JAPÃO: Sol nascente ao ritmo do samba

11 de Maio de 1999

JAPÃO Sol nascente ao ritmo do samba

Zico é, para a eternidade, uma estrela do futebol brasileiro. O melhor artilheiro da história do Flamengo e o maior simbolo da magia carioca que também passeou classe na “canarinha”. Em 90, uma goleada de 5-0 sobre o Fluminense parecia ser um fim de sonho para a sua carreira. No entanto, Zico ainda estava por enfrentar o maior desafio da sua vida futebolistica: ensinar aos japoneses a jogar e gostar de futebol. Quando em Julho de 91, com 38 anos, chegou ao Oriente, o Kashima Antlers não era nada.

Em pouco mais de dois anos, o “galinho”, com o seu talento e carisma, revolucionou todo futebol nipónico e levou á criação em 93 da J-League, o campeonato profissional do Japão. Hoje, penduradas as chuteiras, continua sob o sol nascente. Tornou-se director técnico do clube, principal responsável pelas suas contratações e estratégia desportiva, tendo a seu lado, como treinador, o irmão Edu. Embora o primeiro campeonato japonês já date de 1920, só a partir de 1965 é que começou a disputar-se uma Liga nacional japonesa por pontos, completamente amadora e que durou até 1993, ano do inicio da profissional J.League. Entre as equipas fundadoras estavam o Yanmar Diesel, actual Cerezo Osaka. A meio da prova, porém, em plena crise de resultados, a equipa decidiu contratar um bom médio capaz de fazer os passes de morte necessários para que os golos do terrível Kanamoto, figura da lendária selecção nipónica que foi medalha de bronze nos jogos olímpicos de 1968, voltassem a surgir.

Foi assim que, pouco depois, desembarcaria no Japão o primeiro futebolista brasileiro: Nelson Yoshimura, filho de pais japoneses que tinham emigrado muito novos para S.Paulo, mas ainda portador do virtuoso estilo canarinho. A partir dessa data, nunca mais o futebol samurai perdeu de vista os encantos do estilo brasileiro. Assim, todas as épocas, os clubes, autênticas empresas privadas, decidem contratar jogadores brasileiros para colorir de dribles e bom futebol os seus onzes. Das 16 equipas que participam na J.League-2003, apenas uma, o Purple Sanga não tem brasileiros no seu plantel.

Zico é hoje a alma do futebol japonês, deslumbrado com a arte de Nakata e eterno admirador de Kazu Miura, hoje no Croácia Zagreb, o primeiro japonês a sair da ilha para jogar no Ocidente, em 93, no Génova. Mas também no futebol de Kazu está a escola brasileira, apreendida quando em meados dos anos 80, com apenas 16 anos, partiu para o Brasil. Quatro anos depois, quando regressou, tornou-se num ápice na maior estrela da sua geração. A aventura de Kazu suscitou a admiração e a inveja de muitos jovens nipónicos. Não era fácil porém atravessar o Pacifico e conquistar um lugar ao sol no futebol brasileiro.

Hoje porém para que tal seja realidade, não é necessário ter os conhecimentos que Kazu tinha no seu tempo. Graças a Zico existe um centro para os receber: a “Escolinha de futebol do Zico”, em pleno sol do Rio, financiada pelo Kashima com o fim de fazer novos Kazus ou Nakatas. Em 95, o Japão-Brasil disputado em Tokio ajuda a entender melhor esta ligação, aparentemente exótica, entre o “galinho” e o futebol dos samurais. Nessa data, festejava-se os cem anos da amizade nipónica-brasileira, datada de Novembro de 1895, quando as duas nações celebraram um tratado de amizade e cooperação comercial. Fruto dessa ligação mercantilista, em 1908, o navio Kasato-Maru zarpou do porto de Kobe rumo a Santos, levando a bordo 791 japoneses, sobretudo agricultores. Hoje muitos veêm neles os antepassados do milhão de japoneses que nos nossos dias habita S.Paulo, formando a maior colónia asiática da América do Sul.

