Jogadores a rirem-se da táctica

06 de Dezembro de 2014

O campeonato começa a dizer verdades absolutas. A classificação parte-se e as diferenças entre várias equipas tornam-se evidentes. Há, pelo menos, meio campeonato na berma do precipício. Não há organização que o possa disfarçar. É, essencialmente, um problema de qualidade de jogadores.

Existem, claro, estratégias que falham, mas o grande fosso não é cavado nesse fator. Esta semana voltou a tornar isso evidente. Quando mais importância queremos dar à tática, logo aparece um jogador para dizer, sem discussão, as verdades e mentiras deste jogo que tantas equipas tentam contar em campo.

A conexão Enzo-Gaitan, os movimentos/remates de Jackson, o cruzamento tenso de Jefferson para o perna-longa Slimani, as arrancadas de Pardo e Rafa. Noutros dias, é Jonas, Brahimi, Nani. O V. Guimarães resiste lá em cima e é a equipa que melhor faz da organização uma força para fazer crescer os seus jogadores libertados mentalmente. Quem vejo a crescer mais na consistência organizativa é o Paços de Paulo Fonseca. Não sei terá, depois, capacidade para outras variantes do seu jogo, mas é hoje a equipa que faz melhor aquilo que sabe fazer. Tenho curiosidade para ver a solidificação do Belenenses de Lito e o Rio Ave de Pedro Martins pós-Europa.

O Marítimo oscila na busca da identidade, o Moreirense tem uma boa ideia mas pela forma como ela vive tão em cima do meio-campo, Felipe Melo-André Simões, é inevitável, no passar do(s) jogo(s) sentirem esse peso físico (e a equipa ressente-se). Assim, do 10º lugar para baixo, nove equipas assustadas. Dessas, as melhores, em onze jogos venceram... Três.

Académica, Gil Vicente e Penafiel. Paulo Sérgio, Zé Mota e Rui Quinta têm equipas onde é difícil vislumbrar as teclas em que se pode tocar para elas crescerem. Arouca e Boavista, Pedro Emanuel e Petit, são casos semelhantes nessa busca.

Pensar na organização e numa boa ideia de jogo é a única via, mas é um caminho tortuoso tal a verdade que se sente quererem esconder em cada jogo quando defrontam adversários acima daquela linha. No jogo, num ápice, a verdade revela-se.

O Penafiel de Rui Quinta quis subir um pouco o bloco contra o Braga e foi engolido pela velocidade dos avançados adversários. A Académica, com o Benfica, tentou encurtamentos mais individuais mas bastou tirar um pouco o nariz da defesa fora da porta para levar com uma bola nas costas (e um golo, claro).

O V. Setúbal também vive no meio dessa realidade. Em Alvalade viu-se o esforço tático de Domingos em ter a equipa organizada, mas o problema era que existia um bola e um adversário que se movia num ritmo e qualidade claramente de outra dimensão. Isto repete-se em muitos jogos, com equipas diferentes, em locais semelhantes.

Jogadores a rirem-se da tácticaAs equipas que intrigam mais ver neste fosso são Estoril (ver caixa ao lado) e Nacional. São casos diferentes. Na Choupana, acho que Manuel Machado está confrontado com o plantel mais fraco do Nacional nos últimos anos. No fim do 0-0 com o Gil, teve, por isso, o desabafo: “queríamos ganhar mas o défice de talento voltou a ser determinante. Um Brahimi, um Nani ou um Talisca davam muito jeito...” Lapidar. Mas nem precisava de referências tão esclarecedoras. Bastava dizer (terá pensado) alguns que perdeu da época passada.

A questão central é, porém, ver como cada vez mais neste campeonato (tirando, no máximo, o G7 da frente) discutir tática faz cada vez menos sentido tal a forma como as individualidades se riem dela em campo e marcam a diferença. A classe média ameaça desintegrar-se. Qual é a verdade e mentira desta realidade? A mais clássica, em ambos os casos: os jogadores.