Jogador português não é o futebol português (e vice-versa)

20 de Outubro de 2014

O golo na Dinamarca é daqueles que nos lavam a alma. O nosso ego, a forma de sentir e ver futebol. E hoje já é outro dia. Ronaldo já voltou a Madrid. O futebolzinho português continua nas suas casas.

O golo e a vitória surgem na mesma altura em que uma truculenta seleção Sub-21 atinge a Fase Final do seu Euro, jogando um futebol como nós aprendemos desde o berço: com técnica e bolinha no pé. Surge, também, numa semana em que muito se falou na pouca aposta em jogadores portugueses pelas nossas equipas. Jorge Jesus entrou no debate falando que forma jogadores e não nacionalidades. No tempo global que hoje vivemos isso é óbvio, mas o problema não é, nunca poderá ser, dos clubes.

O problema é confundir-se duas realidades muito distintas: o jogador português não é o futebol português. A limitação de estrangeiros ou a obrigação de jogar com um mínimo de portugueses (5/6) não seriam compatíveis nas vantagens e desvantagens que tal medida traria para ambos os fatores.

Ou seja, se com isso o jogadores português teria, naturalmente, mais oportunidade de jogar (e com isso melhorar), as equipas sem poder recorrer a estrangeiros de nível mais firmado perderiam um meio de se reforçarem (e ficariam piores). Seria, por isso, uma medida vantajosa para o jogador, mas não para as equipas.

O que a confunde, na maiorias das vezes, é apostar em jogadores estrangeiros de valor inferior (ou igual) ao que se encontraria nos nossos jogadores. Sucede por razões financeiras, receio em apostar em jovens, ou, pura e simplesmente, gestão desportiva errada dos clubes.

No geral, penso que uma lei dessas iria tornar as nossas maiores equipas mais fracas. No concreto, não duvido que isso iria fazer crescer muito mais os jogadores portugueses, que assim jogariam mais. Em suma: temos talento, mas não o suficiente para responder competitivamente a um desafio desses. E a questão tornar-se-ia mais evidente se uma medida dessas fosse tomada isoladamente dentro da Europa comunitária.

Outra coisa seria imaginar hoje as nossas equipas antes da lei-Bosmam de 1995, ainda com o tal limite de estrangeiros (aplicado em toda a Europa) e o resto só portugueses. Seriam melhores ou piores? Seriam melhores. Porque a maioria da classe média-alta dos jogadores portugueses não sairia de Portugal, pois os clubes estrangeiros (financeiramente mais fortes) estariam limitados nas suas escolhas e não nos levariam tantos jogadores, sobretudo aqueles em crescimento (André Gomes, Bernardo Silva, Bruma, etc). Ficariam no nosso futebol e melhorariam as equipas (para além das grandes).

Jogador português não é o futebol português e vice versa 1A seleção não pode viver à espera do que fazem os clubes para evoluir competitivamente. Tem de criar a sua formação própria de jogador de elite na cadeia alimentar dos diversos escalões até aos “A”. Custa ver que muitos daqueles talentos Sub-21 não joguem nos nossos clubes, mas sem espaço (de crescimento a jogar) nos grandes, era difícil encaixar noutros clubes de nível mais baixo (e com problemas financeiros).

Seria um debate longo. O único ponto em que futebol português e jogador português, num tempo de globalização, não se podem separar, é no respeito ao talento. Ao talento do nosso jogador. Desde as divisões secundárias mais profundas aos maiores clubes. Isso, porém, não se consegue com regulamentos a limitar estrangeiros ou impor portugueses. Consegue-se com boa capacidade de observação.

Para além disso, pode ser um paradoxo, mas as duas realidades serão sempre diferentes e até incompatíveis nas melhores medidas para cada um deles. Cabe aos homo sapiens do futebol saber uni-las.