JUGOSLÁVIA: O FIM E O PRÍNCIPIO

27 de Dezembro de 1997

JUGOSLÁVIA O FIM E O PRÍNCIPIO

No inicio do ano de 1996, a ponte que se ergueu sobre o rio Sava, para voltar a ligar a Croácia á Bósnia, simbolizava uma passagem do passado para o futuro. No presente esta é uma travessia temporal muito complexa, que se espelha nas adversidade atmosféricas, das neves e marés, que emolduram as recordações de um pesadelo recente, de uma história secular, iniciada no século V, quando os eslavos do Sul- significado que tem a palavra jugoslavo (jug=sul)- atravessaram os Cárpatos e entraram, organizados em tribos, pelo grande vale da Panónia, na península balcânica, ocupando um território onde mais tarde se ergueria a Jugoslávia, e onde as viagens de uma bola de futebol por entre a neve das montanhas iriam servir durante muito tempo para unir os "olhares morenos" das diferentes etnias que nele habitaram.

Foi em 1918, depois de quatro anos de lutas e a primeira guerra mundial, com o fim do império austrohúngaro que se formou um primeiro Estado conjunto dos Eslavos do Sul, chamado Reino dos Sérvios-Croatas-Eslovenos. Na segunda guerra mundial a Jugoslávia foi novamente atacada e invadida pelas tropas de Hitler e Mussolini e apesar de divididos, foi devido á sua pertinaz resistência ao invasor, chefiada pelo Marechal Tito, que reconquistou a sua independência, formando em 1945, a Republica Federal Popular da Jugoslávia, que englobou a Sérvia, Croácia, Eslovénia, Bósnia Herzegovina, Macedónia e Montenegro. Um território pelo qual se estende um vasto sistema de montanhas, sendo as mais altas as que pertencem ao sistema dos Alpes, até á costa do Mar Adriático, território croata, com um clima mediterrâneo, contrastando com o clima continental do interior, atravessado pelo Danúbio, o rio que cruza a capital Belgrado, transformando-se nas regiões mais altas, em alpino.

JUGOSLÁVIA O FIM E O PRÍNCIPIOA Jugoslávia manteve-se unida durante 70 anos, absorvendo as diferenças e rivalidades étnicas entre os várias povos das Balcãs, contidos em séculos de história em comum, mas que manteve sempre abertas as feridas da segunda guerra mundial por sarar, abertas. Com a morte do marechal Tito, seu líder carismático, e o desmembramento da URSS, esta união desapareceu, culminado na mais terrível guerra que a Europa conheceu após o desaparecimento dos seus céus dos voos razantes da Luftanza Nazi. O futebol coexistiu por todo este ambiente. Na face visível da guerra há um tempo para clivar diferenças, um tempo de "explosões", mas por entre toda a intolerância e ódio que estrangulou esta união, os que mais sofrem serão, provavelmente, são aqueles que acreditavam nessa possibilidade de coexistência multi-étnica sob a mesma bandeira, no mesmo território, sem as fronteiras malditas que o ódio devorou. No futebol, os que viam jogar aquela fabulosa selecção jugoslava que despontou nos finais dos anos 80 e se encontrava, em vésperas do Euro-92, na Suécia, na plenitude das suas capacidades, partilham, sem o drama da guerra, de uma visão semelhante.

JUGOSLÁVIA O FIM E O PRÍNCIPIOAs regiões estão hoje étnicamente mais puras e homogéneas, mas não se apagam séculos de história em comun. com a mesma facilidade com que Stojkovic marca livres em "folha seca" á entrada da área. Também eram muitos os que acreditavam nessa união jugoslava dentro de um relvado de futebol. A realidade de hoje destruiu esses sonhos. Como sempre, a realidade venceu o sonho, uma luta terrivelmente desigual e injusta. Numa altura em que todo este território procura recuperar dos traumas da guerra, por entre os papelões e plásticos que tapam as janelas dos prédios esventrados pelas bombas da guerra, todo o mundo do futebol permanece nostálgico do futebol da velha Jugoslávia. Os olhares desse milhares de adeptos perdem-se nas décadas anteriores, amantes das "estrelas" que, com o seu jogo artístico e tecnicamente perfumado, fizeram a Jugoslávia ser conhecida como o "Brasil da Europa", comandada, através dos tempos, por homens míticos no futebol das Balcãs, como Miljan Miljanic, o seleccionador que a levou à final do europeu-68 (que perdeu no jogo de desempate com a Itália, por 2-1) e ao Mundial-74 e mais tarde triunfou no Real Madrid, Branko Zebec, também jogador de classe nos anos-50, Miroslav Pavic, que passou pelo Benfica, e Ivica Osim.

