ÍNDIA: Rafique e as velhas estrelas, “mil-e-uma noites do futebol”

13 de Janeiro de 2015

ÍNDIA Rafique e as velhas estrelas, “mil-e-uma noites do futebol”

A Índia tem uma população que já passa o 1,2 bilião de pessoas. Nunca, porém, o futebol ousou concorrer com o críquete, desporto que leva à loucura todo o país, mas quando três das maiores empresas do país se uniram para criar uma nova Super-Liga de futebol de repente tudo mudou.

A fórmula da competição, sem subidas nem descidas: oito equipas, cada qual representando uma região do país. At.Kolkata, Chennaiyin, Delhi Dynamos, Goa FC, Kerala Blasters, Mumbay City, NorthEast Utd e Pune City. Criados em sistema de franchisado, cada clube devia inscrever sete estrangeiros. Surgiram várias velhas estrelas atraídas por este novo El-Dorado, mas nenhuma (como Del Piero, Pires, Anelka, Ljungberg, Luis Garcia, Trezeguet, até Capdevila) fizeram grandes jogos (alguns poucos jogaram mesmo) e quem brilhou mais foram jogadores vindos de divisões secundárias britânicas ou espanholas (para além, também, claro, de portugueses já quase esquecidos como Edgar Marcelino e Bruno Ribeiro).

No banco, como treinadores-jogadores surgiram Materazzi (Chennaiyin) e David James (Kerala). Defrontaram-se na meia-final (a duas mãos) e no fim passou o onze de James contra a equipa onde brilhou o brasileiro Elano (fez 8 golos). Do outro lado, porém, impôs-se um avançado canadiano, Iain Hume, 31 anos, há varias épocas na II Divisão inglesa, no Preston.

O outro finalista foi o At. Kolkata, patrocinado pelo At.Madrid, como em Luís Garcia como principal figura, treinado pelo astuto espanhol António Habas que antes andara pela África do Sul e Tailândia.

O jogo foi essencialmente em contenção e contra-ataque. Brilhou o guarda-redes camaronês do Kolkata, Edell (vindo do Hapoel israelita) atrás de uma defesa chefiada pelo espanhol Josemi. Fez uma defesa milagrosa frente ao avançado inglês Chopra, 31 anos, vindo do Blackpool com uma pomposa barriguita. No Kolkata, jogava Rafi solto na frente (Luís Garcia, lesionado, não alinhou) e Borja mandava no meio-campo. Tudo jogadores saídos do fundo do baú dos seus países que ultrapassaram as velhas estrelas.

ÍNDIA Rafique e as velhas estrelas, “mil-e-uma noites do futebol” Disputada após a regular Liga indiana (a I-League) estaa Super-Liga atraiu na primeira semana da competição uma audiência de 170 milhões de pessoas! Face a isto, pode-se logo pensar que a Índia é um gigante adormecido, mas o futebol dum país não se constroem assim só com a força do dinheiro por mais que ele seja. Toda esta encenação quase saída dum conto das mil-e-uma-noites assusta mais do que me deslumbra.

Assim, o mais positivo foi a obrigatoriedade dos clubes alinharem com pelo menos cinco jogadores nacionais no onze inicial. O futebol indiano encontrava aqui uma forma de promover a sua formação. Por isso, a suprema ironia surgiu no minuto 93 do jogo da Final, quando o golo da vitória foi marcado por um herói improvável, o Rafique, anónimo médio indiano que joga no East Bengal, e saíra do banco do Kolkata a 15 minutos do fim.

Antes, fora da Final, ficara o FC Goa, treinado pelo homem que todos querem ver à frente da seleção da Índia para revolucionar o seu futebol, como fez no japão nos anos 90. É Zico. O cenário é, porém, diferente. A globalização do futebol indiano necessita enquadrar os seus jogadores com outros europeus ou sul-americanos, mas de idades mais jovem que lhes sirvam de catalisador técnico e tático do seu futebol.

A possível aventura de Zico terá de encontrar um cruzamento entre a realidade da Liga indiana e as ilusões desta megalómana Super-Liga. O desafio é, porém, fantástico: Zico, Rafique e a construção do admirável novo mundo do futebol na Índia!