mais do que isso.

Recordo-o como o capitão da bela seleção de “Los Ticos” no Mundial sub-20 em 2011. Agora, três anos depois, surge igual no estilo mas com maior maturidade. Coloca-se bem, para equilibrar ou, recuperando, reequilibrar a equipa, posse e passe, sobe no terreno e às vezes, até mete o pé demais nas divididas. Tem o dom de tornar simples as jogadas que parecem mais “apertadas” nas zonas de pressão central. Ele foi, tacticamente, o “guardador do sonho” da Costa Rica durante os três “jogos impossíveis” contra Uruguai, Itália e Inglaterra. Ainda joga no Depor Saprissa.

Mas quem progressa cada vez mais firme ao ritmo do bom futebol é a Colômbia. E faz questão de cada golo ser um ensaio de “poema de fútbol”. Nós agradecemos. E quando vemos James a dançar (simular), enganar (fintar) e recitar (rematar num pequeno “chapéu”) sentimos que o futebol sul-americano é mesmo isso: prosa em verso!

“CAVERNA TÁCTICA”

A Itália cai novamente agarrada ao seu dramatismo tático. Parece que tem uma corda que puxa a equipa para trás durante a maior parte do tempo. Não acho que ainda seja uma seleção “defensivista” por definição, mas termina sempre cada torneio com o mesmo debate entre tácticos e criativos.

Desta vez nem teve o seu “trequartista” (estilo Baggio, Totti) de devoção. O termo vem de dividirem o campo em quatro partes e esse elemento viver, exatamente, no terceiro quarto (3/4), o que faz a ligação de “ultimo passe” entre meio-campo ofensivo e ataque. É uma espécie em extinção no “Calcio” do “dolce fare niente”
Contra o Uruguai, pediu durante 90 minutos a Pirlo, Verrati e Marchisio que escondem-se a bola das botas (e raça) dos uruguaios.

Tirou o trinco De Rossi, mas recuou Verrati e Pirlo, o oposto dos jogos anteriores. Não criou um lance de golo. Nunca se libertou táctico-mentalmente do empate lhes garantir o apuramento e isso é o pior para a “cabeça” de um italiano a pensar num jogo de futebol. Seja treinador, adepto ou jogador. A partir dai enfia o seu jogo numa “caverna táctica” e não sai de lá. Até perder.