A jovem desconhecida Geórgia

02 de Agosto de 2017

Na pausa do fervor clubístico, por vezes, emergem nações pouco habituadas ao enfoque mediático. Há quem o mereça, no entanto – pelo perfume do atractivo futebol que deixam e pelas diversas promessas que ostentam. Quiçá, para futuro, essa desconhecida Geórgia tenha ainda mais história para contar.

Por Filipe Coelho

Ora pelos mais novos (Sub-19), a UEFA decidiu atribuir a organização do certame de 2017 à Geórgia, país esmagado a norte pela Rússia e acompanhado a sul pela Turquia. Os georgianos lograram a presença na competição devido à condição de anfitriões mas rapidamente legitimaram a sua participação através de um futebol ofensivo, vistoso e com individualidades tão desconhecidas quanto empolgantes.

Ordenados a partir de um 433 puro, a Geórgia caiu aos pés de Portugal (numa partida em que os locais em nada foram inferiores à turma lusa) e da República Checa (exibição menos conseguida, com erros defensivos em cantos a penalizarem fortemente), vencendo ainda a Suécia por 2-1. Ultrapassando a dimensão do resultado – 3 pontos, ainda assim, não foi um mau pecúlio para um nada habitué nestas andanças –, ficou uma equipa com uma predisposição ofensiva notável, com padrões de qualidade técnica assinaláveis e com um jogo muito enleado.

Destacaram-se, sobretudo, os extremos Arabidze e Chakvetadze, elementos fundamentais no processo ofensivo da equipa. O primeiro já roda no Shakhtar Donetsk, com actuações pela selecção principal georgiana, sendo, não raras vezes, comparado a Lionel Messi pelo fulminante drible com o pé esquerdo a partir do corredor direito, aliando destreza, potência e imprevisibilidade – um portento em condução. De outro perfil, mais alto, esguio e altivo no seu jogo, ‘Chak’ (Dínamo Tbilisi) é ainda mais jovem (17 anos), primando pela elegância nas movimentações, a que associa notável visão de jogo, criatividade, noção de pausa e capacidade de aceleração em passada larga. Com pé contrário preferencial face ao corredor de onde partiram, a busca pelo espaço frontal para desequilibrar foi algo natural, dando outra dimensão ao jogo da sua selecção.

Foi a estes homens-meninos que a turma georgiana mais recorreu quando pretendeu agredir o adversário. Mas este conjunto apresentou ainda uma clareza na saída de bola desde trás assinalável, muito graças a um pivot plenamente capaz na primeira fase de construção. Nada exuberante mas tremendamente eficaz, Kutsia (também do Dínamo Tbilisi) actua com bola de forma serena – para além de ser posicionalmente muito forte no momento da recuperação –, com classe e leveza nos movimentos (muito interessante a sua habilidade para receber de forma orientada e distribuir com critério), rodando muito bem sobre si mesmo e efetuando uma ligação interessante com os interiores. Um porto seguro de onde começar a jogar, muitas vezes ladeado por ofensivos laterais, de onde há a destacar o impronunciável Lakvekheliani (Saburtalo Tbilisi), com uma dinâmica e capacidade de drible notáveis, oferecendo grande profundidade pela esquerda (boa conexão com Chakvetadze em espaços curtos).

Uma equipa que procurou sempre a projecção com bola em detrimento de uma tentativa de especulação do jogo, talvez mais ‘aceitável’ numa nação tão pouco habituada a estas andanças. Não houve medo e a Geórgia, para além da capaz organização, convenceu também dentro das quatro linhas.