JUGOSLÁVIA O FIM E O PRÍNCIPIODentro dos relvados sempre evoluíram jogadores com uma magia técnica atípica, um estilo misto de "latinidade" com contornos de inspiração sul-americana, que reflectia as múltiplas influências de vários povos então unidos. Um trajecto iniciado desde a fundação da federação jugoslava, em 1919. Na sua história figuram cinco finais olímpicas (52, 56, 60 e 80), mas a vitória só apareceu no inicio da década de 60, apesar da sua grande figura da época, o goleador Galic ter sido expulso no jogo da final. No lendário Mundial de 30, no Uruguai, chegou ás meias-finais, com uma equipa de onde a história eternizou os movimentos artísticos de Tarnanic, Mariovanic e Beck. No Brasil, em 50, ficaram registados os talentos de Mitic e Bobeck, mas seria nos Mundiais de 58 e 62, que o mundo iria finalmente descobrir um fabuloso jogador jugoslavo: Sekularac, o mítico extremo do Estrela Vermelha, classe e técnica ilustravam o seu jogo "cerebral", "decorado" com "dribles cintilantes". Mais tarde, surgiu Dragan Dzajic, talento dos anos-70, até ao final dos anos 80, onde despontaram as maiores "estrelas" de toda a história do "firmamento" jugoslavo.

JUGOSLÁVIA O FIM E O PRÍNCIPIOEm 1987, no Chile, um talentoso grupo de eslavos irrompeu no Mundial de juniores sub-20, conquistando o titulo mundial com um futebol que maravilhou toda a critica da altura. Entre esses talentos estavam "tean-agers" como Prosinecki, Boban, Suker, Boksic e Stoickovic, que pouco tempo depois, em 1990, formaram o bloco da fantástica equipa que brilhou no Mundial de Itália, e que a nível de clubes, conquistaram, em 1992, ao serviço do Estrela Vermelha, a Taça dos Campeões Europeus (Bari, vitória sobre o Marseille, nos penalties). Poucos meses depois, no Outono de 1990, em Zagreb, capital da Croácia, um jogo do campeonato jugoslavo, entre o Dinamo Zagreb e o Estrela Vermelha, símbolo do nacionalismo sérvio, terminou com uma invasão de campo e com violentos confrontos entre os adeptos dos dois clubes, uma batalha étnica dentro de um relvado de futebol, nessa altura palco privilegiado para a exteriorização do conflito latente entre as diferentes facções. Fora das competições internacionais durante quatro anos, a Jugoslávia reapareceu envolta em algum mistério sobre o seu real valor.

O seleccionador Slobodan Santrac, antigo treinador do Galenic, sem a notoriedade dos antecessores Osim ou Cabrionic, é, após muita indefinição e contestação, uma aposta pessoal do Presidente da Federação, M. Miljanic, e ambos acreditam na qualificação para França-98 (apesar de no grupo de qualificação estarem a Espanha e a Rep.Checa). Uma aposta que resulta muito dos limitados recursos financeiros que afecta todas as estruturas do futebol Jugoslavo, inclusive os seus principais clubes, que perderam as suas estrelas e o apoio estatal que advinha do regime comunista que suportava esses grandes clubes como bandeiras do sistema e onde o nível do campeonato desceu consideravelmente.

A sua fantástica selecção, sem dúvida a melhor que o país conhecera nos últimos 30 anos, foi, assim, afastada do Europeu-92, na Suécia, onde era para muitos a grande favorita á vitória, e no mesmo seguimento a grande equipa do Estrela Vermelha desintegrou-se. Com o fim do campeonato unido da Jugoslávia e a abertura das fronteiras, todas as grandes "estrelas" do futebol eslavo rumaram para o estrangeiro, depois de décadas em que a Federação, de acordo com as directivas governamentais, impediram as transferências para o exterior de jogadores com menos de 28 anos. Neste novo cenário Stojkovic foi para o Marselha, depois esteve em Verona e hoje joga no Japão, no Nagoya Grampus, Savicevic e Boban foram para o AC Milan, Suker foi para o Sevilha, e hoje está com Mijatovic(ex-Valência), no Real Madrid, Boksic, depois da Lazio joga na Juventus e Mihaijlovic, entre muitos outros, actua no Roma.

JUGOSLÁVIA O FIM E O PRÍNCIPIODesapareceram os grandes jogos entre o Estrela Vermelha e o croata Hadjuk Split ou com o Partizan, e com eles as receitas desses encontros. Neste contexto, o futebol na Jugoslávia procura "renascer das cinzas". Branko Bulatovic, secretário-geral da Federação de Futebol Jugoslava é um homem amargurado:" As sanções foram injustas e prejudicaram-nos muito. ficamos injustamente fora do Euro-92 e do Mundial-94. Política é política. Desporto é desporto. O Iraque foi banido do futebol? Eles quase se qualificavam para o EUA-94.Foram sanções sem precedentes e os nossos jogadores foram os únicos a sofrer com toda esta situação. Porque é que a Croácia regressou dois anos mais cedo? Eu sei porquê, mas nem quero dizer", deixando no ar a suspeita que o "lobby" germânico na UEFA e na FIFA pesaram a seu favor contra os sérvios.

