LER O JOGO: O QUE É UM BOM PASSE?

27 de Julho de 2014

O grande Kopa dizia que, no futebol, era simples marcar a diferença: “basta um drible bem feito e tudo muda!”. Com a devida vénia, diria que nem sempre é assim. O mesmo drible feito em locais distintos tem impactos totalmente diferentes no jogo. Uma finta a meio-campo (como Sertling faz quase num número de circo) é bonito mas tem efeito nulo no jogo. A mesma finta junto à área, tirando um defesa do caminho, abre espaço para o golo. E, ai sim, tudo muda. O gesto que verdadeiramente muda um jogo, em qualquer espaço, é outro: é o passe de qualidade.

A forma que mais gosto para descrever um bom jogador é dizer que ele tem excelente “leitura de jogo”. Esse saber “ler o jogo” emerge através do passe. Para fazer a equipa sair da pressão desde trás (passe de transição de Mascherano, Argentina, ou Vasquez, México), para a fazer avançar a meio-campo (passe burocrático de Diaz, Chile, ou Pirlo, Itália) e o chamado “ultimo passe” que põe a bola perto do golo (passe entrelinhas de Hazard, Bélgica, ou Valbuena, França). Até Óscar, Brasil.

Avaliar o que é um “bom passe” exige saber de futebol. Porque, muitas vezes, tal fica mais dependente de quem o recebe do que quem o faz. Ou seja, muitas vezes define-se erradamente como sendo um “mau passe” quando na verdade quem falhou não foi quem passou mas quem não o soube receber. Por não estar no local certo, por mover-se mal em função do que se pedia, ou por arrancar tarde demais para o receber no espaço. Muitas vezes quando vejo elogiar o “sprint” dum jogador, penso que tal só sucedeu porque ele... arrancou tarde.

Mas onde o passe acende mesmo as luzes da equipa é nos pés dos nº10, espécie que hoje vive escondida (ou desterrada) nas faixas. Quando aparece, tudo muda.

Valbuena, Asterix de cabelo curto Velha Gália, é o jogador menos reconhecido nessa ação. Hazard, é um aprendiz de feiticeiro que parte desde a ala, quando devia ser mais vezes no centro. O seu passe de morte, em corrida bola controlada, cabeça levantada, dando o golo a Mertens, foi dos melhores momentos de leitura de jogo deste Mundial. Ver o futebol como ler um bom livro.

O QUE FAZ PIRLO A “Nº8”?

LER O JOGO O QUE É UM BOM PASSECausa impressão entre aqueles arquitetos do passe, Pirlo aparecer no meio e não no inicio da jogada. A verdade é que tal resulta da posição em que ele está a jogar no 4x3x3 de Prandelli, que o retirou de nº6, dando esse lugar ao trinco De Rossi, fazendo subir Pirlo para 8, onde a pressão (alta ou média-baixa) dos adversários retira-lhe espaço e, sobretudo, tempo, para receber e executar.

Como joga quase sempre a um toque, acaba na mesma sempre por purificar a jogada, mas não é a mesma coisa. A rotação que se exige nessa zona é muito superior ao que Pirlo pode hoje dar ao jogo. Por vezes, com a sua superior percepção (leitura) de jogo, recua uns passos, encontrar espaço menos “militarizado” e o passe de qualidade que faz a diferença surge. Como o que isolou Balotelli. Ou seja, fez na mesma o passe numa zona adiantada, mas surpreendendo onde aparece, não se tornando desde a origem visível aos adversários que mal o veem encurtam-lhe a relva para jogar em seu redor.

Ver a Itália num Mundial é sempre algo profundamente dramática na sua eterna tentação de transformar heróis em atores secundários.