Homens que podem reinar

07 de Julho de 2012

O título desta crónica, inspirado, com a devida vénia, num livro de futebol intitulado Hombres que pudieron reinar, do espanhol Rubin Uria, diz muito sobre os chamados «sonhos possíveis». No caso em questão, trata daquela casta de jogadores, a quem, como Gascoigne, Magico Gonzalez, Sócrates ou Juanito, reconhecemos, no seu tempo, talento para serem dos melhores do Mundo mas que, após a glória efémera, acabaram mal os seus dias, quando podiam ter reinado toda a sua geração. Existem, pois, diferentes formas de ganhar o amor e admiração dos milhões de adeptos do futebol.

Cada grande torneio, Mundial ou Europeu, é uma entrada para a eternidade. Pela primeira vez na história, Portugal pode chegar a um deles, e dizer, sem receio, que o melhor jogador do torneio está na sua selecção. Até para analistas externos essa ideia será pacífica. Cristiano Ronaldo está a planar por cima de todo o futebol jogado hoje por seres vivos europeus. Por isso, quando ouço dizer que não é bom meter-lhe a responsabilidade da equipa em cima, que é melhor tirar-lhe essa pressão, que o colectivo é que joga, blá, blá, blá, fico intrigado. Porque, pura e simplesmente, estes jogadores nascem e vivem para estes momentos. É aqui que eles ficam eternos.

Basta pegar nos últimos 25 anos, como fez Maradona em 86 com a Argentina, Matthaus em 90 com a Alemanha, Romário com o Brasil em 94, no mesmo ano de Baggio com a Itália, Zidane com a Franca em 98 e 2000, Ronaldo, o fenómeno, com o Brasil em 2002, quando Ballack também guiou a Alemanha. Todos levaram selecções ao título ou à Final. Nestas alturas, quando vejo colocar reticências ao falar destes craques, lembro-me sempre do que disse Bilardo a Maradona antes do Mundial 86, quando o pelusa andava meio perdido e também ameaçava tornar-se num mero hombre que pudiera reinar.

Só lhe disse: “Diego, apenas te peço uma coisa: dá-me um mês da tua vida! Não mais, só isso!”. Maradona deu e com isso fez a Argentina campeã do Mundo.

Ronaldo não é o futebol português, Há muito que disparou para uma galáxia distante, em que só o seu mundo particular, pop-star, Ferraris, sprints impressionantes, fintas e livres-remate Tomahawk, fazem parte. Agora, durante um mês, abre a porta a mais dez jogadores meramente terrenos para jogarem com ele nesse seu território de mil maravilhas. Esta nossa selecção será, talvez, em termos de craques que fazem a equipa, a menos talentosa da última década. Acabaram Rui Costa, Deco, Figo, Maniche, Ricardo Carvalho, Simão, entre outros, para não recuar mais além de 2004. Por isso, a importância do melhor jogador europeu antes do…Europeu também o ser durante o Europeu! Driblando, jogando, brincando com a pressão. Como fizeram todos aqueles que falei atrás. Porque, sem se sentir a pressão, entrar com ela e depois ter força para a vencer, o que seria verdadeiramente o futebol e estes grandes torneios? Nada.