Há um “tesouro” na Ásia

15 de Julho de 2014

Há um tesouro na Ásia

Japão. A primeira seleção apurada para o Mundial é atual grande embaixador do futebol asiático. O seu estilo de jogo é, no entanto, resultado de um processo de evolução estilística que a levou a aproximar-se mais dos conceitos europeus. Um processo muito distinto do vivido pelo futebol coreano. Embora, na origem, o crescimento moderno do futebol japonês dos 90 tenha a influência brasileira, o progresso competitivo fez-se com os ditames táticos europeus bem expressos hoje na seleção de Zaccheroni. Os grandes clubes japoneses têm esse mesmo estilo de jogo: apoiado, com segurança a sair desde trás (mantendo o corredor central defensivo do meio-campo sempre completo) e bom jogo posicional no ataque, procurando mobilidade a partir das faixas.

Yasuhito Endo o dono do meio-campo. Não é muito rápido, mas nunca perde o sentido posicional (na recuperação ou no apoio á circulação ofensiva). Com 33 anos, joga no Gamba Osaka. Fez toda a carreira no Japão quando tinha tudo para tentar a aventura europeia, sobretudo num futebol mais pausado no passe, como o italiano. A seu lado, Hasebe (Wolfsburgo), disciplinado, é o ideal para formar o duplo-pivô nas costas de um trio de médios com visão atacante.

A mobilidade parte das alas mas com ideias diferentes. Da direita, sai Okazaki (Stuttgart) em diagonais que o fazem aparecer no espaço do ponta-de-lança Maeda (Jubilo Iwata). Da esquerda, flecte Kagawa (Manchester Utd), um 10 de origem que se esconde na faixa para depois surgir a pegar no jogo no centro, numa dinâmica que busca a sua compatibilização tática com o outro organizador de jogo da equipa, Honda (CSKA), mais temporizador com bola (Kagawa é, claramente, mais rápido em rupturas) mas com um pé esquerdo iluminado que mete a bola onde quer.

Desde trás, Uchida e Nagatomo (destro a lateral-esquerdo) jogam sobre carris nas faixas. Yoshida-Konno é uma dupla de centrais que procura jogar simples.
É esta a base do 4x2x3x1 japonês. Vendo o jogo decisivo contra a Austrália, fica a sensação que talvez lhe falte apenas ser um pouco mais rápido e agressivo (nos espaços) a atacar. Muitas vezes, a equipa parece adormecer no jogo. É o lado mais lento do futebol apoiado.

Do Qatar ao Irão

O continente asiático é um imenso mundo de contrastes de estilos de jogo. É impossível definir um estilo de futebol asiático único. O Irão de Queiroz voltou a sonhar com o apuramento após ganhar no Qatar. Foi uma vitória construída a partir da segurança defensiva com que entrou num jogo frente a um onze qatari que tem evoluído muito mas precisa, urgentemente, de bons treinadores europeus para moldar o muito talento que existe, de facto, na sua seleção. Vendo o jogo, é fácil ficar a gostar das subidas do ala ou lateral esquerdo, Fadlalla e, sobretudo, da condução de bola e passe de Khalfan Ibrahim, 25 anos, o nº10 da equipa, excelente visão de jogo, atrás de um avançado-cento móvel, Yousef Ahmad Ali, 24, rápido e a desmarcar-se muito bem. Jogam os três no Al-Sadd, o mais forte equipa do Qatar.

O Irão já não tem estrelas para mandar na equipa como outrora (tempos de Karimi ou Ali Daei). É uma seleção mais dura tacticamente. Sem a técnica nipónica nem a velocidade coreana, procura nunca perder a noção de bloco. Joga num 4x3x3 quase 4x2x3x1 com as linhas muito juntas, numa ideia de jogo gerida pelo trinco-pivô Nekonam (32 anos, 136 vezes internacional, de regresso à Liga iraniana, ao Esteghal, após seis épocas no Osasuna), vértice recuado de um triângulo com Timityan e Jabari, que se solta mais no apoio ao avançado centro Reza Ghoochannejhad. Com 25 anos, Reza cresceu na Holanda (para onde emigrou miúdo). Joga no Standard Liége, muitas vezes como médio ou segundo avançado. É o seu melhor lugar, pois não tem grande capacidade de choque, mas desmarca-se e ataca muito bem a bola nos espaços vazios que surgem. Fez o golo assim.

A Nigéria de Mba

Grande potência do futebol africano, a Nigéria busca renovar a sua seleção. Stefen Keshi, o carismático técnico vindo desse tempo como jogador, está a reconstruir uma equipa com menos talento mas mais colectiva do que as anteriores. Onazi, 20 anos, médio rotativo que defende (fecha espaços e recupera bolas) e ataca (aparece depois a apoiar mais na frente) o novo coração do meio-campo. Quando joga Obi Mikel, este fica mais recuado, e Onazi solta-se um pouco demonstrando a cultura táctica adquirida em Itália, na Lazio (onde entrou após brilhar no Mundial sub-17 em 2009). Ambos gerem um 4x3x3 (onde, por vezes, também entra Ogu da Académica) no qual Sunday Mba emerge como o novo grande criativo. Tem mudança de velocidade e sabe jogar muito bem no espaço dos médios, surgindo muito bem desde trás.

A sua explosão na seleção espelha também o crescimento da Liga nigeriana de onde saíram cinco jogadores dos convocados para defrontar o Quénia (vitória1-0, para o Mundial) e jogar a Taça das Confederações. Mba, 24 anos, joga ainda no Enugu Rangers nigeriano. É incrível como ainda não saltou para a Europa. Outro caso é o defesa-central Godfrey Oboabona, 22, talento escondido do Sunshine Stars.

No ataque, Martins, Utaka e os irmãos Uche são os mais consagrados, mas quem está a ganhar o lugar na frente é Ideye Brown, o nº9 do Dínamo de Kiev, enquanto que nas alas Moses (Chelsea) dá tudo sempre que joga pela seleção, e, no outro flanco, Musa, 20 anos (CSKA) é a melhor aposta de futuro.

De Onazi a Mba, a Nigéria no centro da evolução do melhor futebol da África negra.

‘Cangurus’ na Ásia

São os cangurus no meio do cenário asiático. Vindo da Oceânia, a Austrália vive uma realidade que faz pouco sentido no plano competitivo, pois tem um jogo e uma história sem qualquer ponto de contato com Ásia. É estranho vê-los a jogar nestes habitats tão distantes. No Japão, procurou viver 90 minutos atrás da linha da bola num onze sem ponta-de-lança (joga Chaill, médio, mais adiantado na frente, mas sem vocação para fazer o lugar dentro da dinâmica típica de recuar e entrar de trás como se pede a estes falsos nº9 da moda). O 4x2x3x1 tem, portanto, um “1” fictício na frente (não existe ponta-de-lança). O avançado mais perigoso é Kruse (do Fortuna Dusseldorf) que escondido a extremo, entrar depois em diagonal desde a direita, enquanto que na esquerda Oar (Utrecht) mais rápido, joga sempre mais aberto para dar largura à equipa em posse de bola. No meio, Holmam (Aston vVlla) experiente, 29 anos, é quem tem melhor visão de jogo e passe.

Com defesas muitos experientes (Lucas Neill-Ognenowski) resiste bem tacticamente nos jogos mas nunca parece capaz de os dominar. Será difícil conseguir o apuramento, que vai disputar com Omã e a Jordânia. São as aventuras do intruso onze australiano nos relvados onde mandam os samurais da bola japoneses.