LAZIO

27 de Junho de 1999

O futebol romano tem um novo Imperador. Depois do titulo dos remotos anos 70, com Chinaglia, Re Cecconi e mister Maestrelli, no final do século, em poucos anos, um mar azul celeste voltou a invadir todo o Calcio. Milhões de liras e grandes estrelas como Mancini, Nedved, Mihailovic, Nesta, Boksic, Casiraghi, Couto, SAlas, Signori e, muitos, muitos outros. Na hora do assalto final dos “ragazzi” de Ericksson, a recordação de que há cerca de 16 anos o mesmo comandante, então muito mais novo e partindo de Lisboa, já fizera tremer o Império romano...

LAZIOCorria o ano de 1983 e a AS Roma guiada pelo velho patriarca sueco Nils Liedholm seguia imperial rumo á conquista do Scudetto, o segundo da sua história, desenhado no relvado por Falcão e Bruno Conti. A Taça UEFA não era a prioridade, mas os ecos da vocação expansiva do velho Império Romano aconselhavam sempre, mesmo que dentro apenas de quatro linhas, a mais uma triunfante cruzada. Foi então que num tranquilo inicio de tarde dum dia de primavera entrou na via romana outro grupo de homens, mais discretos mas não menos destemidos. O seu guia era outro sueco, com idade para ser filho do velho Liedholm, de semblante jovem e com a vida toda á sua frente. O seu nome, porém, não tardaria muito em ser uma referência no Império do futebol italiano: Sven Goran Eriksson, nesse tempo promissor técnico do novo Benfica que sonhava reviver os feitos dos anos 60. Em simples 90 minutos, sem o clamor das grandes batalhas, aquela Roma que a imprensa transalpina dizia invencível, cairia frente aquele a um Benfica tacticamente superior (2-1), traduzido na prática em dois quase confidenciais golos de um jugoslavo sempre muito bem penteado: Filipovic. Uma lição de futebol que levou o magno presidente romano Viola a, pouco mais de ano depois, convidar Eriksson para ser o novo comandante táctico da AS Roma. Chegara a hora de Liedholm encostar a espada e o escudo. Desde a sua primeira época 84/85, Eriksson já passou 12 épocas no exasperado e apaixonado Calcio. Um percurso que passou por Roma, Fiorentina, Sampdoria e Lazio, afinal um regresso á “toca da loba”, por entre um curto regresso de dois anos á Luz e ao pacato sol de Cascais. Passados estes anos é um Eriksson com mesmo porte de gentleman, fortalecido pela experiência e conhecimentos adquiridos para quem o futebol nunca será uma questão de vida ou morte, que viemos descobrir á frente da poderosa Lazio versão/99, sem dúvida o onze mais forte da história de um clube que para o ano cumpre 100 anos de vida e que nasceu e cresceu sempre na sombra do gigante romano, desde os remotos tempos em que Bigiareli e Balestrieri, seus fundadores, criaram um clube que pretendia ser a exaltação dos nobres valores do desporto de Coubertin, tendo por isso decidido atribuir ao clube as cores da bandeira grega, nação berço das Olimpíadas da Era moderna.

LAZIO1Em 100 anos de futebol, a Lazio apenas por uma vez foi campeã de Itália, em 73/74. Um scudetto lendário eternizado pelos golos do gigante Giorgio Chinaglia e pelos cabelos brancos do malogrado Tommaso Maestrelli, o sábio técnico que cometera o milagre de em 3 anos levar o clube da Série B ao título máximo. Um homem para sempre no coração dos “tiffosi laziale”, cujo espirito continua presente em torno do banco da equipa azul-celeste. Uma inspiração agora transportada por Eriksson embora sem o mesmo contorno épico que decorou o triunfo de 74. Nesse tempo o clube não nadava em dinheiro, as Liras eram todas contadas, pelo que a squadra fora formada por homens longe de serem grandes estrelas. Pulici e Garlascheli vinham da Série B, o próprio goleador Chinaglia vinha de ser recusado pela Roma, o que só tornou a vitória mais doce, e apenas Re Cecconi custara algum dinheiro. Muita coisa mudou desde então. Hoje Eriksson quase sorri dos tempos de Maestrlli. No presente, a Lazio é um projecto megalómano que não olha a despesas para atingir os fins, impulsionado e gerido pelo milionário empresário, Sérgio Cragnotti, que nos últimos cinco anos investiu uma fortuna louca no futebol do clube. Desde que entrou na Lazio, o homem que muitos começaram por ver como um pequeno Berlusconi todos os anos decora o clube com grandes estrelas do futebol mundial, por onde passaram nomes como Gascoigne, Riedle, Doll, Chamot, Casiraghi, Winter, Di Matteo e Signori, entre tantos outros, até aos heróis do presente onde brilham Salas, Mancini, Vieri, Mihailovic, Nedved, Almeyda, Nesta, Bosksic e De la Pena, para além dos portugueses Sérgio Conceição, um indiscutível até a jogar na ala esquerda e que foi uma aposta pessoal de Ericksson, e Fernando Couto. Tudo a peso de ouro, mas quando se pede ao “Mister” sueco para citar um nome entre todos, Eriksson surpreende, ou talvez não: Stankovic, é o jogador que pode fazer o maior número de lugares e com 20 anos tem uma enorme margem de progressão. O reforço mais desejado? Talvez, Véron, a brujita do Parma.