Em Belgrado(Beograd, "vila branca", em sérvio), capital da Sérvia e da ex-Jugoslávia, cidade fundada na antiguidade pelos celtas, mora o Estrela Vermelha, hoje presidido pelo ministro da economia, Vladimir Cvetovic e treinado por Petrovic, antiga estrela do Arsenal no inicio dos anos 80. O clube mais emblemático da história do futebol balcânico construiu 6 novos relvados, junto ao seu lendário estádio "Marakana", para redescobrir o talento inato para o futebol dos seus jovens, embora agora com um menor campo de recrutamento, dentro de um projecto global baptizado de "Horizonte 2005", mas o antigo jogador Dzajic, hoje director do clube, mostra-se algo apreensivo: "Para se construir uma boa equipa, capaz de ir longe nas competições europeias, serão precisos 4 ou 5 anos, mas sem as receitas desses jogos, será difícil segurar por muito tempo os nossos melhores jogadores, e actualmente é difícil qualquer equipa jugoslava passar da segunda eliminatória europeia...".

Dos 22 jogadores que estiveram no Mundial-90, apenas dois permanecem na selecção jugoslava: Stojkovic, sérvio, e Savicevic, montenegrino, os outros na sua maioria actuam pela Croácia, que manteve no seu comando o polémico Miroslav Blazevic. As novas estrelas são Mijatovic, avançado "vagabundo" do Real Madrid, grande domínio de bola, visão de jogo e facilidade de remate, joga preferencialmente como segundo ponta-de-lança. Jugovic, médio da Juventus, organizador de jogo, joga á frente da defesa e é a quem pertence a maioria das vezes o primeiro passe no inicio das jogadas de ataque, Pantic, médio do At.Madrid, exímio marcador de livres, e Savo Milosevic, o possante ponta-de-lança do Aston Villa, algo lento, mas com grande técnica e capacidade de remate forte, de fora-da-área.

O futebol, inacreditavelmente, continuou a ser jogado mesmo durante o tempo de guerra, e cada nação manteve o seu campeonato. Mas nos acordos de paz de Dayton, muitos papeis foram assinados, incluindo um de vertente desportiva, que visava criar uma Liga unificada entre croatas, muçulmanos e bósnios- sérvios. O homem escolhido para estas reformas foi Dzemaludin Musovic, que largou o comando de uma equipa nos Emiratos Árabes Unidos, para procurar reunificar á volta de uma bola de futebol aquilo que uma guerra fratricida dividiu brutalmente. No momento em que Saraejvo "renasce das cinzas", a selecção Bósnia realiza os seus jogos na Itália, em Bologna. O seleccionador Fuada Muzurovic acredita no seu grupo : "Podemos formar uma equipa interessante. Temos bons jogadores a quem falta experiência internacional e conjunto" ,o que ficou evidente nos primeiros jogos contra a Grécia e Croácia.

JUGOSLÁVIA O FIM E O PRÍNCIPIO5A selecção croata continua a ser a que aparece como a mais forte, no seguimento da campanha do Euro-96, conduzido pelo polémico Miroslav Blazevic:"A Croácia têm os melhores jogadores do mundo, agora cabe a nós treinadores combinar os seus talentos e fazer uma grande equipa". As suas grandes "estrelas", Boban, Suker e Bocksic, surgem agora mais fortes psicologicamente, depois da presença em Inglaterra onde foi evidente para todos que a equipa tinha valor para ir mais longe, mas as arrogantes loucuras tácticas de Blazevic comprometeram de forma decisiva a campanha de um conjunto técnica e fisicamente de capacidade invulgar. Antropologicamente, a maioria dos croatas, morenos e de alta estatura, pertencem à raça adriática, intermediária entre os eslovenos e os sérvios.

Foi cerca do sec.X, que este povo, oriundo dos junganis da Índia, entraram na Europa pelas margens do Danúbio, espalhando-se pela região balcânica, trazendo no sangue as origens dos negros primitivos da península hindustânica, dando, depois, com o cruzamento de raças, origem á etnia cigana na Europa. Muito contestado pela critica croata, Blazevic esteve perto de abandonar o comando técnico da selecção mas o seu carisma e um discurso mais prudente reconduziram-no á frente dos destinos do futebol croata. A Eslovénia e a Macedónia de Pancev, antigo avançado-centro das grandes campanhas europeias do Estrela Vermelha e da Jugoslávia, no Mundial-90, são as selecções com menos possibilidades de qualificação, mas a vontade dos seus habitantes nunca irá deixar sair da tradição destes povos a paixão pelo futebol, em tempo de harmonizar a vida com as memórias de sofrimento que o tempo nunca irá apagar completamente.