Inglaterra, Espanha e Itália

09 de Setembro de 2004

INGLATERRA: Os velhos dilemas do 4x4x2 de Eriksson

O 4x4x2 em linha da Inglaterra continua a evidenciar os mesmos dilemas de sempre. A questão-chave para Eriksson, após o fracasso da tentativa de introduzir o losango no sistema inglês, reside na disposição das individualidades do meio campo, sector no qual a principal dilema mora no flanco esquerdo, para o qual não existe um candidato natural, consequência da falta de bons esquerdinos no actual futebol inglês, lacuna que tem levado surgir, sobre esse espaço, várias adaptações, todas sem grande sucesso, entre as quais se destacam Gerrard, tipicamente um jogador de eixo central, estilo trinco «box to box», ou a de fazer descair Scholes, cujo lugar de eleição é atrás dos avançados como médio ofensivo. Com estas soluções, de Gerard ou Scholes sobre a esquerda, o onze não ganha profundidade de jogo a atacar, pois ambos têm tendência a procurar as suas zonas naturais, o centro, e, ao mesmo tempo, perde consistência a defender.

Inglaterra, Espanha e ItáliaContra a Áustria e a Polónia, depois de Scholes anunciar a retirada da selecção, Eiksson puxou, para médio ala, o lateral esquerdo do Chelsea, Bridge, á frente de Cole, o defesa canhoto de raiz. Tacticamente muito rigoroso, Bridge, embora sem rotina do lugar, foi descobrindo, progressivamente, com o decorrer do jogo, o timing certo para dar profundidade a atacar e, quando o onze perdia a posse da bola, nos periodos de maior pressão austríaca, encaixar-se posicionalmente a defender, missão na qual combinou, muito bem, com Cole. Uma adaptação que prova a enorme qualidade e inteligência futebolística de Bridge, um dos jogadores ingleses com maior cultura táctica da actualidade, mas que, com Beckham sobre a direita, e, jogando com uma dupla de volantes centrais de contenção (Gerard mais defensivo e Lampard com liberdade para subir no apoio ao ataque e organizar a circulação de bola), acaba por tornar ainda mais enigmático, por tratar-se de um defesa adaptado, o facto da Inglaterra não conseguir encontrar um médio esquerdino com valor para a selecção.

O outro problema que atormenta a actual selecção inglesa reside, depois da retirada de Seaman, no posto de guarda redes, angústia que cresce perante os sucessivos falhas do titular David James, muito inseguro, alternado grandes defesas com golos infantis, como o que sofreu na Áustria oferecendo o golo do empate (2-2). Não existem, no entanto, muitas alternativas. Das 20 equipas da Premier League, 14 apresentam guarda redes estrangeiros, pelo que, para além do Manchester City de James, apenas outras cinco têm a titular um guarda redes inglês. Destes, como possíveis nº1 da selecção, apenas Paul Robinson, 24 anos, do Tottenham, que esteve no banco em Viena e foi titular Varsóvia, parece um alternativa credível, sobretudo porque Nigel Martin, do Everton (com 23 internacionalizações), já tem 38 anos, enquanto Maik Taylor (Birmingham), Hoult (WBA) e Green (Norwich) nunca foram internacionais. A exibição de Robinson, na Polónia, sempre sereno e seguro, provando as boas exibições realizadas no campeonato e sem hipóteses no golo sofrido (1-2), tranquilizou, no entanto, o status do futebol inglês. Embora ainda não seja uma referência das balizas, a Inglaterra encontrou um guarda redes com categoria suficiente para entregar a titularidade da sua selecção.

A ITÁLIA DE LIPPI: Entre o 4x4x2 e o 4x3x2x1

Inglaterra, Espanha e Itália1Depois da fraca exibição e da derrota sofrida na Islândia, Marcelo Lippi abandonou o 4x3x1x2 e apostou, frente á Noruega, num 4x4x2 que, no campo, na dinâmica do jogo táctico, se aproximava mais de um 4x4x1x1 (visto o segundo avançado, Miccoli jogar quase sempre atrás de Gilardino, ponta de lança em cunha) que, com o onze de posse da bola, no lançamento da fase atacante, como que regressava ao 4x2x3x1, com a subida dos alas Fiore e Zambrota, ficando de perfil com Miccoli, no centro, o segundo avançado que, entrando de trás, terminava a evolução do sistema que, no apoio a Gilardino, resgatava, por fim, o design inicial de 4x4x2, sistema que só seria utilizado, de forma clara, nos últimos 15 minutos, quando com o empate a manter-se, Lippi substituiu Miccoli por Toni, nº9 clássico, que foi jogar lado a lado, na área, com Corradi que, por sua vez, substituíra Gilardino aos 60 minutos.

No segundo jogo, porém, na Moldávia, Lippi apostou num mais conservador 4x3x2x1, com Pirlo na posição de regista recuado como faz no Milan de Ancelotti, ao lado de Gattuso e Ambrosini, num sistema onde a principal novidade residiu no médio ala direito Diana, da Samdoria, com tarefas ofensivas, responsável por dar profundidade de jogo ao onze por esse flanco, apoiando, depois, na frente, o ponta de lança Gilardino, missão desempenhada, no flanco oposto, o esquerdo, pelo mágico Del Piero que realizou uma excelente exibição, autor do golo da vitória (0-1).

