Jogar/Correr na “sombra”

11 de Junho de 2012

Planeta do Europeu (5)

O sexto sentido do futebol alemão continua a ser o músculo. Por isso, o seu jogo é sempre sincero e não admite especulações. A noção de futebol de expectativa não entra nos seus conceitos. Sabe o que é ter respeito táctico (mostrou-o como entrou contra Portugal) mas isso nunca amordaça a equipa. É genético. Portugal, de berço latino, tem outra forma de viver o jogo. Não se incomoda de viver na expectativa. O tempo que for preciso.

O Portugal-Alemanha traduziu esse pedigree das duas seleções. Dirão que ninguém pode querer assumir mandar no jogo contra Alemanha. É verdade. Ás vezes, demais mesmo. É importante para estudar ou gelar o jogo, mas, em certos momentos, tal vira-se contra a própria equipa pois condiciona o seu crescimento no jogo. Alterar esse chip mental (de expectativa para iniciativa) não é fácil.

Os nossos três médios sempre a correr atrás dos três médios alemães ou tendo-os sempre como referencia para o seus posicionamento e até onde poderiam mover-se. Jogar com isso na cabeça, encurta os seus espaços de influência e antecipação no jogo. Por isso, Raul Meireles quase não se viu com a bola e viu-se sempre no...caminho da bola. É um principio de jogo. Dificilmente, poderá ser um meio para atingir um fim.

Podemos pensar o jogo a partir da bola ao poste de Pepe ou da perdida do Varela, mas, em rigor, Portugal receou sempre ultrapassar a fronteira da expectativa. Esperar oportunidades de contra-ataque é muito difícil quando a transição defesa-ataque é tão lenta (exceptuando as saídas individuais de Coentrão) e os jogadores indicados para as fazer estão posicionalmente colocados pela vigilância do adversário. Cobrem espaços antes de pensar invadi-los. Quando, a perder, Portugal mudou o chip da forma de pensar/agir (iniciativa em vez de expectativa) o jogo foi diferente.

Os nossos portugueses (médios sobretudo) sabem dar melhores conselhos à bola do que passar a maior parte do tempo a dizer-lhes os sítios por onde não podem passar. Sabem dizer-lhe por onde devem ir. Agora, têm de mudar esse chip táctico no próximo jogo. Deixar de jogar/correr na sombra.

Quem ajuda quem?

Jogar Correr na sombraÉ comum dizer que a ligação entre-sectores é fundamental no êxito coletivo de uma equipa. A boa organização da Dinamarca que venceu a Holanda foi um exemplo dessa frase, mas existe uma nuance no desenvolvimento prático desta teoria da inter-ligação em campo que raramente vejo analisado. É o sentido em campo em que ela é feita. Ou seja, se de trás para frente (em construção). Ou da frente para trás (em reorganização).

O comportamento táctico dos três sectores da Dinamarca foi perfeito para estudar e perceber a dimensão da segunda versão. Aquela em que a organização (que espelha o plano e a gestão de jogo) começa por ter os avançados a ajudar os médios e os...médios a ajudar os defesas. Desde Bendtner, ponta-de-lança, aos alas que recuam (Rommedhal-Krohn Dheli) e os pivots (Kvist-Zimling) que apoiam, e às vezes quase se encostam, à defesa.

Esta segunda versão de (re)organização e ligação entre-sectores está muito ligada á pressão alta. O que a Dinamarca fez muito bem, quando soltava Zmling e Kvist ou permitia ao alas (sobretudo Khron-Dheli) fechar por dentro no inicio de construção holandesa. Solidariedade táctica.