Jogadores que me apaixonam, revoltam ou metem medo

23 de Março de 2017

1.

Quando arranca parece que leva um pouco dos genes de Thierry Henry com ele. Na explosão de estilo em corrida. Se, um dia, tiver pelo menos metade do poder de finalização técnica do jogador que virou estátua, Mbappé, 18 anos, o novo exemplar de velocista com bola colada à bota, fará o que quiser de qualquer relvado. Como fez, em dois jogos, aos defesas com “pés de chumbo” do Manchester City de Guardiola.

Kilyan Mbappé tem origens nos Camarões, o código mágico do futebol da África negra, mas já nasceu e viu a primeira bola em França, onde os baldios são centros de formação. Só fará 19 anos em Dezembro.

As suas jogadas fazem sempre parecer que os defesas não existem tal a forma como abre latifúndios nos últimos 30 metros, onde antes não havia sequer espaço para respirar. E, em rigor, continua a não haver, excepto para o jogo de desmarcações e descobertas inventadas de espaços pelos arranques de Mbappé.

Falta-lhe, no fim, dar um sentido objectivo a essas rupturas de técnica veloz. Decidir bem o que fazer, passar ou rematar, e o timing exato de fazer uma coisa ou outra. Ganhar conhecimento do jogo. Neste momento, ele tem o que a natureza lhe deu. Quando um dia tiver junto, na dimensão plena, o que a ciência dos fundamentos de jogo lhe pode acrescentar, pode até brincar com a semelhança de craque com que iniciei o texto. Deixar de ser identificação ou imitação. Ser Mbappé e o resto do mundo.

 

2.

O cartoon apareceu-me por aí esta semana e é de um boneco com traços humanos sentado a contar histórias à lareira numa noite num bosque como estivesse num acampamento. É um cenário clássico onde surgem as mais aterrorizadoras histórias de medo. Então o boneco conta que faltavam poucos minutos para o fim e de repente... era um canto e lá estava o Sérgio Ramos!

A seguir vê-se uma série de outros bonecos humanos como pequenas crianças assustadas. Tinham as camisolas do Nápoles, At. Madrid, Sevilha, Barcelona e mais outras podiam ter. As suas caras refletiam o medo que a história futebolística, com aquela presença súbita na área, num canto, lhes provocava.

Sérgio Ramos já lhes roubou jogos e.. sonhos de títulos, nos últimos suspiros dos jogos, em jogadas desse tipo. O canto aparecia e de repente era como um barulho assustador que rasgava a noite numa casa assombrada em que se tornava todo o Estádio e ninguém podia fugir do destino.

Sérgio Ramos é isto mesmo. Uma assombração para qualquer equipa. Nas fichas dos jogos, aparece que ele é defesa-central. O problema é que ninguém lhe disse isso antes, ou ele não se deixou convencer dessa redutora imagem. Ele, no fundo, é mesmo um avançado.

E então era um canto e, de repente, lá estava o Sérgio Ramos...

3.

É dos jogadores que me põe a torcer pela equipa por onde joga. Ou a reclamar com todos os treinadores do mundo (os das equipas gigantes) por não o contratar. O exemplar que provoca tudo isto é Nainggolan, o belga com estilo índio, tatuagens, olhar rasgado (herdadas do pai indonésio) e penteado moicano loiro na cabeça. Exótico e guerreiro no jogo, mas com técnica e agressividade táctica para deixar de ser médio batalhador defensivo, para passar a combater com técnica mais adiantado, por onde num tempo distante, já habitou uma espécie desaparecida, os nº10.

Radja Nainggolan se quiser também pode ser, no entanto, um nº10. Porque também tem inteligência moderna da posição para isso. Está na Roma, um bom clube, mas não um gigante. Com 28 anos, não parece muito incomodado com essa subida na montanha da carreira. Tem tanto de craque como de louco.

No fundo, ele não joga dentro do relvado. Ele... vive dentro do relvado. Só por estar lá dentro é que também joga. E joga... como sente. Com a sua personalidade. Se tivesse outra profissão teria a mesma atitude. Quando for grande gostava de ser, por umas horas, um pouco do Nainggolan. Todos os jogadores, todos nós, devíamos querer.