Liderança do “vagabundo”

24 de Janeiro de 2008

O poder. Uma palavra afrodisíaca. Nunca caminha só, no entanto. Incorporada por um ser humano, coexiste com a personalidade deste. É bom saber que o poder e a coragem coexistem. Como o poder e a sabedoria. É assustador saber que vivem juntos poder e medo. Ou, pior, poder e insensatez. Os clubes de futebol são hoje um meio fácil de teorizar sobre estas correlações entre o poder e os que o rodeiam. O presidente no topo da pirâmide. O treinador no fundo, rente à relva. Parece que no espaço que os separa se trava uma batalha interna. Quantas pessoas cabem no meio deles? Só duas. Apenas as que traçam as directivas desportiva e económicas.

Conta-se que, nos anos 80, Juan Corbalán, então capitão da equipa de basquetebol do Real Madrid, recebia os novos jogadores, fazendo-lhes um pergunta: “Quem é mais importante no clube? O presidente ou tu?”. Parecia uma pergunta simples e todos respondiam sem hesitar: "O Presidente, claro!" Corbalán ficava indignado e logo lhes ensinava uma premissa básica sobre o compromisso que cada um deve ter com o clube desde que chegava: “Repara, quando o jogo começa e a bola está nas tuas mãos, o presidente não existe. Nesse momento, para todos, adeptos, jornalistas colegas, etc, o Real Madrid és tu!”. Rui Costa foi sempre um jogador diferente. Desde os tempos de júnior até ao presente. No campo, pela personalidade com que conduz a bola. Fora dele, pela personalidade com que conduz o discurso. Penduradas as botas, o futuro está, claro, no segundo caso.

O presente ainda cruza, no entanto, os dos cenários. E confunde-os. Até turvar a visão de qual terreno vive hoje exactamente Rui Costa. Muitas vezes vendo-o o jogar, lembro um teria de Tom Peters, um guru da gerência de negócios, no livro "Em Busca da Excelência", onde defendia a teoria da “liderança por vagabundagem”, ou seja, que é indispensável andar vagueando por entre a equipa, como um vagabundo sem direcção, sendo parte dela, lendo olhares e mentes, para a saber entender e seduzir. Rui Costa faz isso dentro do campo. Acredito que também saiba vagabundear da mesma forma fora dele. E qual seria então o papel do Presidente nesse momento? Talvez o mais simples e o mais difícil: o papel de “desaparecer”. Naquela altura não cabe mais ninguém entre a equipa e o seu tutor-director desportivo.

Liderança do “vagabundo”Liderar uma equipa de futebol não é muito diferente de gerir uma empresa. Em ambas, é preciso visão. Estudar os comportamentos humanos.

No futebol, o jogador sente a “agressão” do êxito desde que nasce. Por isso, os seus gestores devem “domadores de feras”. As feras são construídas pelos egos dos futebolistas. É por isso que não acredito na teoria do “bom balneário” numa grande equipa. São demasiadas estrelas, demasiados egos gigantescos, em confronto. Passeando por uLiderança do “vagabundo”ma livraria, são muito as obras que surgem agora sobre gestão e liderança. Gosto de as folhear. Durante muito tempo porém, não entendi uma resposta que o gestor de uma grande empresa dera quando lhe perguntado quais os seus livros de referência nessa área. Falou no “Príncipe de Maquiavel” e na “Alice do País das Maravilhas”. Só depois os ler e ver, percebi o alcance. Lendo em “O Príncipe” que algumas “virtudes” levam os príncipes ao desaparecimento, ao passo que alguns “vícios” permitem-lhes sobreviver, ou reparando como em Alice se destacam as personagens das cartas humanas que se movem loucamente e de um coelho que a leva para um poço.

Analisadas pela realidade, todos conservam uma curiosa lógica em seus actos, Cabe a Alice, que cresce ou encolhe conforme aquilo que come, assistir, compreender e manipular todo este jogo. Metaforicamente, como numa empresa ou numa equipa de futebol. A figura mais importante é sempre quem, a cada momento, tem a bola.