DE RUI RAMOS A CARECA, DE ALCINDO A DUNGA

JAPÃO Sol nascente ao ritmo do sambaNo final do século, o futebol voltou a unir os dois países. Seduzidos pela milenar cultura nipónica, foram as estrelas brasileiras que inventaram o novo futebol japonês, apoiado como desde sempre por grandes empresas. O slogan de apresentação da nova Liga japonesa que percorreu todo o país é elucidativo da paciência e da noção de tempo da sociedade oriental: “Japan League, um projecto para cem anos!”. Neste clima, onde a arte de dominar a bola com os pés é puro divertimento, e onde não existem polémicas com arbitros e dirigentes, todos os olhos estão virados para os artistas. E, claro, que melhores artistas do que os mágicos brasileiros, a terra de Zico e Pelé. Em 77, Rui Ramos, totalmente desconhecido no Brasil onde jogava no São Caetano, desembarcou no Japão em busca de fama e fortuna dentro de um relvado de futebol. Por entre golos bonitos e casos polémicos nunca teve dificuldade em encontrar clube para apresentar o aroma da técnica brasileira. Ano após ano ele tornou-se uma grande figura do futebol japonês.

Em 1989, casado com uma japonesa, adquiriu a nacionalidade nipónica e foi o primeiro brasileiro a tornar-se capitão de uma selecção estrangeira, depois de com ele o Verdy Kawazaki ter vencido duas J-League, por quem, graças á sua invulgar condição fisica, ainda esta época disputou alguns jogos com 41 anos! Outro jogador, incógnito no Brasil e tranformado em super-vedeta no Japão, é o Alcindo, que também joga no Verdy. A loucura em volta deste jogador é verdadeiramente incrivel: Existe todo o tipo de adereços dedicados ao brasileiro, desde porta-chaves a ...bolachas feitas com a forma da cara e do cabelo de Alcindo! O caso de Rui Ramos na selecção não é, porém, unico. No França-98 o mundo viu outro brasileiro a jogar com as cores do Japão: Wagner Lopez. Chegou ao Japão com 18 anos, hipnotizado pelo sonho de Rui Ramos e Alcindo, depois de ter jogado no São Paulo e ter alinhado na selecção brasileira sub-17. Só o facto de ser brasileiro incutia respeito em todas as estruturas do futebol nipónico, e, de forma algo caricata, tornou-se um temido ponta-de-lança quando antes no Brasil em toda a sua carreira jogara como... defesa-central! Em 98, com 29 anos, ele tornou-se heroi nacional, com os seus golos o Japão qualificou-se para o Mundial, marcando o golo da vitória contra os ancestrais rivais coreanos. Há 14 anos que o Japão não conseguia vencer fora do seu território os coreanos.

Estrelas no futebol dos samurais

JAPÃO Sol nascente ao ritmo do sambaO Verdy Kavazaki, clube da empresa de comunicações Yomuri, é visto como o mais forte do pais. O seu nome, Verdy, é uma homenagem aos verde do Palmeiras, o primeiro clube brasileiro a visitar o Japão em 1974. Por lá nos últimos tempos passaram inúmeros jogadores brasileiros, desde Amoroso e Pereira ex-Guarani, Bismark, ex-Vasco, estrela da selecção sub-19 que jogou o Mundial-89 na Arábia Saudita e Donizete, que passou pelo Benfica, para além, claro, de Alcindo e Rui Ramos, entre outros, orientados por Nelsinho Batista, ex-São Paulo e Leão, o mítico guarda-redes do escrete nos anos 70, que antes no Brasil treinara o idolatrado Palmeiras e que no Japão conduzira, em 92 e 93, o Shimuzu Pulse, clube propriedade da ShizuokaTV, onde jogaram Edu Manga, Mirandinha e Carlos Alberto Santos. Num primeiro tempo, quando os recursos económicos não eram muitos as estrelas brasileiras que desembarcavam no Japão não passavam de jogadores de segundo plano no Brasil. Com a missionária vinda de Zico e o despertar das possantes multinacionais para o futebol como fenómeno de multidões, o território nipónico como que se transformou no novo eldorado do futebol mundial. Foi assim que nos anos 90, o Kashima comprou Jorginho, Mozer e Leonardo, Zinho, César Sampaio e Evair rumaram para o Yokohama Flugels, Careca e Muller foram para o Kashima Reysol, Dunga tornou-se o símbolo do Jubilo Iwata, Valdo estrelou o Nagoya Grampus e o guarda-redes Gilmar ingressou no Cerezo Osaka. No ultima época jogaram, segundo dados da CBF, 34 brasileiros nos diversos escalões do futebol japonês, numero só superior em Portugal e na Suiça.

