Japão: “KLM” – Samurais de Saitama

10 de Setembro de 2016

Cerca de trinta quilómetros a norte de Tóquio, mais de um milhão de pessoas palpitam ao som de remates a atingirem a baliza. O Japão é, sem dúvida, um país único ma, enquanto para o comum dos mortais as atrações estão em Tóquio … para os apaixonados pelo futebol a capital encontra-se em Saitama. O facto de ter sido formada apenas no início deste milénio a partir da combinação de três pólis anteriores (Omiya, Urawa e Yono), trás ao local uma rica diversidade cultural e rivalidades que vulcanizam o ambiente desportivo.

Por Tiago Estêvão

(Analista de futebol- J League / Japão/ futebol asiático)

No principal escalão do país encontramos os dois representantes futebolísticos da cidade: Omiya Ardija e Urawa Red Diamonds. Enquanto o primeiro recentemente recuperou o seu posto na J-League – e poderá ser alvo da nossa análise num outro dia –, o segundo está desde sempre agarrado às luzes da ribalta, não dando sinais de as querer largar.

Em 23 anos de campeonato (membros fundadores em 1992) a equipa tem um título – de 2006, época em que juntaram ao título do campeonato uma das suas duas taças do Japão – para além de campanhas vitoriosas na Taça da Liga de 2003 e na Liga dos Campeões Asiática de 2007. É, de facto, um palmarés interessante mas se notarmos ao facto de ter acabado o campeonato mais vezes abaixo do décimo lugar (8) do que no pódio (6) teremos uma tendência automática de classificar o clube como algo instável no que toca aos seus resultados na primeira divisão.

A verdade é que existem outros aspectos no qual esta equipa é consistente como nenhuma outra: em 14 das suas participações foi a equipa com a mais elevada média de espectadores nas suas partidas em casa – em 2008 a média foi de mais de 47 mil pessoas no Saitama Stadium – e, em todas as participações, jamais esta equipa deixou de jogar em prol do bom futebol ofensivo.

Mihailo Petrovic chegou ao Japão em 2006. É certo que as melhores campanhas do técnico sérvio-austríaco até então tinham sido no comando do Sturm Graz e do Olimpia de Ljubljana (ambos clubes em que militou como jogador) mas não são muitos os treinadores que se arriscam a fazer o salto Europa-Ásia. Foram seis os anos de ligação ao Sanfrecce Hiroshima (atual campeão) e a sua influência no clube foi de uma proporção enorme. Tornou-se um homem imensamente respeitado por Terras Nipónicas, ao elevar o “Sanfre” a um estatuto que até então tinha e deixando as bases para a equipa se sagrar campeã por três vezes após a sua demissão.

No momento da chegada do novo técnico aos Diamonds, a equipa levava já quatro temporadas medíocres abaixo do 6º lugar e este era visto como o único que podia trazer de volta o clube ao convívio dos grandes. Desde então tem sido… o homem do “quase”. Traduzindo a situação para a “linguagem” do futebol português: Jesus deixou o Sporting a jogar um excelente futebol de cariz ofensivo na sua primeira época em Alvalade, somou um recorde de pontos…mas acabou no segundo lugar do campeonato. Imaginem esta situação quatro épocas seguidas mas com um número de golos sofridos consideravelmente superior. Até no facto de deixar as competições internacionais como objetivos secundários esta comparação faz sentido – o Sérvio tem tendência a rodar o onze na Liga dos Campeões Asiática e, por consequência, os resultados não aparecem.

Pressionados para acabar esta temporada com um troféu nas mãos, a equipa técnica dos “Reds” está a fazer tudo para emendar as falhas defensivas que lhes custaram muitíssimos golos na passada época, enquanto tentam manter o caudal ofensivo que lhes valeu o terceiro lugar em 2015. Olhando pelo prisma tático iremos encontrar um onze com dinâmicas do mais interessante que há no futebol mundial. Sejam bem-vindos ao 3-4-2-1 de Petrovic.

jleague

Com um sistema que se desdobra em diversos outros ao longo do jogo consoante as fases do mesmo, a versatilidade do trio de centrais é essencial. Os homens mais frequentemente escolhidos para ocupar as posições recuadas do terreno têm todos capacidade para fazer pelo menos mais uma posição com a qualidade com que jogam no coração da defesa.

Makino e Moriwaki, experientes centrais, passaram longos períodos da sua carreira como laterais. Chamado com alguma regularidade à principal seleção do Japão, Makino parece ter encontrado em Urawa o melhor local para potenciar as suas capacidades após uma experiência falhada no Colónia. Wataru Endo é a peça mais jovem e mais interessante desta defesa: evidenciou-se ao conquistar o Campeonato Asiático de Sub23, jogando a trinco, e trocou o Shonan Bellmare pelos Reds. Agilidade, posicionamento defensivo de qualidade, visão de jogo e grande capacidade de saída de bola tanto em passe curto como longo – o seu porte físico de estatura relativamente baixa será o “handicap” que poderá revogar uma transferência sua para o Velho Continente onde, sinceramente, o vejo a brilhar nos próximos anos. Explodia nas mãos de Sampaoli.

