Já não há super-heróis

29 de Abril de 2008

Já não há super-heróis

O treinador berrava com o jogador: “Mete a bola!”, “Joga rápido!”, “Não, agora segura!”. Desde o inicio. O jogador lutava, mas não dava. Até que o treinador disse tirá-lo. Sai resmungão. “Mister, estava bem, não me sentia cansado”. – “Pois não, mas estou eu!”, desabafa o treinador.

É natural uma equipa estar cansada. É preocupante uma equipa sentir-se cansada. Parece a mesma coisa, mas não é. Com a sucessão de jogos, o desgaste físico é natural e reflecte-se na indisponibilidade para cumprir as movimentações tácticas. Em paralelo, o cansaço mental pode ser mais problemático de ultrapassar. É uma questão mais para equipas envolvidas em várias competições. Sujeitas a maior cansaço, a maior fadiga física e mental. É óbvio que aconteça. Como recuperar então?

É um mito dizer que o jogador inglês nunca se cansa e joga sempre sem se queixar. Uma equipa fica cansada tão depressa em Inglaterra como em Portugal. E os treinadores percebem-no. Basta ver como Benitez e Ferguson geriram Liverpool e Manchester entre os jogos europeus, alterando os onzes no campeonato, gerindo o seu desgaste físico e mental. Mais complexo é uma equipa mentalmente cansada sem esse factor (jogos sucessivos) que o justifique.

Penso nisso ao ver o Guimarães-FC Porto. Porque o Guimarães pareceu sempre uma equipa muito cansada. Mais que no físico, pareceu muito cansado…mentalmente. Muitas vezes é mais difícil recuperar uma equipa no plano mental que físico. Mesmo a que joga de três em três dias. Porque é muito difícil manter o mesmo índice alto de concentração durante muito tempo. Por isso, a equipa sente-se cansada de sentir-se…concentrada. É o lado mental do cansaço.

Como recuperar disto? Existem várias teorias, mas penso que há uma questão prévia a distinguir equipas e jogadores de diferentes campeonatos. Os hábitos de intensidade competitiva. É essa a grande diferença entre futebol português e inglês. O nosso jogador sente-o. Os nossos jogos transmitem-no. Quando metem o jogador português nos hábitos competitivos ingleses mais altos, ele logo aumenta o seu nível de concentração mental e intensidade física. Mas também fica cansado. Talvez, porém, sinta menos o cansaço. Porque está então habituado a lidar com realidades mais exigentes.

O caso do Guimarães saltou as quatro linhas. Porque, sem UEFA e eliminado cedo das Taças, só jogou o campeonato. Não sentiu necessidade de trabalhar a recuperação física de igual forma. Durante as ultimas semanas, porém, a equipa cansou-se… sem jogar, sobretudo pela pressão mental a que foi sujeita. E, no último jogo, de intensidade mental máxima, ficou quase estática, consequência, antes de tudo, da falta de elasticidade mental para agarrar o jogo. Tudo, claro, com transfer táctico. Uma equipa mentalmente cansada é uma equipa tacticamente sem agilidade.

Recuperar é enganar as leis da fadiga, física e mental. Porque já não existem super-heróis.