A maioria dos clubes japoneses, geridos ao sabor das multinacionais que os controlam, não tem historia emocional que os suporte Quando a J-League arrancou em 93, os seus promotores ficaram espantados com o facto da paixão dos adeptos ser sobretudo para com os jogadores, ao ponto de a transferência de um futebolista para outro clube, acarretar uma pitoresca deslocação de adeptos para esse outro clube! Um sentimento que pode ser comprovado, por exemplo, pela forma devota e quase fanática com que os japoneses, sempre de máquina fotográfica em punho, seguem as suas estrelas que hoje se encontram a jogar no estrangeiro. Vencedor da J.League 2002, o campeão Jubilo Iwata surge como o grande favorito da edição deste ano. Como grandes desafiadores, emergem, o Gamba Osaka, que terá como sua principal estrela o lateral direito paraguaio Arce, ao lado do internacional Miyamoto, e o Yokhoma Marinos, que terá esta época como treinador o antigo seleccionador nacional Takeshi Okada, ansioso por ver em acção o criativo médio Matsuda e os avançados Tatsuhiko Kubo, contratado ao Hiroshima, e Yukihito Sato, ex- FC Tokio, estrelas do novo do futebol nipónico.

Apesar destes destaques, uma das maiores atracções desta época estará na dupla de avançados do Urawa Reds Diamonds, formada pelos brasileiros Emerson e Edmundo, o Animal, que foi adquirido ao Verdy, pelo qual realizou espectaculares exibições a campanha passada. Para o substituir, o Verdy contratou outro brasileiro, o médio Ramon, ex-Vasco da Gama, enquanto que no ataque irá surgir o possante camaronês Mboma, adquirido ao Al Ittihad da Líbia, apoiado pelo extremo Takashi Hirano, ex-Vissel Kobe, figura da selecção japonesa. O Kashima Antlers mantêm a mesma equipa base da época passada, destacando-se no seu onze, o defesa Narahashi e a categoriza dupla de médios formada por Ogasawara e Koji Nakata. No Shimuzu, todos os olhares estão postos no defesa Morioka, no avançado coreano Ahn e no virtuoso médio Alex, o brasileiro que alinhou pela selecção japonesa no Mundial-2002.

Os últimos tempos tem, porém, sido de recessão. Gerida ao sabor dos critérios financeiros das multinacionais que os controlam, todos os grandes clubes nipónicos não têm história que os suporte, a paixão dos seus adeptos é sobretudo pelos jogadores. A transferência de um jogador para outro clube acarreta uma pitoresca deslocação de adeptos para esse outro clube. Algo impensável em outro ponto do globo futebolístico. Desde sempre os nomes dos clubes denotaram a sua origem empresarial. No presente o caso mais emblemático da crise em que vive a J-league (onde as assistências médias desceram de 20 000, em 1994, para 11 800 em 1998), sucede com o campeão Yokohama Flugels que se irá fundir com o Yokohma Marinos, antigo clube da Nissan, a outra equipa da cidade.

A ANA, companhia aérea que gere o capital dos Flugels, vive afundada em dividas. Muitos preferiam jogar na 2ª Divisão, mas para a ANA é imperioso continuar entre a elite pelo que a fusão com o Marinos parece inevitável. A mesma situação difícil é vivida por muitos outros clubes/empresas. O futuro do verdadeiro futebol japonês não depende, no entanto, destas estrelas importadas. No comando da selecção, Zico sabe disso. No seu novo onze nacional, tacticamente esquematizado em 3x5x2, inclui, á partida, sete jogadores a actuar no estrangeiros, pelo que a grande maioria de valores seleccionáveis ainda alinha na J.League. Entre as suas novas apostas estão o defesa Tsuboi, do Urawa, e o goleador Kurobe, do Kyoto, o homem que, junto com Nakayama, do Iwata, rivalizara com os estrangeiros Takahara, estrela do Hamburgo, e Suzuki, do Genk, por um lugar na frente de ataque. No meio campo, tomem atenção a Fukunishi, do Iwata, enquanto na defesa, devem apontar os nomes de Yamada e Tsuboi, do Urawa e Hattori, do Iwata. Todas estas figuras irão passear nos relvados japoneses desta época, onde uma das principais novidades residirá no facto de deixar de existir o cruel desempate por golo de ouro, prevalecendo o empate como resultado final ao cabo dos 90 minutos.

