ITÁLIA : O PAÍS DA TÁCTICA

25 de Abril de 2000

Profundamente dramático, o Calcio italiano só poderá ser bem entendido se observado ao som da “Cavalleria Rusticana”. No Velho Continente, a Itália, truculenta e latina, foi, muitas vezes, o “berço táctico” de novas abordagens estratégicas ao jogo. Na “bota da Europa”, o estilo táctico, conheceu, através dos anos, várias tendências. Sempre tacticamente inteligente e tecnicamente evoluída, mas nunca atraente, capaz de conquistar as simpatias da imprensa e do adepto imparcial que sempre viu no Cattenacio e em toda a sua sagaz eficácia revelada, uma séria ameaça á génese ofensiva do futebol. Assim, o rótulo de defensivo colou-se até hoje ao futebol italiano. Traiçoeiro, parece mais ambicioso quando não tem a bola do que quando a recupera. Milão, inicio dos anos 60. Após conhecer 12 treinadores em 5 anos, o Inter começava a acordar para o seu dourado ciclo de domínio no Calcio. Vivia-se o reinado daquele que seria o grande presidente da sua história, Angelo Moratti, empresário do ramo petrolífero, cujo legado permanece hoje com o seu filho Massimo, actual presidente “neroazzuro”. Com ele chegou a Itália, com um contrato fabuloso para a época, vindo de Barcelona, o treinador mais amado e odiado da história do futebol europeu.

ITÁLIA O PAÍS DA TÁCTICANenhum outro suscitou tanta polémica: Helénio Herrera. Por essa altura, o passado já tinha desenhado a imagem e os valores que, ao longo dos anos, se colaram aos dois grandes clubes da elegante Milão, mas a alvorada da década acentuaria ainda mais essa dicotomia social e financeira. O Milan, tal como, noutras regiões, o Torino e a Roma, era a equipa “vermelha” do proletariado urbano. O Inter, do milionário Moratti, era, tal como a Juventus de Agnelli e a Lazio aristocrática, a equipa do rico patronato dominante. Pouco importa que o Milan progressista de meados do século, seja hoje propriedade de Berlusconi, capitalista de final de século, pois, na memória das gerações que formam outras gerações, quando se fala de futebol todos os valores são absolutos.

O “CALCIATORE” ITALIANO E O SISTEMA DE MARCAÇÃO

Em 1960, o grande impulso para a contratação de Herrera fora, na época anterior, um jogo da velha Taça das Feiras, quando com um venenoso esquema, o chamado “futebol de contenção”, o seu Barcelona derrotou o Inter, administrando o resultados das duas mãos, 4-0 e 2-4. Foi ele que ficou com a suprema imagem de mentor do “Cattenacio”, que depois do pioneiro ensaio no “WM” de Chapman, no Arsenal dos anos 50, inventou, na sua plenitude táctica, o posto de “líbero”. Mas no passado do Calcio, já existira outro homem, nos anos 50 e também no Inter, que utilizara um semelhante sistema defensivo, que tem como sua base a introdução de um “libero”, que em italiano significa livre. Foi Alfredo Foni, vencedor, com essa ideologia táctica, inspirada no velho “ferrolho” suíço, de dois scudettos consecutivos (52 e 53). Nesse tempo, o libero era Blason. Com Herrera, o libero era Pichi, mas sempre regente de uma estratégias que se baseava num frio esquema defensivo, para depois usar o contra ataque como mortífera arma secreta interpretada pela flecha brasileira Jair. Um sistema mordaz esquematizado em 1-3-3-3, 1-3-4-2 ou 1-4-3-2. Depois do ferrolho helvético dos anos 40, obra do austrieco Karl Rappan, surgia uma nova proposta táctica baseada num sistema defensivo. Só que ao invés do “ferrolho”, utilizador de dois trincos, reconhecimento de que o adversário era superior, o “Cattenacio” era uma arma para vencer.

