Invasores de espaços (a “arte do engano”)

18 de Abril de 2017

1.

Os jogadores atuais são mais facilmente respeitados pelo esforço do que pelo talento (porque o primeiro aparece sempre no jogo e o segundo, naturalmente, nunca é de expressão constante nas... jogadas), mas há exemplares que, de repente, aparecem e nos fazem lembrar que tudo o que é diferenciador no relvado tem a arte do engano. Nessa altura, mais do que disciplina, emerge a rebeldia (com causa táctico-técnica).

Dybala é hoje o exemplar que mais provoca essa sensação. Engana toda a gente no estádio. Adversários, os colegas que nunca sabem o que vai fazer e o vendedor de Coca-Cola. As posições modernas colocaram-lhe o rótulo de segundo-avançado. Pode ser. Mas não diz quase nada sobre o seu jogo. O “jogo de enganos” que, no fundo, tem a ver com a incerteza de saber onde vai aparecer nesse espaço entrelinhas (entre defesas e médios defensivos adversários) ou à frente dele.

Mais do que um jogador em pleno movimento, é um “invasor de espaços”. Tem um radar de detecção do espaço vazio de perigo e surge nele sem que o adversário o consiga prever, porque antes recebera um sinal (movimento ou como fazendo-se desentendido) que o iludira.

Nesse momento prévio, é quase como se Dybala fosse um “jogador invisível”. Quando se torna.. visível, já está no local certo a finalizar, com uma destreza veloz de execução técnica divinal.

Mascherano quando, numa jogada dessas, o detectou, apenas teve, ao tentar travá-lo, o privilégio de ver mais de perto do que qualquer outro espectador no Estádio, a forma como enfiou um remate em arco na bola. O Barcelona caía ás chuteiras de um pibe argentino que joga com “instinto pensado”, inventa espaços e ganha com isso uma vantagem na relva impossível de parar (ou prever).

2.

Ver um jogo em que as estrelas em que todos se fixam são dois miúdos que ainda não fizeram 20 anos diz bem de como a tal “incubadora acelerada de craques” funciona no futebol atual. Penso no duelo entre Dembelé (franco-maliano de 19 anos) e Mbapppé (franco-camaronês de 18). Dois avançados de intimidade com a bola com raízes miscigenadas entre África e França, e podem agora vestir as cores da “nova Velha Gália”.

À distância no relvado, aproximaram o jogo através do talento em estado puro. Dembelé gosta mais de ter a bola para fintar, correr, fintar outra vez e passar. Mbappé gosta de ter a bola mais com um sentido concreto para correr para a baliza imediatamente com a companhia perfeita que, no fim, sai disparada (a bola, claro).

Ganhou o “craque casca de ovo na cabeça” do Mónaco. Aquele jogo, aqueles latifúndios de relva estavam feitos para ele.

Falta agora a segunda versão deste duelo caído do berço para os campos mais elitistas da Europa. Peçam-lhes a perfeição. Eles não se importam.

3.

Foi uma semana difícil. São (e continuarão a ser) tempos difíceis. O ataque ao autocarro do Borússia Dortmund, as explosões que ameaçaram toda uma equipa de futebol e levaram Bartra para o hospital, atingiram-nos a todos. À família do futebol que pensava poder viver imune a este mundo como se tivesse criado um casulo de cristal onde todos vivemos. Não é assim. Todos fazemos parte deste mundo.

Compreendo os desabafos de Tuchel sobre não ter querido jogar no dia seguinte, mas naquela altura, à distância, senti que se havia altura em que o futebol não podia parar era aquela. Quando os “Estádios da vida” se calarem perante o terror, o futebol, a vida afinal, deixará de ter sentido.

O destinatário das emoções daquele perturbante Dortmund-Mónaco eram as emoções das pessoas, mesmo daquelas que nem vêem ou gostam de futebol. O estádio tem de ser mais do que o “esqueleto de multidões” como dizia Benedetti. E esta semana aprendemos na pele, da forma mais cruel, como desprezando o que nos ameaça, conquistamos o que nos apaixona.