Enquanto isso, Rui Ramos, Alcindo e Wagner Lopez, os “brasileiros japoneses”, permanecem donos do imaginário futebolístico japonês e Zico continua a ser o seu Deus. Com o Mundial-2002 no horizonte, que irá organizar conjuntamente com a Coreia, o Japão, um país com 120 milhões e habitantes, clama pelos seus heróis, capazes de com a sua personalidade, talento e traços culturais próprios construir o verdadeira imagem do futebol nipónico. As suas gentes adoram futebol. Actualmente os programas das agências de viagens nipónicas para a Itália, já inclui entre um passeio de Gôndola e a visita ao Coliseu de Roma, uma tarde para assistir ao treino de Nakata no futebol italiano...

AS 16 EQUIPAS Época/2003

Kashima AntleJAPÃO Sol nascente ao ritmo do sambars Melhor classificação: Campeão em 1996, 1998, 2000 e 2001 Jogadores brasileiros: Euller (Avançado) e Fernando (Médio) Júbilo Iwata Melhor classificação: Campeão em 1997, 1999 e 2002 Jogadores brasileiros: Gral (avançado) Outros estrangeiros: Van Zwan (Holanda, guarda-redes) e Zivkovic (Sérvia, médio) Verdy FC Nippon 1969 Melhor classificação : Campeão em 1993 e 1994 Jogadores brasileiros: Lopes (defesa) e Ramon (médio) Outros estrangeiros: Mboma (Camarões, avançado) Yokohama F. Marinos Melhor classificação: Campeão em 1995 Jogadores brasileiros: Dutra (defesa) e Marquinhos (avançado) Urawa Red Diamonds Melhor classificação: 4º (1995) Jogadores brasileiros: Edmundo e Emerson (avançados) Jef United Ichiara Melhor classificação: 3º (2001) Jogadores brasileiros: Sandro (médio) Outros estrangeiros: Milinovic (Eslovénia, defesa), Choi Yong Soo (Corea, avançado) Kashima Reysol Melhor classificação: 3º (1999 e 2000) Jogadores brasileiros: Marcio (avançado)e Ricardinho (médio) FC Tokio Melhor classificação: 8º (2001) Jogadores brasileiros: Jean (Defesa), Amaral e Kelly (médio) Shimizu S-Pulse Melhor classificação: 2º (1999) Jogadores brasileiros: Emerson (defesa) e Alessandro 8médio) Outros estrangeiros: Ahn (Corea, avançado) Nagoya Grampus Eight Melhor classificação: 2º (1995) Jogadores brasileiros: Ueslei (avançado) Kyoto Purple Sanga Melhor classificação: 12º (1997) Jogadores brasileiros: nenhum Outros estrangeiros: Ko Jung Su (Corea, médio) Gamba Osaka Melhor classificação: 4º (1997) Jogadores brasileiros: Galeano (médio) e Magrão (avançado) Outros estrangeiros: Arce (Paraguay, defesa) Cerezo Osaka Melhor classificação: 5º (2000) Jogadores brasileiros: João Carlos (defesa) e Baron (avançado) Outros estrangeiros: Pelak (Bósnia, médio) e Stanesic (Croácia, médio) Vissel Kobe Melhor classificação : 10º (1999) Jogadores brasileiros: Sidiclei (defesa), Harison (médio) e Óseas (avançado) Outros estrangeiros: Oita Trinita Melhor classificação : Estreia na I Divisão Jogadores brasileiros: Sandro (defesa), Andradina (Avançado) Vegalta Sendai Melhor classificação: Estreia na I Divisão Jogadores brasileiros: Fabiano e Marquem (Defesas), Silvio (Médio) e Marcos (Avançado) J.LEAGUE PROFISSIONAL HISTORIAL Ano Campeão 1993 Verdy 1994 Verdy 1995 Yokohama Marinos 1996 Kashima Antlers 1997 Jubilo Iwata 1998 Kashima Antlers 1999 Jubilo Iwata 2000 Kashima Antlers 2001 Kashima Antlers 2002 Jubilo Iwata
Alcindo, um brasileiro conquistador do Japão