ITÁLIA O PAÍS DA TÁCTICANas paredes do vestiário o “trota mundos” Herrera tinha escrito: classe + preparação atlética + inteligência = Scudetto. Uma fórmula vencedora materializada no campo por uma promessa que fora buscar ás camadas jovens, Sandro Mazzola, filho de Valentino do Torino dos anos 40, Suarez, o nº10 espanhol, os médios Corso e Bedin, e Jair, que descobrira no Chile, vendo um treino do selecção canarinha: “O papel dos médios era sobretudo o de anular os movimentos do meio campo contrário, povoando o miolo do terreno, para onde, silenciosamente, se incrustava um dos extremos, mas sempre preparado para, quando os adversários adormeciam, avançar em grande velocidade no contra ataque. Esse homem era Jair”, recorda Suarez. O coração do onze estava, no entanto, na defesa alicerçada em torno de Picchi, com Burgnich e Facchetti como laterais ofensivos, Guarneri, central de marcação, e Tagnin, “trinco”. É curioso notar que Herrera, no inicio, começou por tentar impor um jogo ofensivo, mas as primeiras derrotas logo o levaram a recuar e a converter-se á escola transalpina, adoptando o venenoso 5-3-2 com “líbero” á italiana. Conta Suarez que “Quando cheguei a Itália estranhei que me colocassem a jogar tão recuado. Meses depois, já entendia a razão.

O futebol italiano é bom tecnicamente, é hábil, rápido e sabe improvisar, mas não gosta de treinar muito, como se faz em Espanha, para nem falar nos alemães. O carácter anárquico dos italianos sempre se reflectiu no seu jogo e, sobretudo, no treino. Procuravam o maior rendimento com o menor esforço. Sábios, descobriram que para isso o jogo defensivo era o ideal, com o que salvaram muitos resultados e como era realizado por jogadores vivos e dotados logo se converteu no sistema que melhor se adaptava ao tipo de treino e ao estilo dos seus futebolistas”. A superior visão de Suarez sobre as raízes do “calciatore” italianas, embora correctas ao tempo, não se vislumbram, porém, no presente, onde o dolce fare niente insinuado, atropelado por centenas de jogos por época, deixou á muito de ter lugar. Mas na génese descrita pelo espanhol estará a ratio que, para muitos, melhor permitirá analisar evolução táctica do futebol “azzurro”.

O sistema de marcação não é, em si mesmo, uma táctica de jogo. É, antes, um seu condimento posicional, regente da postura defensiva. Historicamente, o conflito situa-se entre a marcação homem-a-homem e a marcação á “zona”. Fiel aos seus genes defensivos, o futebol italiano cresceu tacticamente sob os rígidos ditames da marcação individual. Uma atitude que quase levava o defesa a seguir o avançado até ao chuveiro. Os devotos da “zona” nunca aceitaram, porém, este frio destino táctico. Por definição, sendo o futebol um jogo de equipa, a marcação individual é, em última análise, a negação do seu espirito colectivo. Estruturalmente solidário, o jogo de equipa só seria fiel a essa ideologia utilizando a marcação á “zona”, onde todos tem um espaço limitado de marcação, condicionado não pelo jogador da equipa adversária, mas pelo posto que ocupam no terreno e sua respectiva delimitação. Depois da era gloriosa que levou entre 1962 e 1966 á conquista de 3 Scudettos e 2 Taça dos Campeões, o Inter regressou á terra, procurando estar sempre na linha da frente da inovação táctica.

Assim surgiu o paraguaio Heriberto Herrera, dito HH2, que pela primeira vez procurou, de forma ténue, introduzir a “zona” no futebol italiano, através de um sistema de jogo que se baseava na “pressão em todo o terreno”, alicerçada num constante movimento dos onze jogadores. Por isso ficou conhecido como o “movimento”. Não teria porém o mesmo êxito do seu antecessor. Incapaz de dominar um balneário de vedetas, acabou demitido ia a época 70/71 a meio. Com Invernizzi, seu sucessor, regressaram os ditames do homem-a-homem, e o Inter acabaria por vencer o Scudetto, com uma equipa onde ainda estavam mitos dos anos 60, reforçados pelo goleador Boninsegna e o médio Bertini. Este triunfo do passado táctico mais reforçou a consciência defensiva do Calcio e os partidários da “zona” passaram a ser vistos quase como tacticamente subversivos.