LAZIO3Na mente de Cragnotti está transformar o futebol num símbolo vitorioso do seu empresarial império alimentício, a Cirio da Cragnotti & Partners. Outra sua coroa de glória aconteceu quando em Maio de 1998 tornou a Lazio no primeiro clube italiano cotado na Bolsa de Valores. As vitórias do presente entusiasmam naturalmente os seus principais investidores ávidos de retirar dividendos monetários delas, apesar da indiferença dos genuínos tiffosis da equipa para quem a Lazio é outra coisa. Permanecerá sempre no nosso coração mesmo que não vença o Scudetto, e o encolher de ombros dos jogadores, tornados accionistas do clube numa operação de charme que visava cativar o tifossi de bancada que vai aos jogos de gorro e cachecol e para quem toda esta encenação financeira não diz nada, expresso na forma displicente como Mancini quando questionado sobre o facto respondeu “Sim, mas para nós jogadores o único que importa é ganhar no campo...”. A verdade, porém, é que a Lazio é hoje um monstro do Calcio milionário o que sem Cragnotti seria totalmente impossível. Nos últimos dez anos o futebol tornou-se cada vez mais louco e megalómano. Os tempos e os feitos de Maestrelli repousam para sempre no abrigo das lendas. Durante o século, a vida da Lazio, parente pobre no cenário do futebol romano, nem sempre foi fácil. Por cinco vezes a equipa escorregou para a Série B, a última das quais em 1980 envolvida no Caso-Totonero que também arrastou o Milan, regressando apenas em 1988 á Série A.

Antes porém da fleuma de Eriksson, outros dois homens deixaram nos últimos anos marcas no banco da Lazio: Zoff e Zeman Depois de sair da Juventus em 90, Zoff encontrou abrigo na Lazio. O estilo simples e cordial do “avô” Zoff, um herói do Mundial-82, ajudou a construir, na imprensa e entre os tiffosi, uma imagem de simpática leveza artística que se tornou emblema do atraente jogo da equipa azul celeste, embora longe de pensar no Scudetto. Um carisma que levou Cragnotti a ver em Zoff a imagem perfeita para cativar os bastidores do Calcio, convidando-o em 1995 para ser presidente do clube. Um cargo que desempenhou eficazmente até ao inicio desta época quando foi chamado para seleccionador nacional. Um apelo irrecusável no futebol italiano. O rastilho que actualmente mais eleva a chama da secular rivalidade com a AS Roma é corporizado no monocórdico técnico checo Zdenek Zeman. Hoje na Roma, ontem na Lazio, mas sempre envolto numa densa nuvem de fumo. Ora do cigarro atrás de cigarro que fuma, ora das explosivas declarações sobre doping que esta época decidiu fazer. Zeman não deixou saudades entre os adeptos na Lazio pelo que os quatro vitórias obtidas a época passada sobre a sua Roma, duas para o Scudetto e duas para a Taça, levaram á construção de uma placa que passou a figurar na entrada dos campos de treinos da Lazio, com a indicação das datas, resultados e nome do técnico triunfador. Eriksson, claro, mentor como se pode ler da Viale dei Meravigliosi. Uma mármore para a eternidade. Um testemunho da geração presente que visa inspirar talentos vindouros.

Apesar da fama de vencedor, Eriksson, mesmo na poderosa Roma do inicio dos anos 80, nunca foi campeão em Itália. Limitou-se a vencer duas Copas de Itália. Os seus maiores triunfos aconteceram no Goteborg e no Benfica. Em plena euforia, a um passo de um Scudetto que é uma obsessão, Eriksson renovou pela Lazio até 2002: “Recebi outros convites mas nenhum clube mundial tem uma organização melhor que a nossa e a equipa ainda pode ser melhorada” Estará no horizonte do Calcio um ciclo de domínio da Lazio? “Não sei se vamos abrir um ciclo, mas acredito num grande futuro.” A estas missões muitos chamam compromissos profissionais. Para os tiffosis que amam o futebol como a vida, são apenas a razão de ser da existência humana. Avé, Lazio!