Jogadores quase nunca são o que parecem

25 de Janeiro de 2015

Jogadores quase nunca são o que parecem

Os jogadores nem sempre são o que parecem. Benzema não cativa à primeira vista porque não tem, no estilo e andar (e até no olhar que se vê nos grandes planos) aquela atitude combativa que os adeptos gostam de ver, mesmo atrás de bolas que vão sair irremediavelmente pela linha de fundo. Aos poucos, porém, foi conquistando outra forma de olharem para ele, porque, na essência, ele nunca mudou.

Continua a parecer o mesmo. O seu ser é que agora se tornou mais confiante em cada bola que recebe ou persegue. Cai na esquerda (onde, na origem, arrancava nos tempos do Lyon) abre espaço no centro ou surge oportuno nele para marcar golos a um toque, de primeira. Cresceu, sobretudo, nas combinações em espaços curtos. Com Ronaldo, alterna o autor do passe e da receção/remate, mas em qualquer das ações, a capacidade técnica (como frente ao Getafe, no golo que deu numa ida á linha numa finta que foi uma carícia à bola, penteando-a para o passe) marca a diferença no momento da execução.

É curioso e perturbante ver como os adeptos aplaudem mais depressa o esforço do que o talento. Ou seja, elogiam quem corre mesmo sem conseguir nada, mas não perdoam e assobiam quem tenta e falha uma finta.
Cada vez mais os jogadores referência, numa equipa, nascem prioritariamente do músculo. Só depois entra a técnica, indispensável para construir para além do lado atlético.

Seguindo o exemplo francês, é o caso de Pogba, médio-protótipo do futebol moderno. Na Juventus ou na seleção, ele manda na equipa. Cada arranque seu deixa marcas de pegadas na relva.

Uma forma de ver como é o físico que manda nestes jogadores (apesar das suas belas execuções técnicas) é ver como não sabem jogar... Cansados.

As partes finais do jogos para Pogba são sempre as que custam mais.

Continua a chegar à bola primeiro, mas já não executa da mesma forma. É a chamada fadiga tática. Quando um jogador acaba o jogo com maiores de cabeça do que nas pernas.

O contraste? Vejam Totti a jogar, aos 38 anos. É futebol com memória de elefante. Continua a fazer correr a bola quando quase já quase nem se consegue mexer. Só que basta-lhe dar dois passos e está no sitio certo.

A este tipo de jogador, nunca lhe dói a cabeça. São duplos-craques. De nascimento e de mente, no que aprenderam (e agora ensinam) do jogo.

Na Roma é, também, uma jogador-símbolo como já não existe no sentido de dedicação a um clube no qual fez toda a carreira. Num dos últimos jogos, acabou a tirar uma de ser mais de referencia (esperar pela bola/jogo) do que de apoios (indo ao encontro da bola/jogo) a si próprio com o publico atrás. Era como o futebol a fotografar-se a si próprio.

Em todos estes casos há, porém, que frisar o que é fabricado é o lado atlético. A técnica todos eles a tiveram sempre (Benzema, Pogba, Totti) embora em corpos de expressão diferente.

CRAQUES NO JARDIM DE INFÂNCIA

Jogadores quase nunca são o que parecemNo fundo, um grande jogador como qualquer grande inovador na sua área não foi fabricado. “Tudo aquilo que os inovadores precisam de saber já tinham aprendido no jardim-infantil: associar, questionar, observar, experimentar”. Eis as cinco qualidades fundamentais da inovação. É para um jogador de futebol como foi para Steve Jobs, na empresa que mudou o mundo, reunindo, afinal, aquele conjunto de traços que se assemelham à forma de agir de crianças de 4/5 anos. É o chamado ADN do inovador.

É, também, para aqueles três grandes jogadores que marcam hoje três grandes equipas, reinventando-se no estilo, na ligação músculo-técnica ou na experiência do saber.

Para além da questão física, o que pode ser trabalhado (guiado) é o lado mental. Tudo isto não passa por um regresso às bases, como quase sempre acontece para se encontrar uma boa resposta (a certa) para uma pergunta difícil. No futebol, e nos jogadores que nos fazem pensar entre ser ou parecer é a mesma coisa.