O “PATRÃO” NEREO ROCCO E A CRISE DO “CATTENACIO”

ITÁLIA O PAÍS DA TÁCTICAOs anos 70 marcam o auge e o nascer de duas sábias “raposas do banco”: Nero Rocco e Giovanni Trapattoni. O mestre e o discípulo. Ponto de encontro: o AC Milan. Chegado a Milão em 62, desde logo Rocco impôs o seu estilo patrão. Um homem grande, física e profissionalmente, que lança o golden boy Rivera, com 17 anos. Não era, porém, o mero homem simples da província, que chegava puro, vindo da tranquilidade de Padova, ao grande Calcio. Cedo se viu que trazia consigo, tal com antes possuía Viani, a cultura multieuropeia da Hungria e da Austria, aquela que no pós-guera produziu, junto com os ingleses, o melhor que se viu no futebol mundial. Dez anos depois, em 1972, Rocco, dogmático defensivista, é o patriarca táctico do Calcio. No mesmo ano, Trapattoni, joga, após 12 épocas no AC Milan, a sua última partida como jogador, no Varese.

Nesse tempo, o debate táctico-filosófico dividia-se, claramente, entre duas facções: De um lado, os tradicionais Nero Rocco e Gipo Viani, bem apoiados pelo ultra-defensivo Annibale Frosi, maquiavélico técnico do Modena, que preconizava a teoria de que o 0-0 seria sempre o corolário de um jogo perfeito e sem erros. Do outro o novo profeta do futebol ofensivo, sem excessivas amarras defensivas, Fulvio Bernardini, famoso como jogador nos longínquos anos 30, e que como técnico vencera sensacionalmente o Scudetto, á frente da Fiorentina e do Bolonha. Uma proeza que lhe valeu o posto de seleccionador nacional, numa altura em que a “squadra azzurra” lamentava o fracasso do Mundial-74, quando o conservador treinador Ferrucio Valcareggi, feroz discípulo de Helénio Herrera, alinhou uma equipa de veteranos, baseada em seis figuras já na casa dos 30 anos (Albertosi, Burgnich, Facchetti, Rivera, Riva e Mazzola), intérpretes do mais rudimentar Cattenacio, “stopper”, “libero” e marcação “ao homem”. Perante a fúria dos “tiffosi”, e numa altura em que explodia o “futebol total” da Holanda, idolatrado em todo o mundo, os partidários da “zona” e do jogo aberto, sem o “líbero” estático, tinham a grande oportunidade de impor as suas ideias. A vitória da Lazio de Maestrelli, aberto ás novas influências, já anunciava novos tempos, mas o primeiro homem a introduzir a “zona” genuína no Calcio foi, nos anos 70, o treinador brasileiro Amaral.

A “ZONA MISTA” DE BEARZOT E A LENDA DO HOMEM-RATOEIRA

ITÁLIA O PAÍS DA TÁCTICACom Enzo Bearzot, antigo adjunto de Bernardinni, em cena a partir de 1978, nasce a “zona mista”. Não uma clara ruptura com o jogo “á italiana”, mas o nascer de um novo conceito táctico que devolveria a glória á “squadra azzurra”. A defesa continuava a adoptar a marcação individual. Ficou famosa, em 82, a impiedosa marcação de Gentile a Maradona. O sistema a “zona” só era, porém, utilizado mo meio campo. Desta forma, Bearzot procurava com a maior movimentação dos médios, suprimir a inferioridade numérica que a defesa com um “líbero”, Scirea, impunha ao meio campo que continuava a beneficiar do avanço dos laterais, quando de posse da bola. Um sistema seguido depois por Vicini, seu sucessor a partir de 1987, mas que sem os rasgos de Conti e os golos de Rossi, não logrou as mesmas conquistas. Quando tudo isto sucede Trapattoni, o homem-ratoeira (Trap, em italiano, significa ratoeira) já é um treinador credenciado.