Yuki Abe e Kashigawi são a dupla de médios-centro da equipa. Abe, que teve uma curta estadia no atual campeão inglês, é o capitão e trinco do onze deixando as funções de construção nos pés de Kashiwagi – atleta que quando, por via de combinações, consegue subir no terreno demonstra a sua capacidade de remate de longa distância. Agora com 35 anos nas pernas, Abe faz um jogo mais posicional, por vezes até recuando no terreno durante a fase de organização ofensiva para se juntar a um dos centrais.

Os alas/laterais são “espelhos” um do outro no que toca às suas caraterísticas e àquilo que lhes é pedido em campo por Petrovic. Ágeis, com boa capacidade de cruzamento e sempre a dar largura à equipa, é lhes pedido uma incorporação quase contínua no ataque – dando-se inúmeras vezes a subida de ambos ao mesmo tempo –, na qual se incute a sua aparição em zonas de finalização. Sakine (lateral direito) será, no entanto, mais interessante de se seguir que Ugajin, homem da esquerda. Com apenas 21 anos é o mais jovem do onze e tem aproveitado a lesão grave de Umesaki para evoluir jogando com continuidade, mais um à espera de um voo europeu.

Por fim temos o famoso trio de ataque: Koroki, Lee e Muto – o “KLM” como é chamado no Japão, inspirados na designação dada aos tridentes ofensivos de Barcelona (“MSN”) e Real Madrid (“BBC”). E aqui notamos o aspeto mais distinto deste 3-4-2-1: os dois jogadores em apoio direto ao ponta de lança (Koroki) não são extremos nem médios de cariz ofensivo mas sim mais dois pontas de lança “adaptados” como segundos avançados.

Tanto Yuki Muto como Tadanari Lee passaram a maior parte do seu tempo de atletas como os homens mais avançados para a sua equipa. Entre os três conseguimos reunir muitas caraterísticas em comum e, enquanto isso possa parecer contra produtivo para muitos, acaba por resultar devido ao quão experientes e bem entrosados estão estes jogadores. Capacidade de finalização dentro e fora da grande área, aptidão para jogar de costas para a baliza e combinar com os alas, perícia nas rotações e diagonais para as costas da defesa – caraterísticas que abrangem o trio e dão imensos benefícios ao onze.

É claro que existem sempre tendências que diferem, como a maior capacidade de finta curta em Tadanari Lee (homem Ex-Southampton). É algo claro também que muitas vezes fica a faltar uma fonte de criatividade por trás dos homens mais avançados, algo para o qual Takagi contribui quando joga em detrimento de Muto, mas há uma leveza e simplicidade de movimentos neste tridente que tende a fazer estragos – mesmo que seja apenas a partir de passes curtos e movimentações inteligentes.

Assim que se inicia a fase de construção de ações ofensivas já a equipa se encontra com muitos homens no meio campo adversário, fazendo a transição da sua formação inicial para algo semelhante a um 4-2-4 muito rapidamente. Abe tende a cair no terreno, juntando-se à peça mais central da defesa (Nasu ou Endo), sendo pedido aos outros dois centrais que dêm largura à equipa e apoiem os laterais pelas alas – resultando em algumas diagonais dos mesmos.

 Kashiwagi

Com Kashiwagi – o coração e cérebro da equipa – a armar jogo, um dos três homens mais avançados tem tendência de dar apoio, tornando-se como que um segundo médio. Com poucos toques a equipa de Saitama consegue colocar muita gente na área e assoberbar o adversário. Até agora foram 45 golos em 27 jogos da J-League deste ano, com 28 golos (cerca de 62% dos golos da equipa) a serem marcados pelo “KLM”. Não havendo perfeições táticas é óbvio que a equipa acaba por ter tendência a danificar-se a ela mesma, expondo-se muito a perdas de bola e outros erros individuais que tendem a acabar em golos sofridos, principalmente se há uma pressão adequada e atempada no meio-campo aquando da sua transições ofensivas.

Com tudo em conta, é um futebol absolutamente apaixonante que se pratica de vermelho e branco em Saitama. Os Urawa Red Diamonds parecem bem encaminhados para uma nova presença nos play-offs, quando nos faltam seis jornadas de campeonato regular, sem nunca esquecer: “se se encontrarem com problemas defensivos, preocupem-se apenas em marcar mais” – e os três samurais irão, por certo, continuar a marcar.