Copa América 2016: La Mano de Díaz e o Diabo Dunga

13 de Junho de 2016

COPA-AMERICA-2016

 

Brasil vs Peru: A análise à eliminação do Brasil na primeira fase. Dunga já não tem nada de relevante para dar ao futebol brasileiro

Por David Guimarães

Brasil (4x2x3x1) entra sem ser pressionado, livre para sair apoiado na primeira fase de construção, com o quarteto defensivo a circular entre si, para depois procurar a dupla de médios defensivos, Renato Augusto e Elias, que faziam a ligação de sectores sem risco de perder o esférico. Os tais “siameses tácticos”, sempre de perfil, têm mais potencial neste posicionamento recuado do que na anterior linha excessivamente adiantada (jogando de trás para a frente e não o inverso). Continuam a ser dois jogadores iguais nas valências, mas pelo menos iniciam as movimentações a partir do espaço que mais as favorece (a chave para a tão almejada “dinâmica”).

Sem se confrontar com a pressão contrária, o duplo pivot consegue facilmente solicitar Lucas Lima e principalmente Coutinho, que vem de fora para dentro pautar o jogo brasileiro (circulação curta ou passe longo para as faixas). Nesta interligação, a largura era dada pelos laterais, Daniel Alves e principalmente Filipe Luís (muito activo a cruzar e rematar, sendo útil também a impedir o contra-golpe contrário, com roubos de bola adiantados, mesmo em zonas centrais).

O Brasil alternou muito bem uma toada mais pausada com tentativas de ataque-rápido, pretendendo tirar partido das poucas vezes que o Peru espreitava o momento ofensivo. Destaque para Willian, o jogador mais culto da canarinha, tendo a percepção da complexidade do jogo e a noção exacta de como lhe responder (arranca em transição veloz dando largura ou procura diagonais interiores para finalizar).

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O Peru (4x2x3x1) apenas jogou em 30 metros, procurando organizar-se defensivamente. A zona de pressão estava localizada muito próxima da sua área, numa abordagem pouco agressiva. Somente os dois centrais (principalmente Ramos, mas também Rodriguez) foram proactivos sobre a bola e até na marcação ao homem, embora contando com alguma condescendência do árbitro para “limpar” a grande área.

No segundo tempo os peruanos alteraram tacticamente, fazendo sair o trinco Balbín para dar lugar a Yotun (que entra para a mesma posição, embora seja habitualmente um médio ala de raiz). Destacado para a zona de Lucas Lima, roubou mesmo algumas bolas em confronto directo e foi um exemplo concreto da mudança global de posicionamento da equipa (linhas mais subidas).

Tendo de ganhar o jogo para passar à fase eliminatória, o seu treinador, Ricardo Gareca, decide arriscar um pouco, fazendo sair Flores (extremo) para a entrada de Ruidíaz (avançado-centro), que se juntou ao experiente Guerrero, passando a um 4x2x4 com a ida para a faixa de Yotun.

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No entanto, faltou algum discernimento e qualidade ao Peru na circulação de bola, que utilizou somente o pontapé para a frente (diferente de passes longos procurando a profundidade). Mesmo assim, os centrais brasileiros sofreram com esse jogo directo, Miranda foi incapaz de aliviar para longe contrariando o perigo. Foi com esse padrão que o Peru chega ao golo. Ruidíaz responde a uma assistência com um golo de braço (única jogada de perigo em todo o encontro).

A esta batotice, Dunga respondeu com burrice (melhor dizendo... nem respondeu). Com mais uma substituição para fazer (já tinha entrado Hulk), deixou os avançados Walace e Jonas no banco, bem como exímios rematadores de segunda linha a ver de fora os minutos finais (Lucas Moura). Elias terminou a ponta-de-lança, finalizando de forma desastrosa um lance fácil na pequena-área (culpa do treinador que o obrigou a estar numa zona em que não define com qualidade). O Brasil estava eliminado da prova.

O durão Dunga está de facto cada vez mais monolítico. Sem qualquer flexibilidade no seu modelo de jogo, nem uma decisão lógica de desespero conseguiu tomar. Dunga é, sem dúvida, alguém a quem a nação brasileira deve respeito. Fez história com o “Tetra” e foi impulsionador de uma mudança de paradigma na modalidade. Ao "futebol arte dionisíaco" (espontâneo e livre) já estabelecido, adicionou um "estilo apolíneo" (ordem e racionalidade táctica) que sempre personificou e difundiu (com resultados práticos nos Mundiais 94 e 2002). Mas, neste momento, parece que o Brasil perdeu a sua criatividade natural e apenas “joga feio”. Agora, é preciso o movimento inverso para recuperar o “Deus Dionísio da Bola”. Mas, com Dunga, tal não é possível, visto que já nada de relevante tem para dar ao futebol brasileiro.