Astuto, passou ao lado da polémica e soube ir retirando o melhor de cada escola, embora mantivesse sempre colado a si o rótulo de defensivista, herdado do seu professor, Rocco, que em 72, após o fim da carreira de jogador do Trap, convidou-o a integrar os quadros técnicos do AC Milan, como responsável pelas camadas jovens. Ao lado, de Rocco e do então adjunto César Maldini começa a perceber que é no tormento do banco que se sente ás mil maravilhas. Em 75/76, quando Rivera pendurada as chuteiras e se torna o homem forte do futebol “rossonero”, logo o elege para treinador principal, numa altura em que Rocco passa a Conselheiro técnico e Maldini, vitima dos maus resultados, é despedido. Terminou em 3º lugar, mas o perfume do seu futebol e o carisma que então já transmitia no seu discurso, levaram-no a receber um tentador convite de Agnelli, para treinar a Juventus. Entre 1976 e 1986, torna a Juventus numa máquina de jogar futebol. Aos que teimam em recordar a sua imagem calculista, responde que a sua Juve é a equipa que tem mais golos apontados. Transformou Tardelli, um mediano lateral esquerdo, num médio de classe mundial e no primeiro ano lança um ragazzo logo depois grande estrela, Cabrini. No Inter, em 89, apesar da memória reter as suas discussões, em pleno jogo, com Matthaus, que queria ter um papel mais ofensivo –“Calma, Lottar, deixa-te estar atrás que é mais seguro”, gritava-lhe o Trap- fica o registo da conquista do Scudetto com o record de pontos, 58, e o maior número de vitórias de sempre, 26 em 34 jogos.

Hoje aos 61 anos, é o treinador com mais triunfos em jogos do Scudetto, depois de ter superado Rocco ia a época 97/98 a meio, quando atingiu o número de 330 vitórias. O seu estilo empolga multidões e fez escola, mas apesar das raízes tácticas tradicionais, soube acompanhar sempre a evolução do jogo. Em 1985, confessa ter sofrido a maior desilusão da sua carreira, quando perdeu a Final da Taça dos Campeões, frente ao Hamburgo, mas aprendeu uma lição táctica que fez mudar a sua concepção de jogo e condicionou as suas análises futuras: «Nesse jogo, em Atenas, aprendi o que era a “zona”, quando Hernest Happel, um dos seus maiores profetas, soltou, durante 90 minutos, Rolf sobre o espaço de Platini, anulou a nossa estrela e assim ganhou o jogo». A “velha coruja” austrieca batera o “homem ratoeira” italiano.

DÉCADA DE 80: LIEDHOLM E SACHHI: OS ANOS DA “ZONA”

Depois de novas tentativas goradas, como as de Marchioro no Milan e de Vinicio no Nápoles, os anos 80 consagrariam, finalmente, o sistema defensivo de marcação á “zona”. O primeiro grande profeta vencedor seria o sueco Nils Ledholm, conquistador do Scudetto em 83, com a Roma de Conti e Falcão, o poético médio brasileiro que muitos diziam seria sempre o melhor em campo, mesmo que, alguma vez, lhe fosse impedido tocar na bola. A consagração internacional da “zona” surgia, no entanto, com o grande Milan de Arrigo Sachi dos anos 80. Em 1987, descontente com o insucesso, Berlusconi decide então apostar num jovem desconhecido técnico de Parma que nunca treinara na Série ª Era o sonho de repetir a lenda de Rocco mas agora, em vez de um defensivista, com um profeta do ataque, capaz de refazer o projecto do incompreendido Marchioro. Após um inicio difícil, Sacchi torna-se uma referência táctica.

Praticando um chamado futebol de autor. Finalmene, desparece o “líbero” á italiana e passa a jogar num clássico 4-3-3, com uma linha de quatro defesas, onde Baresi era o líder sempre de perfil com os outros elementos do sector, responsável pela eficaz utilização da táctica de fora-de-jogo. Ao grito de comando do mítico capitão, todos avançavam no terreno e colocavam deslocados os adversários, hipnotizados pelo cirúrgico passo em frente do nº6 “rossonero”. Um trinco espécie de farol da equipa: Anceloti, hoje seu discípulo no Parma, e mais dois médios recuperadores de bola: Evani e Colombo. É a exaltação da chamada “zona pressionante” a todo o campo. No ataque, dois avançados abertos nas alas, Gullit e Donadini, em apoio ao ponta de lança.

Identificou-se o novo design táctico com o advento da “zona”, mas no fundo, esse sistema defensivo, suporte protector do génio atacante, baseava-e no pressing a meio campo e na astuta utilização da táctica do fora-de-jogo. Era afinal, o que fizera o Ajax de Kovacs e Michels nos anos 70. Com o trunfo do chamado “sacchismo”, a “zona” vingou-se do “Cattenacio”. O Scudetto, em 1985, do Verona de Bagnoli, um treinador defensivo por vocação, fora o último fôlego vitorioso da ortodoxa escola italiana.

