INTERNACIONAL CAMPEÃO: Brasileiros? Não, «gaúchos»!

21 de Dezembro de 2006

Procurar pontos de contacto entre o futebol gaúcho, ou de outros Estados do Sul, como Paraná, com, por exemplo, o carioca, do Rio, habitar dos grandes artistas, mas em geral fisicamente leves e tacticamente relaxados, é pura perda de tempo. Habituado ao frio, o jogador gaúcho desenvolve, desde a formação, uma musculatura única no contexto brasileiro. Ao mesmo tempo, adiciona-lhe o virtuosismo técnico inato. Se, depois, emoldurarmos ambos os factores na crescente cultura táctica, temos um jogador mais completo e à imagem do futebol europeu, ritmo e espaço. Para não ir mais longe pensem em Ronaldinho ou Anderson. Até nem são muito altos, mas a sua dimensão muscular gaúcha é incomparável à que se pode encontrar num carioca, estilo Sávio ou Zico. Conta-se então, quando chegou a Itália, antes do primeiro treino, pediu a bola com todos colegas em seu redor, e atravessou o campo de uma baliza à outra dando pequenos toques, dois pés, calcanhar, peito, ombro, sem nunca a deixar cair.

Quando terminou, virou-se para o grupo e disse-lhes” ok, agora que já vos mostrei que sei o que é jogar à brasileira, acabou o show e vamos é jogar o futebol de verdade, aquele que ganha títulos!”. Falcão era, portanto, fabuloso com a bola sabia, mas sabia de tal forma sempre onde estar no campo, que Liedholm, seu treinador em Itália, dizia que ele seria sempre o melhor em campo mesmo que não tocasse na bola durante os noventa minutos!

INTERNACIONAL CAMPEÃO Brasileiros Não, «gaúchos»Depois do ultimo Brasileirão, colocando três equipas do Sul nos primeiros cinco lugares, ter ajudado a cimentar a tese da actual superioridade competitiva do europeizado futebol gaúcho, a vitória, e sobretudo a forma de jogar do Internacional de Porto Alegre no Mundial de Clubes voltou a provar como estamos operante outro mundo canarinho. Por isso, a ironia da questão: Brasileiros? Não, gaúchos!

Montado por Abel Braga, com mestrado táctico tirado, nos anos 90, em pequenas equipas portuguesas, o Inter, sem nenhum jogador internacional, amordaçou a magia do Barcelona e ganhou-lhe sempre os tempos e os espaços em campo para controlar o jogo, mesmo estando quase sempre com 8/9 jogadores atrás da linha da bola. Fez um jogo misto de marcação à zona (no meio-campo) e ao homem (Ceará, lateral-direito sufocou Ronaldinho), tem uma dupla de centrais de sobrolho carregado implacável no corte e na antecipação (Índio-Eller), Edinho, trinco, marcou à frente da defesa e até Fernandão, ponta-de-lança, jogou mais recuado, numa falsa posição 10, com Alex solto, deixando abertos na frente Yarley e o jovem Pato. Acelerou e reduziu o ritmo. Fechou a sua área, esperou pelo erro alheio e soltou a seta do contra-ataque. Apenas dois jogadores do onze são oriundos do Rio. A alma gaúcha é, pois, a essência do clube que também dera ao mundo Falcão. Tal como Daniel Carvalho, Lúcio, Rochemback ou Sóbis.

Todos eles, como os heróis colorados do presente, sabem o significado da palavra táctica e, por mais que os românticos falem da arte, sem aquela noção colectiva, nenhuma equipa tem hoje bases competitivas sólidas. Para o bem e para o mal.