Ibra e os gauleses

28 de Dezembro de 2012

Fez os golos mais fantásticos de 2012 mas o seu nome não aparece entre os candidatos à Bola de Ouro. A explicação para isto é simples. Ibrahimovic, o goleador bicho exótico do futebol atual, vive num mundo completamente à parte, dentro e fora do campo. Tanto acende as luzes da equipa com um golo assombroso, como logo a seguir as apaga desligando-se do jogo. Esta influência estende-se a todo o onze do PSG. Ancelotti já provou ser um bom treinador-táctico. Este PSG precisa, agora, de um treinador-líder para domar um balneário com egos tão gigantescos.

Vendo a equipa jogar, dá ideia que em tudo que depende da organização defensiva, os defesas fazem o que o treinador quer. No que depende da dinâmica atacante, os avançados fazem aquilo que... eles próprios querem. Atrás, os sectores mantêm-se coesos, com os médios (Matuidi e Chantôme correm a todas as bolas) em apoio. À frente, a bola vai parar aos pés de Menéz, Lavezzi ou Ibrahimovic e a anarquia de movimentos instala-se. É então quase impossível dizer em que sistema jogam. Desde o inicio da época, foi em 4x4x2 losango que a equipa se protegeu melhor desses desequilíbrios táticos. Tanto pode ganhar pela magia dos avançados, como perder pela falta de consistência coletiva.

A forma apoiada, em passe curto, como se quer a sair a jogar desde trás, é muito arriscada e faz a equipa perder a bola muitas vezes em inicio de transição frente a equipas que tenham bons avançados a pressionar esse momento. Verrati tem uma visão de jogo superior, mas é ainda um pivô em formação. Por isso, Matuidi, mais recuperador puro, garante maior solidez defensiva. A anarquia dos avançados que não defendem não permite a Ancelotti ter um nº6 construtivo mas tão leve sem bola.

Ibra e os gaulesesÀ entrada para a segunda volta, PSG, Lyon e Marselha, dividem o primeiro lugar com os mesmos pontos. O Marselha de Eli Baup é a quem tem ideias táticas mais firmes, num 4x2x3x1 sólido, com Valbuena a serpentear entre o centro e a ala, os irmãos Ayew a gerir o ataque e o nº9 Gignac, forte na hora do remate. É um grande ponta-de-lança mas a ideia que sempre me dá vendo-o jogar é que necessita perder uns quilos. Mais leve fugiria melhor às marcações para entrar mais rápido nos espaços vazios. Ou seja, há muito futebol que não lhe passa da cabeça para os pés (ou o corpo todo, afinal).

O Lyon, depois do desvio tático de jogar com três centrais contra o PSG, voltou à sua casa tática de 4x3x3. Os seus melhores momentos da época foram quando surgiu, no meio-campo, a maior revelação da época nos relvados franceses: o médio Grenier, 21 anos.

Tem estilo de 10, mas a forma como recua a defender/recuperar, surgindo depois na segunda linha do meio-campo a passar/rematar, mostra como é um exemplar perfeito do jogador que o futebol moderno consagrou. Aquele que tem de saber muitas coisas diferentes no jogo. Saber, inclusive, a missão de todos os outros jogadores em campo.