CAPELLO, LIPPI, O «3-4-1-2» E AS TENDÊNCIAS DO PRESENTE

ITÁLIA O PAÍS DA TÁCTICAAo longo dos tempos, o eterno dilema entre individualidades e colectivo que invariavelmente dividiu o futebol italiano, terminou quase sempre favorável aos ditames do segundo. Foi assim nas mais diferentes épocas: Em 1934, Vitorio Pozzo, o lendário técnico bi-campeãoo do mundo recusou alinhar o fantasista Bernardinni, jogador da Roma, adorado pelos “tifossi” de todo o país, por ser, rezam os registos da época “demasiado inteligente e com uns pés demasiado bons”, palavras de Pozzo á época, que então preferia, talvez inspirado no lema de Mussoluni, vencer ou morrer, jogadores mais bravos, guerreiros ao serviço da causa da equipa. Em 1970 o dilema entre Rivera ou Mazzola. Quem joga? Foi então que o ultradefensivo Valcareggi, inventou a chamada estafeta. Quando entrava um, saia outro.

Uma alternância que mantinha a coesão táctica, mas que nunca satisfez os críticos. Em 1998, com Maldini, o dilema Bagio que, apesar de toda a sua categoria, capaz de sozinho resolver um jogo, não podia, para o seleccionador, jogar ao mesmo tempo que o outro regista, Del Piero. No final, 28 anos depois repetiu-se a estafeta, e a “azzurra” acabou eliminada sem glória. Em 2000, o mesmo dilema. A individualidade artística que, desta vez, ameaça com a sua criatividade imprevisível subverter a ordem táctica estabelecida por Zoff é o romano Totti. Nas últimas épocas, consagrada a utilização da “zona”, o sistema eleito pela elite dos treinadores italianos, onde emergem hoje Maecelo Lippi e Fabio Capello, como compromisso entre a eficácia e o espectáculo, foi o 3-4-3, uma variante do 5-3-2 que ganhou novo impulso táctico com o advento dos laterais ofensivos, mas que, no fundo, só se torna possível com o fim dos extremos de raiz no futebol actual. Quase sempre sem ninguém a quem marcar directamente, os laterais descobriram um corredor inteiro liberto para atacar.

O problema Totti, como antes fora o de Baggio ou Del Piero, tornou-se maior porque a tendência calculista da selecção contrasta com a opção táctica usada pelas equipas mais fortes do Scudetto, onde um jogador com estas características, capaz de refinar o jogo de ataque da equipa, dar-lhe magia e ao mesmo tempo cobrir de forma criativa todo o sector intermediário nas costas dos pontas-de- lança, é fundamental. Com efeito o 3-4-3, adquire em campo uma dinâmica táctica que se descreve melhor através do 3-4-1-2, em cujo o tal o homem chave, o chamado “trequartista” ou “mezzapunta” para os italianos, está entre os 3 do meio campo e os 2 avançados. Mais do que um clássico nº10, uma espécie de 9,5 com lhe chamou Platini. O famoso “tridente” ofensivo que muitos analistas tácticos se apressaram a divulgar resultou na prática mais num híbrido 1+2.

É dentro desse sistema, que habitam estrelas imprevisíveis, como Totti, na Roma de Capello, atrás de Delvecchio e Montela, Zidane, na Juventus de Ancelotti, atrás de Del Piero e Inzaghi, Boban, no Milan de Zaccheroni, atrás e Schevchenko e Bierhoff , Ortrega, no Parma de Malesani, atrás de Crespo e Amoroso, Baggio ou Recoba, no Inter de Lippi, atrás e Vieri e Zamorano, Mancini ou Véron, na Lazio de Ericksson, atrás de Simone Inzaghi e Salas, e .. Fiori, na Udinesse de De Canio, atrás de Muzzi e Sosa, o homem então preferido por Zoff em detrimento de Totti na “squadra azzurra”. A opção baseia-se na maior previsibilidade das movimentações de Fiori, que não tem, nem por sombras, a mesma fantasia e valor técnico que Totti, mas possui aos invés, maior espirito de sacrifício e maior mobilidade defensiva, enquanto Totti, na Roma está habituado a inserir-se entre os pontas de lança, sempre no momento em que Delvecchio recua para fugir ás marcações. Perante este cenário, Zoff optou por ter seguras as rédeas tácticas do onze e escalou o médio de Udinne.

