Inglaterra: A arte perdida da imortalidade

10 de Janeiro de 2015

Inglaterra A arte perdida da imortalidade

Das últimas vezes que fui a Londres, o taxista (paquistanês, acho) seguiu logo quando lhe disse que queria ir para o Estádio do Arsenal (maior especificação do destino não pensei ser possível) mas quando entrou na cidade (após longo trajeto desde Heathrow) percebi que não sabia o caminho. Ligava o GPS e chegava mesmo a parar para perguntar.

Muito depois, lá chegou e parou à porta. A única diferença é que parou à porta do antigo estádio. O mítico Highury Park. Disse-lhe logo que, “Ok, tudo bem, deixe estar, fico aqui, quanto é?” e saí (o novo Estádio é perto). No fundo, aquele engano tinha sido o único acerto (involuntário) que ele fizera naquelas horas que passei dentro do táxi paquistanês em Londres. Era dia de jogo de Champions, mas a alma do futebol, apesar da opulência fantástica do novo Emirates, estava ali, no velho Estádio, a sua bancada North Bank e o relógio lendário. Era quase como as paredes nos quisessem falar desde o passado, trazendo as mensagens de mitos como Cliff Bastin ou Charlie George.

Mas nem era preciso recuar tanto no tempo para ouvir o bruááá dos heróis que pisaram aquele terreno sagrado. Bastava ir até 2003 e recordar a equipa de Henry e Bergkamp a ganhar a Premier League sem derrotas.
Nunca mais, desde esse dia, o Arsenal voltou a ganhar o campeonato. O homem que está no banco é, porém, o mesmo: Wenger. Está, claro, mais velho mas há coisas que nunca mudam. Assim, continuo sem perceber a sua política de contratações que não resolvem os crónicos problemas defensivos, e continuo a perceber a sua filosofia de como quer pôr a equipa a jogar.

Só que há uma questão incompatível: pôr a equipa a ganhar devia ter o mesmo processo mas no futebol tático atual, como explicam Mourinho e Pellegrini (jogo e contratações que fazem) não é assim, por mais estranho que pareça.

Apesar disso, foi perturbante ver, na última jornada, quando, em Southampton, a perder outra vez, um adepto saltou da bancada e em pleno jogo confrontou, vociferando de braços abertos, Wenger sentado no banco. O técnico, impassível, olhou para ele e só fez o gesto para sair da frente que assim não via o jogo. Incrível.

Era um jovem adepto e o passado não lhe diria nada naquela altura. O que via já não era só a derrota, era que a equipa nem conseguia atacar.

Alexis desterrado na frente e, atrás, o Southampton a aproveitar na direita (com triangulações Bertrand-Tadic) as costas do lateral Debuchy.

No meio, Mané furava entre os centrais duros de rins Mertesacker-Koscielny, enquanto Pellé chocava com eles e abria espaços. Para tornar tudo mais caótico, também Szczesny falhou na baliza. O futebol de Highbury é coisa do passado. Sós ante o perigo, os atuais jogadores do Arsenal deixaram de se escrever com maiúsculas.

CHELSEA-CITY: FÀBREGAS, MATIC... LAMPARD!

Inglaterra A arte perdida da imortalidade Prova de sinal do tempo, é ver como um jogador que aprendeu a jogar com Wenger, é hoje arquiteto no Chelsea de Mourinho. Fàbregas adicionou outro estilo ao que já tinha. A pivot ou quase 10, o seu toque, passe, tornou-se mais agressivo. A derrota no Tottenham teve sobretudo a ver com o menor rendimento físico-tático de Matic, baixando a batida cardíaca do meio-campo até cair.

O Manchester City voltou a transmitir insegurança. Não sabe controlar jogos em vantagem e quando baixa o ritmo para atacar fica depende de rasgos individuais (neste caso, uma bomba de Touré). Contra o Sunderland, a ironia de ser um mito do Chelsea a salvá-lo. Lampard.

Entrou para evitar que a equipa se partisse (com 2-1, saindo o ponta-de-lança Jovetic) e acabou a marcar o golo da vitória (3-2) de cabeça, na área como fosse um 9 puro. Há tática que explique isto? Ainda bem que não.

As duas equipas estão agora iguais (jogos, pontos e golos). Mais do que inimigos, são irmãos.