HOLANDA: ESTRATÉGIA OU MODELO?

28 de Julho de 2014

Há casos que, vendo um jogo, dá uma vontade enorme de saber como está feita determinada equipa por dentro. Ou seja, estamos a ver como ela está a jogar mas o pensamento que nos assalta é se aquele estilo de jogo corresponde mesmo ao pensamento e indicações do treinador. Por isso, por vezes ficamos na estratégia (pensada para aquele jogo especifico) ou avançamos mesmo para concluir que é modelo (é consequência dos grandes princípios que a fazem).

A seleção que me está a provocar essa perturbante dúvida é a Holanda. Por história, sempre teve um futebol apoiado, dito “futebol circular”, que privilegiava a construção em passe curto, pressão, defesa subida e posse. Neste Mundial, surge mascarada com outro tipo de futebol.

A questão ultrapassa o mero facto de ter adoptado, preferencialmente, um sistema de defesa a “3” (que, no último jogo, até colocou Kuyt a lateral esquerdo). O que está em questão é que agora baixa linhas, joga com a defesa e meio-campo partindo de posições mais recuadas, em vez de pressionar quando perde a bola, recua e organiza-se, colocando-se num bloco médio-baixo (ou, ás vezes, mesmo assumidamente baixo) e, mais fraturante, quando recupera a bola, em vez da tal saída apoiada, procura logo profundidade (passe longo) para a velocidade dos avançados, Robben, claro, Van Persie, Deepay ou Lens.

No primeiro jogo, frente à Espanha da posse, imaginei que fosse mesmo estratégia e assim enganar a cultura espanhola com profundidade. Nos jogos seguintes, porém, com Austrália e Chile (onde acabou com uma percentagem de bola menor a 35% e ganhou 2-0) o estilo repetiu-se, pelo que esta é mesmo a filosofia de Van Gaal para esta Holanda no Mundial. O que pensava ser estratégia é, na realidade, modelo.

No meio desta forma de jogar, Sneijder, o 10, fica taticamente perdido, porque ou a vê a bola lhe passar muito rapidamente que nem dá tempo para a segurar e “falar com ela” ou, pura e simplesmente, ela passa-lhe por cima como um pássaro exótico.

Vermos os próximos jogos. Para já, esta transformação estilística laranja é o grande “case study” táctico deste Mundial.

“PIOLHO” ENLOUQUECIDO

HOLANDA ESTRATÉGIA OU MODELOO futebol é a aventura inventada pelo ser humano que até agora melhor consegue recriar a vida em apenas 90 minutos (concentrados nesse tempo, esperança, tristeza, alegria, coragem, medo, tudo...). Diz-nos, sem rodeios, como realmente somos e reagimos. A inspiração para este texto é clara: Miguel “piolho” Herrera, o treinador do México.
A forma como ele vive o jogo do banco, grita, gesticula, desgrenha o cabelo, dá indicações, salta ou desespera-se são imagens que mostram o coração do futebol. O seu perfil morfologicamente arredondado (ok, gordito) também ajuda à construção da personagem. A forma como festejou os golos à Croácia, um deles rebolando com um jogador pelo relvado depois de caírem abraçados num salto, ou a forma como pulou para cima do guarda-redes Ochoa noutro festejo, tudo isso faz-nos perceber a essência do futebol.

E, em campo, o seu México é um bela equipa. Que sabe tratar a bola, mantendo o triângulo do meio-campo sempre seguro (a avançar-recuar-avançar) com Herrera a conduzir a equipa por uma corda. No banco, o “piolho” Herrera vive tudo com os olhos a sair fora das órbitas. Amo-te futebol!