Jogar “xadrez” até ao contra-ataque   

26 de Junho de 2016

Foi o melhor jogo de “xadrez futebolístico” deste Europeu durante a primeira parte. De um lado e do outro, cada passe parecia corresponder a uma peça num relvado que parecia cortado em “papel quadriculado”.

Entramos dando a bola ao adversário. Não acredito que fossem os croatas, por mais técnica que tenham nas botas, que o provocassem. Era intencional da estratégia portuguesa.

Ao quarto jogo, a quarta ideia. Adrien não era só um novo médio perto do pivot William Carvalho. Adrien personifica, por força das suas características tão diferentes das de Moutinho (ou até Renato, o potencial substituto) outra ideia para jogar. Enquanto os outros dois são condutores, Adrien é, essencialmente, mais um lançador de jogo, mesmo que no Sporting tivesse rotinado uma amplitude vertical de jogo maior. Era essas rotinas que (junto de William e João Mário) Fernando Santos tentou meter na linha de meio-campo da seleção.

Vínhamos de um jogo em tínhamos sofrido muito defensivamente. Era necessária outra forma de pensar o equilíbrio de jogo. Em vez da posse que nos seduz, passar a controlar mais os espaços. Deixá-los ter a bola mas olhando-os de longe, não querer sair na pressão, para não abrir espaço entre as linhas dos defensas e médios. Quando se aproximavam, bastava apertar. O toque croata também era cauteloso. Sabia que uma perda de bola naquela zona central adiantada podia os apanhar desequilibrados. O empate ao intervalo era por isso um “nó táctico” dado a meio-campo pelas duas equipas.

No arranque da segunda parte, com Renato e Adrien no meio, a zona de posicionamento (não de pressão) subiu. Era um 4x3x3 sem desejos de ser losango, mas destacava um interior, Adrien para marcar a saída de bola de Modric. Essa parte do plano foi cumprida em pleno: prendemos Modric.

Aos poucos começamos a ter mais a bola, em zonas mais subidas mas com os espaços fechados no “xadrez táctico”. Ganhar território de posse não significa obrigatoriamente ganhar terreno de domínio de jogo. Os croatas perceberam-no no primeiro tempo, Portugal no segundo. Assim se chega a um prolongamento, no jogo menos empolgante, mas no jogo tacticamente mais equilibrado que Portugal realizara neste Europeu em 90 minutos.

O jogo em duas jogadas

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Para o prolongamento tínhamos Quaresma. A intenção de criar desequilíbrios implicava correr mais riscos (menor controlo dos espaços sem bola) mas o jogo pedia isso. O mesmo que a Croácia conseguiu com a entrada de Pjaca, o primeiro a criar verdadeiros desequilíbrios na defesa portuguesa.

A suprema ironia num jogo tão fechado como este é o golo da vitória surgir num contra-ataque na sequência da maior oportunidade adversária. A bola entre o poste e a luva de Rui Patrício como o principio para Renato Sanches sair rápido e no remate de Ronaldo e “encostar” de Quaresma, ganhar um jogo em duas jogadas que pareceram pairar ou fugir do resto todo o outro jogo. Num ápice, deixara de ser “xadrez”. Abriu-se um espaço de contra-ataque, o “latifúndio ideal” para a nossa técnica e expressão de jogo.

No global, Portugal aguentou melhor física e tacticamente o jogo na sua parte mais difícil, quando a relva parece fugir dos pés. Saber jogar melhor cansado também é uma forma de ir corroendo o jogo até surgir a oportunidade. Para além de ganhar o jogo, Fernando Santos ganhou uma forma de dar equilíbrio á equipa. Sem dilemas estéticos, com a descoberta da formula táctica de “enjaular jogos e adversários”.

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No jogo menos empolgante, Portugal fez o seu jogo tacticamente mais equilibrado neste Europeu em 120 minutos.