A ESPANHA DE ARAGONÉS: Uma questão de personalidade futebolística.

Eleito seleccionador com a imagem de ser um treinador frontal e profundo conhecedor das entranhas do futebol espanhol, Luís Aragonês, o carismático Sábio de Hortaleza, iniciou o seu ciclo lançando um polémico debate sobre a titularidade de Raúl, antes tida para todos como um dogma incontestável mesmo perante a crise de forma do nº7 madrileno. Seguindo a corrente que argumentava com o seu mau momento, Aragonés decidiu, no particular frente á Escócia, sentar Raul no banco, apostando em Tamudo e Fernando Torres como a dupla atacante de um 4x4x2 que, em relação ao sistema ao 4x2x3x1 de Saéz, tinha um desing mais claro em relação aos dois avançados, algo que antes só sucedia com as entradas de vindo de trás de Raul. A fraca exibição do onze, que só no segundo tempo voltaria a sorrir, com a entrada de Raúl, autor do golo do empate (1-1), voltariam, no entanto, a colocar o capitão merengue como o grande guia espiritual da selecção espanhola. O 4x2x3x1 apresentado na Bósnia surgiu, no entanto, com maior profundidade do que o da era de Inaki Saéz, finalmente com um lateral esquerdo de raíz, Romero, terminando-se com as adaptações, Puyol-Marchena centrais, e, depois, procurando desenhar o rombo na fase ofensiva, fruto das subidas de Raúl, mas careceu de um nº9 nato desde o inicio, apostando Aragonés por colocar Reys, extremo esquerdo a ponta de lança, na tentativa de explorar o seu excelente momento de forma e faro de golo demonstrado no Arsenal.

Inglaterra, Espanha e Itália2O sistema, porém, nunca funcionou e a Espanha passou todo o primeiro tempo sem fazer um remate á baliza e pressionado pela Bósnia, uma selecção muito lutadora, com Bolic e Barbarez no leme das operações, mas muito rudimentar no plano da abordagem técnico-táctica do jogo. Velho caminhante das canchas espanholas, Aragonés identificou com clareza quais os principais problemas no actual modelo de jogo espanhol: falta de mobilidade sem bola e pouca astúcia nas trocas de lugar e no jogo de compensações defesa-ataque. Dois aspectos que resultam, sobretudo, do doble-pivot Baraja-Xabi Alonso ou Albelda, jogar quase sempre demasiado recuado ou em paralelo, sem capacidade para qualquer um deles se assumir como organizasor de jogo no transporte da bola para o ataque. Se por um lado Baraja é mais resistente para subir e descer, por outtro, Xavi Alonso possui maior visão de jogo e precisão de passe, só que é mais lento e não é o tipo de jogador de largas correrias com a bola. Desta forma, os adversários encontram sempre liberta a zona central do relvado. Se tiverem um bom médio centro (posto que no futebol espanhol só Valerón sabe desempenhar com categoria) controla o jogo, o que muitas vezes, só não sucede, pelo grande capacidade lutadora de Raúl, recuando no terreno para pegar na bola e fazer o tal enganche entre sectores que o doble-pivot, embora defensivamente seguro, nunca garante.

Esta lacuna seria resolvida, na Bósnia, a partir do minuto 57, com a troca de Baraja por Valeron, que ficou a jogar um pouco mais recuado do que é habitual, nas costas de Raúl, mas sempre pelo menos dois-três passos á frente de Albelda, iniciando a distribuição de jogo na saída para o contra-ataque, numa missão mais defensiva do que lhe é comum. Desenhava-se, assim, uma espécie de 4x1x1x3x1, que se transformava, com as subidas de Valerón e Raúl, num 4x1x3x2 que marcou, claramente, a ruptura com o ciclo de Saez. Nesta altura, Rays já jogava no seu lugar natural, como extremo-esquerdo, enquanto Morientes ocupava o posto de ponta de lança, num sistema com dois extremos puros abertos nos flancos, onde também se destaca a ideia de colocar o outro esquerdino, Vicente, na faixa direita, corredor onde produziu excelentes jogadas de penetração á linha e, fintando para dentro, procurando o seu pé canhoto, fazendo perigosas diagonais com bola, como a que terminou com o remate para o golo espanhol. Um erro infantil de Xabi Alonso, num mau atraso que colocou a bola nós pés de Bolic isolado frente a Casillas daria o empate á Bósnia (1-1) e relançaria a crise existencial da falta de personalidade do futebol espanhol.

Inglaterra, Espanha e Itália4

ITÁLIA. Sistema: 4x4x2, variante 4x4x1x1 (Noruega, casa, vitória, 2-1

Inglaterra, Espanha e Itália5

ESPANHA. Sistema: 4x2x3x1, variante 4x1x1x3x1, de posse da bola, 4x1x3x2, a atacar (Bósnia, fora, utilizado a partir do minuto 57, empate, 1-1)