Tem a seu favor, porém, a coerência táctica. Esta é, aliás, uma das criticas feitas a Ericksson na Lazio, que teima em não adoptar uma estratégia base, sempre dependendo dos adversários. De um jogo para o outro passa do aberto 3-4-1-2 para o fechado 4-5-1, com um meio campo superpovoado, sistema utilizado num dos últimos jogos, em Verona. A derrota por 1-0 frente ao fixo 4-4-2 de Prandelli aumentaram, então, as criticas ao técnico sueco Liedholm, o primeiro vencedor “zonista” não vislumbra, porém, nada de novo no idolatrado 3-4-3, mascaradamente ofensivo, do final de século: “Não é uma novidade revolucionária, porque no futebol já não é possível inventar mais nada. Reparem que até Sachhi apenas refinou o que faziam Viani ou Rocco. O 3-4-3 já era utilizado por nós nos anos 50 (época do famoso GreNoLi do AC Milan, demolidor com a avançada sueca Gren, Nordhal e Liedholm). Só que nesse tempo não se falava de estratégias. E, mesmo hoje, era melhor discutir mais os homens que os modelos”, sentencia o velho lobo nórdico.

OS RESISTENTES E O FUTURO TÁCTICO

Noutro plano, mora Gigi Simone, resistente estratega da “velha guarda”, que na época passada falhou no Inter e este ano fracassou no Piacenza, mas sempre fiel á “velha escola”. Desconfiado da “zona” adopta o calculista 5-3-2. Entre os tradicionais devotos do clássico 4-4-2, restam também Fachetti, no Brescia, Ulivieri, no Caclari e o carismático “Carletto” Mazzone, um velho caminhante, 63 anos, que já conhece o balneário de centenas de clubes. O homem-lâmpada, hoje no Perúgia, tal a forma como parece sempre surgir como uma nova solução táctica. Di Stefano considera que os grandes responsáveis pelas tácticas defensivas que invadiram o futebol moderno são os italianos, quando provaram ser possível ganhar jogos partindo da defesa, divulgando que o melhor ataque é uma boa defesa. Demasiado severo para os italianos, que embora nunca tivessem sido profetas do espectáculo, muitas vezes revolucionaram a abordagem táctica do jogo contribuindo decisivamente para a sua evolução, mesmo a nível de métodos de treino. E se olharmos para os alemães verifica-mos que eles jogam hoje como há 30 anos atrás: Um libero fixo, sempre disposto a integrar o meio campo, marcações individuais, dois avançados e um falso ponta e lança nas suas costas. E, no entanto, continuam temíveis e ganhadores. A diferença como diz Capello será sempre feita pela "qualidade dos jogadores, o espirito de equipa e a ideia de jogo”. Na selecção, porém, Sacchi, sem os magos holandeses do seu Milan perdeu clareza táctica e muitos acusaram-no de colocar o sistema á frente dos jogadores. Algo que nega: “O inegociável é a ideia, não o sistema.

Esta depende dos jogadores. Por isso usei sistemas diferentes no Milan e na selecção. O único que é sempre fundamental é a posse de bola. Só esta pode significar futebol de ataque.” Apesar do rótulo defensivo que a invenção do “Cattenacio” colou ao futebol italiano, símbolo do jogo que negava o espectáculo em nome do resultado, os seus mais profundos defensores, herdeiros dos fundadores de uma escola de culto no mundo do futebol, continuam a tentar desmistificar a imagem negativa. Lembram as proezas de Trapatonni, geneticamente, apesar do presente, da velha escola, e citam que o atacado Inter de Foni, campeão em 53 e 54, jogava com três avançados e o médio defensivo Armano fazia mais de dez golos por ano, ao invés do Milan de Sacchi, que em 87/88 só alinhava dois atacantes e que só fez 43 golos em 30 jogos, apenas vencendo o Scudetto devido á segurança defensiva (14 golos sofridos) e não pela potência do seu ataque. É difícil afirmar que o 3-4-1-2 seja uma tendência táctica para marcar uma época, mas, pelo menos, parece seguro dizer que, na actualidade, é a proposta táctica que melhor aproveita o potencial criativo dos artistas futebolísticos. Se a “squadra azzurra” irá, finalmente, ser receptiva, num grande torneio internacional, a essa corrente e apostar numa atitude menos dramática, é o que iremos descobrir, este verão, nos relvados belgas e holandeses.